O historiador Justo L. González cita em sua lista dos
bispos de Roma em ordem cronológica: Lino (?), Anacleto (?), Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleuterio
(175-189), Vítor
(189-199), Ceferino
(199-217), Calixto
(217-222), Urbano
(222-230), Ponciano
(230-235), Antero
(235-236), Fabião
(236-250), um total, até aqui [2],
de dezenove bispos de Roma. O próximo que veremos abaixo é Cornélio (251-253).
“Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que
por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. NelaFabiano
consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado” (H. E., 6:
XXXIX.
Como Eusébio destaca, Cornélio sucedeu o bispo Fabiano (ou
Fabião) em um dos períodos mais turbulentos da história inicial da Igreja
cristã. Seu episcopado, entre os anos ocorreu logo após a perseguiçãodo
imperador Décio, que deixou profundas feridas internas na comunidade
cristã, especialmente quanto ao destino dos fiéis que haviam renegado a fé sob
coerção. Veja este Edito de Trajano Décio Trajano
Décio,nome
referendado pelo Senado:
“Todos os habitantes do
Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua
comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o
sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles
obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante
aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos
nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício” [3].
Alguns cristãos “... correram a obedecer ao edito
imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum
tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios
diante dos deuses. Outros, talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do
poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros,
enfim, permaneceram firmes, e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis
que seus verdugos pudessem impor...” [4].
Como afirma González, “... o propósito do imperador não era criar mártires,
mas apóstatas...” (Idem, pág. 140). Os cristãos que, temendo a morte,
cederam à pressão do rei, passaram a ser conhecidos como lapsi (os que
“caíram”). “Mas agora, com a nova situação criada pelo edito de Décio,
apareceu um grupo de pessoas que permaneciam firmes na fé, mas cuja firmeza não
levava à coroa do martírio. A essas pessoas que haviam confessado sua fé em
meio das torturas se lhes deu o título de ‘confessores’" (Idem, pág.
141).
Com o fim da perseguição, surgiu um grave dilema pastoral:
seria possível readmitir os lapsi ou (lapsos) à comunhão da Igreja? Foi
nesse cenário que Cornélio foi eleito bispo de Roma [5],
após um longo período de vacância do episcopado, causado justamente pela
perseguição.
A eleição de Cornélio não foi pacífica. Um presbítero
romano chamado Novaciano, defensor de uma postura rigorista, opôs-se à
sua nomeação e chegou a se proclamar bispo rival, tornando-se um dos primeiros
antipapas da história.
Novaciano defendia que os lapsi jamais poderiam ser
readmitidos à comunhão, mesmo após arrependimento. Cornélio, ao contrário,
adotou uma posiçãopastorale misericordiosa, sustentando que,
após penitência sincera, os lapsi poderiam ser reconciliados com a Igreja.
Essa posição foi confirmada por um sínodoromano [6],
que apoiou Cornélio e condenou o cisma novacianista. O bispo Cipriano de
Cartago foi um dos principais aliados de Cornélio, defendendo sua
legitimidade e sua teologia pastoral.
Embora Cornélio não tenha deixado uma obra teológica
sistemática, seu pensamento é conhecido por meio de cartas [7] preservadas,
sobretudo nas obras de EusébiodeCesareia e na
correspondência com Cipriano. Seus principais eixos pastorais foram:
·a unidade da Igreja,
·a autoridade legítima do episcopado,
·a misericórdia aliada à disciplina, por meio da
penitência,
·a rejeição do rigorismo extremo que negava o
perdão eclesial.
Cornélio compreendia a Igreja como uma comunidade de
pecadores em processo de conversão, não como uma assembleia de perfeitos. Essa
visão teve influência duradoura na prática penitencial cristã.
Durante a perseguição do imperador Treboniano Galo,
sucessor de Décio, Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual
Civitavecchia), onde morreu em 253. Embora não haja unanimidade histórica
quanto às circunstâncias exatas de sua morte, a tradição cristã o venerou como mártir,
pois sofreu o exílio e a morte em razão da fé, “... sendo sentenciado ao
martírio por ordem daquele imperador, por não aceitar prestar culto aos deuses
pagãos...” (Site
UCDB.
