Também chamada religião cívica, pública ou
política, a religião civil refere-se à aceitação generalizada por um povo de um
conjunto de traços político-religiosos ligados à história e ao destino da sua
nação. Serve para relacionar a sua sociedade com o âmbito do significado
último, possibilita a auto interpretação da sociedade e funciona como o
simbolismo integrante da nação. É a "religião operante" de uma
sociedade (Will Herberg), o sistema de rituais, símbolos, valores, normas e
lealdades que atuam na vida contínua da comunidade e que lhe fornecem um senso
abrangente de união que transcende todos os conflitos e diferenças internos.
Uma religião civil é característica por referir-se ao poder dentro do Estado,
contudo transcende aquele poder ao focalizar-se nas condições últimas.
Teoricamente, fornece tanto a justificativa para o poder como uma base para
criticar aqueles que o exercem. A fé "civil" deve, em certo sentido,
ser independente da igreja como tal; de outra forma, será uma mera legitimação
do Estado pela igreja. Deve ser também genuinamente uma "religião";
caso contrário, será apenas um nacionalismo secular (Phillip Hammond). Requer
uma "teologia civil", porque esta oferece à sociedade um significado
e um destino, interpreta a experiência histórica e fornece um senso de
dinamismo, unicidade e identidade (Maureen Henry). Reduzida aos seus
fundamentos, a religião civil significa que o estado utiliza um consenso de
sentimentos, conceitos e símbolos religiosos - direta ou indiretamente,
consciente ou inconscientemente – visando seus próprios propósitos políticos.
Os comentaristas consideram-na uma fé religiosa "geral" e a
contrastam com a fé "particular de grupos sectários ou denominacionais,
que conseguem a lealdade de apenas um segmento da população.
Embora as características comumente associadas
com a religião civil remontem até ao passado distante, à antiguidade clássica
quando cada polis grega tinha seus próprios deuses, dogma e culto,
Platão desenvolvesse as linhas gerais de uma teologia civil em A República,
e o imperador romano funcionasse tanto como o sacerdote principal na religião
do estado quanto como um objeto de adoração, o termo propriamente dito foi
cunhado por Jean Jacques Rousseau em O Contrato Social (1762). Ele
identificava a fé civil como algo que pudesse lidar com a diversidade religiosa
e, ao mesmo tempo, firmar a lealdade do povo à sociedade civil, de modo que a
paz social fosse conseguida e garantida depois de uma longa era de guerras
destruidoras provocadas pelas diferenças religiosas. Foi somente nas décadas de
1950 e 1960, no entanto, que a religião civil veio a ser um tópico importante
da discussão teológica. O catalisador que a impulsionou para o centro da
atenção erudita foi um estudo apresentado pelo sociólogo Robert N. Bellah em
1965, que asseverava com ousadia: "Poucas pessoas têm percebido que
realmente existe, lado a lado com as igrejas e bem claramente diferenciada
delas, uma religião civil esmerada e bem institucionalizada nos Estados Unidos".
O que se seguiu foi um debate caloroso quanto à natureza da fé pública, e até
mesmo quanto à sua validade como conceito.
O problema chave era a definição, que continua
como alvo de contenda e intensa confusão entre os estudiosos da religião civil.
Russell E. Richey e Donald G. Jones procuraram resolver a dificuldade esboçando
cinco significados gerais, essencialmente inter-relacionados entre si,
propostos por vários escritores, especialmente aqueles que tratam do fenômeno
norte-americano. São:
(1)a religiãofolclórica
– a religião comum que emerge do espírito do povo e da história da sociedade, e
que está em concorrência com a religião particularista;
(2) a religiãouniversaltranscendentedanação – uma crença que a nação tem em comum, que condena os
costumes folclóricos do povo e da nação, e que corrige as tendências idólatras
em formas específicas do cristianismo e do judaísmo;
(3)o nacionalismoreligioso
– a nação assume um caráter soberano, transcendente em si mesma, tornando-se
objeto de adoração e glorificação;
(4)a fédemocrática
– os valores humanitários da igualdade, liberdade e justiça que existem sem
necessariamente depender de uma deidade transcendente ou de uma nação
espiritualizada que represente a religião civil na sua máxima qualidade;
(5)a piedadecívicaprotestante – a fusão entre o protestantismo e o nacionalismo no
espírito característico norte-americano, que se reflete no moralismo,
individualismo, ativismo, pragmatismo e transformação do mundo em campo
missionário.