E quanto ao seu legado histórico e teológico, pode ser
destacado:
- a consolidação da autoridade do bispo de Roma
em tempos de crise;
- ajuda no estabelecimento de uma teologia do
perdão e da penitência que moldaria a prática sacramental posterior;
- sua vitória sobre o cisma novacianista preservou a unidade e a
catolicidade da Igreja.
No exílio, “... o papa [ou bispo] Cornélio passou os últimos
dias da sua vida. Onde encontrava um pouco de alegria era nas cartas que
recebia do bispo Cipriano, seu admirador e amigo de fé, muito preocupado em
mandar-lhe algumas palavras de consolo...” (Idem).
[2] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995 (Reimpressão), pág. 4 a 7.
[6] “Por este motivo
reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número
ainda maior de presbíteros e diáconos, enquanto que nas demais províncias os
pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer.
Todos tomaram uma decisão: que Novato [Novaciano], junto com os que se
haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer
antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam considerados como alheios
à Igreja. Por outro lado, os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados
e cuidados com os remédios da penitência...” (H. E., 6:XLIII).
[7]“Junto com
essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda
outra sobre os atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para
quem leia este livro saiba sobre ele” (Idem).
Já publicamos neste blog artigos acerca de
alguns temas filosóficos como racionalismo, empirismo, marxismo, dogmatismo e
assuntos correlatos. E todos eles, sob um prisma bíblico e/ou cristão. Neste post, queremos
destacar o que Colin Brown escreve sobre o
Iluminismo e o ceticismo na Europa Continental [2].
Na Europa continental, o racionalismo era a nova filosofia do século
XVII e a filosofia ortodoxa do século XVIII. Mas mesmo então, mentes
pesquisadoras estavam questionando seus métodos e resultados e procurando
conceitos da realidade que fossem diferentes, embora não menos racionais. Nesta
seção, mencionaremos quatro: Rousseau, Voltaire, Lessing e Kant. Os dois
primeiros eram franceses, os dois últimos, alemães. A seus próprios modos,
todos os quatro estavam procurando conceitos iluminados do conhecimento,
conduta e religião humanos. Todos os quatro rejeitaram a religião tradicional.
Todos os quatro avançaram firmemente ao longo do itinerário traçado pelos
deístas ingleses.
Veja um resumo de cada um deles:
Jean-Jacques Rousseau, um
polêmico autor, defendeu a dignidade humana e criticou o progresso como
corrupção da moral. Seus trabalhos, como "Emile" e "O Contrato
Social", propuseram uma educação ideal e uma nova visão de sociedade
baseada na vontade popular, influenciando teoricamente a Revolução Francesa.
François-Marie Arouet,
conhecido como Voltaire, destacou-se por sua crítica feroz à Igreja
Católica, advogando pelo deísmo e pela moralidade independente da religião
institucional. Suas obras, incluindo "Candide" e seu "Dicionário
Filosófico", refletem seu ceticismo em relação à verdade religiosa.
Gotthold Ephraim Lessing, um
dramaturgo alemão, contribuiu para a busca do Jesus histórico e produziu obras
críticas sobre a religião. Ele destacou a importância da ética e a ideia de que
verdades morais podem ser extraídas da experiência humana, mesmo que suas
análises do cristianismo geraram controvérsia.
ImmanuelKant,
embora nascido no século XVIII, é marcado pela transição ao XIX. Em suas obras,
como "Crítica da Razão Pura", ele investigou a relação entre
conhecimento, razão e experiência. Sua filosofia rejeitou as provas
tradicionais da existência de Deus e propôs que a moralidade deveria ser
decidida pela razão humana, sem a necessidade de um Deus interveniente. A sua
visão prática da religião enfatizava a ética acima das crenças sobrenaturais.
Esses pensadores moldaram a
crítica iluminista e o ceticismo filosófico, buscando uma compreensão da
moralidade e da razão que, muitas vezes, desafiava as narrativas religiosas
tradicionais.
Mas, como afirma Brown:
"... Se a fé cristã não se encaixa perfeitamente,
tanto pior para ela. A filosofia fica sendo um leito de Procrusto.
Tudo quanto é deitado nela tem ou de ser esticado ou retalhado para
encaixar-se. A dificuldade é que nem sempre se pode chegar à verdade por meio
de tais ideias preconcebidas. Hume observou certa vez num momento de
sinceridade que a natureza sempre é forte demais para o princípio. Poderia
igualmente ter dito que a religião é forte demais para as filosofias
preconcebidas..."
[1] Leitura da tragédia de Voltaire, O Órfão da China , no salão de Marie Thérèse Rodet Geoffrin em 1755, por Anicet Charles Gabriel Lemonnier. In: https://pt.wikipedia.org/wiki/Iluminismo. Acesso em: 28/11/2025.
[2] BROWN, Colin. FilosofiaeFéCristã. São Paulo: Vida Nova: 1983, páginas (56 a 62 - Texto copiado na íntegra e adaptado).
Entende-se por ética social o estudo das
questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição,
conforme elas surgem num contexto social.
1.Introdução e Definição
O governo público, a política, as ciências
econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime:
estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode
ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste
com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a
ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que
deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o
presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência
sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua
com estes campos correlatos.
Conforme acontece no caso de outros subcampos
da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual
é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente
(proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de
resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento
ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o
problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema
da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática
existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social
existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais
estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.
É impossível manter uma distinção clara e
precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo
comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema
social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é
útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos
aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos
(raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal
focaliza o agente moral individual.
Como no caso da ética pessoal, a ética social
dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem
um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O
primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir
(decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas
éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a
ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de
atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem
ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e
estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente
em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são
atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.
Somente nestes últimos cem anos é que a ética
chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos
de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no
entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as
partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria
dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil
anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente
este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas
Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser
afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E
deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi
sugerido acima.
2.Análise e Discernimento
A primeira tarefa da ética social cristã é a
análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação
a estas.
a)A
Revelação e a Observação
A análise ética social cristã avança numa
dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a
observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo
dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças
e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as
correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos
e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados
pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando
Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos
discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não
somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social,
mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam
despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a
ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em
geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios
humanos.
b)A Criação
Boa parte da ética social teológica
tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou
"esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do
casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até
mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação
bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou
esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético
correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus.
Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que
os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia,
raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".
Quer a ética social esteja fundamentada
basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação
bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã
(cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra
de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação
social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem
esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que
estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por
esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma
parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de
criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).
c)A Queda
Por mais importante que a doutrina da criação
seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente
importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus
e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na
divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A
saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria
cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade
(Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas
características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação,
divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.
Perspectivas posteriores no pensamento
hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade
dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus.
Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco
corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma
questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o
dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os
homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a
história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de
pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo,
transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).
d)Lei e Justiça
A ética social cristã, e na verdade toda
ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua
institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada
e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino,
João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social
cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em
que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da
Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e
no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).
De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o
juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã.
"Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque
estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz
justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais
importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as
justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui
o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas,
em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã
deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem
divina e de solicitude humana.
e)O Reino de Deus
Até os éticos sociais das ordens-da-criação
mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na
sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou
deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o
reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes
mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre.
A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas,
o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si
neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o
reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho,
Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes
resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã
entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e
tudo o mais.
É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é
mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as
demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de
"plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e
discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17)
e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no
sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem
qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da
inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais
da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre
as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo,
do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e
aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros
que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.
f)Escatologia
A ética social cristã é fundamentalmente
escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e
completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova
criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está
verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus
Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o
futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção
à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas
razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o
juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap
18) e da nova Jerusalém (Ap 21).