Uma alternativa oferecida por Martin E. Marty
propõe que há dois tipos de religiões cívicas: aquela que vê uma deidade
objetiva e transcendente como o ponto de referência para o processo social (a nação
sob a orientação de Deus) e aquela que ressalta a autotranscedência nacional.
Dentro destes tipos há duas abordagens – a "sacerdotal", que é
celebrativa, afirmativa e edifica a cultura, e a "profética", que é dialética,
mas tende a ser condenatória. Na primeira categoria, ele inclui Dwight Eisenhower
como sacerdote e Jonathan Edwards, Abraham Lincoln e Reinhold Niebuhr como
profetas. No grupo auto transcendente nacional coloca Robert Welch, Richard Nixon
e J. Paul Williams como sacerdotes, e Sidney Mead e Robert Bellah como profetas.
Argumentando numa direção totalmente diferente, John Murray Cuddihy sustentava
que a fé norte-americana nada mais é do que uma "civilidade
religiosa", um código complexo de ritos que instrui as pessoas a serem
religiosamente inofensivas, tolerantes e sensíveis para com as crenças de
outras pessoas. John F. Wilson sugeriu que as ambiguidades no debate da
religião civil têm sua origem nas "formas de análise misturadas de maneira
não-critica e na confusão de modelos por parte dos diferentes
intérpretes", e delineou quatro "construções" principais, sendo
que cada uma delas é baseada num conjunto distinto de premissas e de tradições
intelectuais. Os modelos são:
(1)social – enfatiza cada
coletividade ou entidade social como sagrada;
(2)cultural – orientado em direção
à análise do funcionamento de um conjunto específico de valores em termos da
interação entre os membros de uma determinada ordem da sociedade, ou seja: a
união e coerência simbólicas de uma sociedade;
(3)político – examina o papel do
comportamento e crenças religiosos dentro de uma sociedade política;
(4)teológico – coloca o conteúdo da
religião pública em uma estrutura abrangente de significado que providencia
normas para a ordem política, para a cultura geral e para a sociedade como um
todo.
Embora seja óbvio que a religião civil seja um
conceito extremamente vago e controvertido, escritores têm detectado as suas
manifestações numa vasta gama de países e sociedades, especialmente na
Inglaterra, na África do Sul, no Japão e nos Estados Unidos. A maior parte da
atenção tem sido dedicada ao cenário norte-americano, onde apareceu uma
religião civil que permitiu que a nação fosse entendida de maneira
transcendente ao passo que, ao mesmo tempo, o pluralismo religioso florescia
nas raízes. Visto que havia uma necessidade de símbolos comuns para objetivos
nacionais que nenhuma igreja individual poderia fornecer, e visto que as
pessoas, sendo ou não membros de igrejas, sentiam-se livres para empregar
símbolos religiosos, as chamadas instituições seculares e seus funcionários
ocuparam um lugar de preeminência na religião civil. A ideologia que subjazia
essa aliança entre a política e a religião era:
(1)que Deus existe;
(2)que a Sua vontade pode
ser conhecida através de processos democráticos;
(3)que a América do Norte
tem sido o agente primário de Deus na história; e
(4)a nação tem sido a
principal fonte de identidade para os norte-americanos.
Eles [norte-americanos] eram considerados como
o povo escolhido de Deus que fez o êxodo para a terra prometida além do mar,
que veio a ser uma cidade num monte, uma luz para as nações, proclamando a
mensagem da democracia como a doutrina de salvação que levaria a humanidade à
liberdade, prosperidade e felicidade. Evidências da fé civil incluem figuras
bíblicas e referências ao Deus Onipotente e à providência que têm permeado os
discursos e os documentos públicos dos líderes norte-americanos desde os tempos
mais antigos, a bandeira da nação exibida com destaque nos santuários das
igrejas, a inclusão de "sob a orientação de Deus" no Compromisso da
Lealdade, e, acima de tudo, o lema nacional: "Confiamos em Deus".