É neste juízo final que os principados e
potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus
Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os
expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a
habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter
permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria,
pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e
apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência
e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde
habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam
satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem
de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações.
Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social
bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no
discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.
3.A Estratégia e a Implementação
A primeira tarefa da ética social cristã,
portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da
história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A
segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou
seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da
estratégia e da implementação.
a)Perspectivas Tradicionais
A reflexão contemporânea sobre como a
convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido
grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl
Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta
reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst
Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do
carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e
o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo
do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de
partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da
implementação das preocupações éticas sociais cristãs.
O livro de Troeltsch, The Social Teaching of
the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs,
com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e
associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de
Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates
atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária,
anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem
acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás
de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo"
é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o
transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem
conversionista.
As tipologias sociais científicas e
históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições
individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e
“leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões
do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente
transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão
sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas
por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.
a)A Oração e a Evangelização
Do ponto de vista da ética social bíblica, as
atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como
estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã
está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo
menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações,
intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive
por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é
uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.
Faz, também, parte básica do ponto de vista
cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e
mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética
social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela
faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade
coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a
mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os
agentes morais individuais.
b)Comunidade Alternativa
Longe de se tratar de um afastamento
irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma
comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação
da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no
seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos
políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios
pelos quais esta estratégia pode ser empregada.
Comunidades cristãs alternativas têm uma
relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeirolugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e
discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da
comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às
questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundolugar,
a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo)
contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências
totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades
alternativas na sociedade. Em terceirolugar, a comunidade cristã
fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas
sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quartolugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas
formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quintolugar,
a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas
estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de
discernimento, mas também de ação social.
c)A Participação Institucional
Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e
outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e
instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível
para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas
circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são
convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado
considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a
convicção ética. A políticaeleitoral, as reformaslegislativas,
as ativaçõescomerciais e profissionais e a educaçãopública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse
necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas
por dois critérios. Em primeirolugar, nenhum cristão está, em
caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa
obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundolugar,
nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor
unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o
mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre
lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.
d)Meios e Fins
A ética social bíblico-cristã, tanto no
discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como
ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as
consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em
especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados
nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é
chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos
afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de
bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios
pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade
e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que
é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e
fins.
Notas / Referências bibliográficas:
[1]Capa de Word of God in the Ethics
of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David
W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e
palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de
trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
[2] GILL, David W. Ética Social.
In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São
Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 97 a 102
(Texto adaptado).
O próximo bispo de nossa lista (bispos e papas romanos),
que queremos destacar aqui é o Bispo Fabiano ou Fabião. Na lista de Eusébio de
Cesareia, em História Eclesiástica (HE, 6, XXIX) [2] encontramos: “Gordiano sucedeu
Maximinona soberania de Roma, quando Ponciano,
que havia ocupado o episcopado por seis anos, foi sucedido por Antero
na igreja de Roma, o qual é também sucedido por Fabiano depois de se empenhar
no serviço por cerca de um mês. Diz-se que Fabiano chegara a Roma com alguns
outros do país e, ali permanecendo de modo notabilíssimo, pela graça divina e
celestial, foi apresentado como um dos candidatos para o ofício... Relatam,
ainda, que uma pomba de súbito, desceu do alto, pousou sobre sua cabeça,
exibindo uma cena como aquela sobre nosso Salvador. Com isso todo o
corpo exclamou com toda veemência e a uma só voz, como que movido pelo Espírito
de Deus, que ele era digno; e, sem demora tomaram-no e o colocaram no episcopal.”
Na
nossa lista, Ponciano foi o 17º bispo, Antero, o 18º. Portanto, o Bispo Fabiano,
que sucedeu a Antero, corresponde ao 19º que ocupou o episcopado em Roma, entre
236 a 250, um longo período papal (14 anos) segundo a Igreja Católica.
Além das informações de Eusebio (acima), outras, especificadas
aqui [3], por
exemplo, afirmam sobre o Bispo ou Papa Fabiano:
§Era
um fazendeiro e homem simples do campo, mas um excelente administrador;
§Dividiu
a cidade de Roma em sete distritos eclesiásticos, cada um sob a
responsabilidade de um diácono com auxílio de um subdiácono e assistentes,
visando atender à crescente comunidade cristã: cuidados sociais, assistência
aos pobres, a gestão das catacumbas (cemitérios cristãos).
§Cada
distrito tinha seu clero, responsável por abrigar doentes, conservar ou
construir capelas para cultos e manter contato próximo com o presbítero
encarregado pelo papa para o serviço litúrgico. Essa reforma marcou a criação
de uma organização muito unida e adaptada ao crescimento do cristianismo na
cidade...
Segundo o site católico Paulinas [4],
Fabiano, um quase desconhecido antes da eleição, foi muito apreciado também por
suas intervenções doutrinais, especialmente nas controvérsias da Igreja da
África. O site diz que Fabiano, durante o seu pontificado de catorze anos,
houve paz e desenvolvimento interno e externo da Igreja. Mas que também enfrentou
problemas com o imperador Décio, que ao enfrentar problemas no seu governo, desencadeou
uma ferrenha perseguição contra toda a Igreja. “Ocorreu um grande êxodo de
cristãos de Roma, que se deslocaram para o Oriente à procura das comunidades
religiosas dos desertos, um pouco mais protegidas das perseguições. Este foi o
início para a vida eremita, com os 'anacoretas', mais conhecidos como os padres
do deserto. Entretanto, o papa Fabiano permaneceu no seu posto e não renegou a
fé, sendo decapitado no dia 20 de janeiro de 250” (Idem).
Eusébio (HE, 6, XXXIX), cita: “Agora pois, a Felipe [5], que havia imperado
por sete anos, sucede Décio [6], que por ódio a Felipe
suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela Fabiano consumou seu martírio
em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado”.
Antes do reinado de
Décio, a perseguição aos cristãos no império era esporádica e localizada, mas
por volta do início de janeiro de 250 ele emitiu um édito ordenando que todos
os cidadãos realizassem um sacrifício religioso na presença de comissários. Um
grande número de cristãos desafiou o governo, o que resultou na morte dos
bispos de Roma, Jerusalém [Alexandre] e Antioquia [Babilas], e na prisão de
muitos outros.
A repressão fortaleceu,
em vez de enfraquecer, o movimento cristão, pois a opinião pública condenou
a violência do governo e aplaudiu a resistência passiva dos mártires.
Décio forneceu o modelo para uma perseguição mais rigorosa aos cristãos, que
começou em 303, durante o reinado de Diocleciano. No início de 251, poucos
meses antes da morte de Décio, a perseguição aos cristãos cessou [7].
Eusébio (HE, 6, XXXIX), cita: “Agora pois, a Felipe, que
havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma
perseguição contra as igrejas. Nela Fabiano consumou seu martírio em Roma e
Cornélio o sucedeu no episcopado”.
Portanto, no mesmo ano, 250, além do martírio de Fabiano,
houve também os martírios de Alexandre, bispo de Jerusalém, e de Babilas, bispo
de Antioquia.
Notas / Referências bibliográficas:
[1]Bispo
ou PapaFabiano. Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Fabiano.
Acesso em: 05/11/2025.
[2]CESAREIA, Eusébio de. História
Eclesiástica: os primeiros quatro anos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro:
CPAD, 1999.
[5]Felipe (244-249)
e sucessor de Giordano III (238-244). “O reinado de Filipe
testemunhou o verdadeiro início da crise do século III, marcada por uma série
de invasões bárbaras através do Danúbio e por uma guerra civil
interna liderada por generais dissidentes. O sucesso inicial de Décio,
enviado por Filipe para enfrentar a invasão gótica de 248, levou o
exército de Décio a proclamá-lo imperador” (In: https://www.britannica.com/biography/Philip-Roman-emperor).
[6]Décio (249-251)
foi imperador romano e sucessor de Felipe.
Já vimos em alguns posts a relação (pró ou
contra) entre a posição de alguns filósofos e a da Bíblia. Marx, que
defendeu que vivemos em um mundo onde tudo é material, não havendo o
sobrenatural, abolindo as noções espirituais e o transcendente é um exemplo de posição
que faz oposição a Deus, por ser contrário a qualquer crença e/ou objeto de fé.
Enquanto outros como Descartes, Berkeley, Locke, Pascal e outros, são exemplos de pensadores
racionais, mas que também tinham fé.
Onde entra o solipsismo neste contexto? No
ponto em que, diferentemente dos filósofos que embora racionais eram também
crentes num Ser sobrenatural (Deus) o solipsismo, embora seja fruto de reflexões
filosóficas, entra em choque tanto com o racionalismo quanto com a fé
cristão/bíblica.
Vimos que Descartes, ao duvidar de tudo no DiscursodoMétodo e nas Meditações, chega à certeza do próprio pensamento — “Cogito,
ergo sum” (“Penso, logo existo”). Descartes, aparentemente parte do solipsismo,
através de sua dúvida radical “cogito – penso”, mas ele não para aí. Ele usa
essa certeza como ponto de partida para reconstruir o conhecimento e provar: a
existência de Deus e a existência do mundo externo, garantida pela veracidade
divina, enquanto o solipsismo fica apenas com o “Cogito. O solipsista não
aceita nenhuma prova da existência de Deus nem do mundo, ficando preso apenas
ao próprio pensamento.
Bem, Ministério Got Questions [2] afirma que o solipsismo é a crença de que é incerta a existência de qualquer
coisa que não seja a própria mente. Isso pode envolver desde o ceticismo em
relação aos sentidos e às experiências da pessoa até a crença de que qualquer
coisa fora da mente é inexistente. Como acontece com qualquer visão filosófica
abstrata, ela tem milhares de variedades e aplicações diferentes. Versões
variadas de solipsismo têm sido aplicadas a visões de mundo cristãs, ateístas e
panteístas, e a tudo o que está entre elas.
De um ponto de vista direto, a Bíblia não
sugere nada parecido com o solipsismo. Diz-se que Deus criou (Gênesis
1:1; João 1:1-3), e diz-se que essa criação mudou (Gênesis 1:2-3) e mudará
novamente (Apocalipse 21:1-2). Essa realidade é descrita como tendo partes
diferentes e distintas (Gênesis 1:4-7). Da mesma forma, os seres humanos são
chamados a responder às nossas experiências como um meio de realizar a vontade
de Deus (Romanos 1:20; Mateus 11:21-23). Uma pessoa que defende pontos de
vista solipsistas precisa interpretar essas ideias de uma forma altamente
metafórica, o que não é natural para o texto. Essa visão da realidade ou das
Escrituras tampouco é sugerida nos escritos dos primeiros Pais da Igreja.
Além disso, o solipsismo deve ser diferenciado
do ceticismo geral e da verificação de fatos. A Bíblia incentiva um ceticismo
cauteloso (Atos 17:11), especialmente com relação a ideias espirituais (1 João
4:1). A simples consciência de que somos falíveis e de que precisamos verificar
novamente nossas experiências não é solipsismo. O verdadeiro solipsismo, de
fato, não pode ser conectado às nossas experiências de forma alguma.
O solipsismo corrói qualquer lógica ou
evidência que possa apoiar a realidade da experiência. Se nossas experiências
são artificiais, imaginárias ou falsas, então qualquer experiência que possa
nos levar a acreditar no solipsismo pode fazer parte da ilusão e, portanto, não
ser confiável. Ao mesmo tempo, qualquer experiência que possa nos levar a
duvidar do solipsismo pode ser descartada pelo mesmo motivo. Como resultado, o
solipsismo não é provado nem contradito por nenhuma experiência possível – o que
significa que o solipsismo como filosofia é praticamente sem sentido. A ideia é
tanto infalsificável quanto inverificável. Verdadeira ou falsa, não podemos
conhecê-la ou refutá-la e, portanto, não podemos tomar nenhuma decisão
significativa sobre ela.
Esse é um dos motivos pelos quais o solipsismo
e os argumentos que o implicam são geralmente considerados becos sem saída em
discussões filosóficas. Ou seja, a introdução do solipsismo torna a conversa
sem sentido. Assim que alguém argumenta que nossas experiências – em um nível
fundamental – não são confiáveis, ficamos incapazes de saber qualquer coisa.
Isso não é apenas contrário à forma como vivenciamos a vida, mas também torna
toda a razão e experiência inúteis. O solipsismo se enquadra na categoria de
ideias que são interessantes, mas nas quais não vale a pena se aprofundar (Colossenses
2:8; Tito 3:9).
Para algumas pessoas, o solipsismo é
preocupante porque é um conceito difícil de abandonar. Se não se pode confiar
em nossos próprios sentidos e experiências, o que isso significa para nossos
relacionamentos, nossa ciência ou nossa religião? A solução para essa angústia
é perceber como o solipsismo é impraticável. Ou seja, a crença no solipsismo
não pode ser vivida de forma significativa. Tampouco pode ser provada ou
refutada por quaisquer experiências ou evidências possíveis. Para se libertar
da preocupação com o solipsismo, é preciso perceber que se trata de uma
abstração pura, sem aplicação prática...
Uma metáfora simples para o fato de estar preso
a um pensamento solipsista é a música infantil "The Song That Never
Ends" (A Canção Que Nunca Acaba), cuja letra é a seguinte:
Essa é a música que nunca termina. / Sim,
ela continua e continua, meus amigos. / Algumas pessoas começaram a cantá-la
sem saber o que era. / E continuarão a cantá-la para sempre, só porque...
(repetir do início ad nauseam).
Se você aceitar a afirmação da música (de que
precisa continuar cantando), ficará preso no ciclo para sempre, como diz a
música. Mas se alguém perguntar por que você está sempre cantando, a única
razão que você pode dar é: "porque a música diz isso"! A solução é
perceber que, além da música em si, não há absolutamente nenhum motivo para
continuar cantando. Você não foi obrigado a começar e não é obrigado a
continuar - a menos que decida arbitrariamente que deve obedecer à música por
algum motivo.
O solipsismo funciona da mesma forma em nossa
mente. Se quiséssemos, poderíamos considerar tudo o que vivenciamos como fruto
de nossa imaginação, inclusive todos os sinais em contrário. Mas teríamos que
fazer o mesmo com todos os sinais que apontassem para o solipsismo em primeiro
lugar. E, de qualquer forma, não temos motivos tangíveis para pensar que isso é
verdade. Como na canção infantil, é bem possível que fiquemos presos à ideia,
mas não há absolutamente nada que sugira que façamos isso, a não ser a própria
ideia.
Em suma, um resumo feito, via Chat Gpt [3],
comparando o solipsismo com a fé cristã apresenta:
Portanto, diferentemente da música infantil
citada acima que propõe ficarmos presos à ideia, a fé cristã supera o
solipsismo ao transformar a interioridade em portadeacessoaodivino (Deus), não em prisão do sujeito. Veja, também, para concluir, este
vídeo do BrendoSilva, sobre o assunto:
[1] “Solipsismo e
Fé Cristã: dois caminhos do eu: À esquerda, vemos o solipsismo:
um ‘eu’ fechado em si mesmo, isolado, cercado por muros invisíveis. Para o
solipsista, apenas sua própria mente é real – o mundo e os outros podem ser
apenas projeções da consciência. É uma solidão metafísica: o universo reduzido
ao ‘eu penso’. À direita, À direita, a fécristã: um ‘eu’
aberto, confiante, que se volta a Deus e ao mundo. A cruz e a Terra simbolizam
a comunhão – Deus é o fundamento da realidade, e cada pessoa é chamada ao amor
e à relação” (Imagem e legenda ilustrativas sugeridas e feitas pelo
ChatGpt. In: https://chatgpt.com/c/69092191-8fb4-8332-95ab-2b0e60eaf2de. Acesso em:
06/11/2025.