Aqueles que apoiam a religião civil insistem
que as ideias de transcendência e aliança tornem a nação responsável, constituem-se
em cimento numa sociedade que de outra forma é heterogênea, desafiam o país a
concretizar seus ideais mais nobres e servem como instrumentos nas mãos de
líderes políticos sábios (tais como Lincoln e Martin Luther King, Jr.) para
inspirar as pessoas a galgarem níveis mais altos de realização. Seus críticos a condenam por idolatrar a
nação, por tentar os entusiastas patrióticos a distorcer e até mesmo falsificar
a história nacional, a fim de fazê-la encaixar-se nos preconceitos da religião
civil, de aviltar a dignidade de Deus reduzindo-O ao nível de uma deidade
tribal, fornece uma ferramenta para os líderes públicos angariarem apoio para
políticas e aventuras duvidosas, desconsiderando as necessidades das minorias
subjugadas dentro da comunidade nacional.
Muitas pessoas comentam que a fé evangélica, bíblica, é incompatível com
a religião civil, mas não há consenso quanto a isso na comunidade protestante
conservadora.
PIERARD, Richard.
V. Religião Civil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor
Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. III (Pág. 272 a 275 – Texto adaptado).
[1]R. V. PIERARD, Doutor da Universidade de Iowa. Professor de História na Universidade Estadual de Indiana, Terre Haute, Indiana, EUA… (E mais aqui).
[12] Imagem meramente
ilustrativa que representa a fusão simbólica entre crenças religiosas e
identidade nacional ou estatal, como bandeiras com cruzes, monumentos cívicos
com elementos sagrados, criada por I. A. do Perplexity.ai
com fonte identifica em: Shutterstock.com.
Acesso em: 13/02/2026.
Entende-se por ética social o estudo das
questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição,
conforme elas surgem num contexto social.
1.Introdução e Definição
O governo público, a política, as ciências
econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime:
estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode
ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste
com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a
ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que
deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o
presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência
sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua
com estes campos correlatos.
Conforme acontece no caso de outros subcampos
da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual
é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente
(proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de
resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento
ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o
problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema
da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática
existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social
existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais
estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.
É impossível manter uma distinção clara e
precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo
comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema
social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é
útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos
aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos
(raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal
focaliza o agente moral individual.
Como no caso da ética pessoal, a ética social
dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem
um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O
primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir
(decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas
éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a
ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de
atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem
ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e
estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente
em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são
atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.
Somente nestes últimos cem anos é que a ética
chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos
de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no
entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as
partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria
dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil
anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente
este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas
Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser
afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E
deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi
sugerido acima.
2.Análise e Discernimento
A primeira tarefa da ética social cristã é a
análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação
a estas.
a)A
Revelação e a Observação
A análise ética social cristã avança numa
dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a
observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo
dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças
e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as
correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos
e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados
pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando
Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos
discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não
somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social,
mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam
despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a
ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em
geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios
humanos.
b)A Criação
Boa parte da ética social teológica
tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou
"esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do
casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até
mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação
bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou
esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético
correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus.
Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que
os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia,
raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".
Quer a ética social esteja fundamentada
basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação
bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã
(cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra
de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação
social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem
esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que
estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por
esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma
parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de
criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).
c)A Queda
Por mais importante que a doutrina da criação
seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente
importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus
e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na
divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A
saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria
cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade
(Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas
características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação,
divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.
Perspectivas posteriores no pensamento
hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade
dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus.
Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco
corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma
questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o
dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os
homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a
história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de
pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo,
transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).
d)Lei e Justiça
A ética social cristã, e na verdade toda
ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua
institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada
e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino,
João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social
cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em
que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da
Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e
no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).
De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o
juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã.
"Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque
estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz
justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais
importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as
justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui
o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas,
em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã
deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem
divina e de solicitude humana.
e)O Reino de Deus
Até os éticos sociais das ordens-da-criação
mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na
sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou
deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o
reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes
mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre.
A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas,
o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si
neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o
reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho,
Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes
resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã
entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e
tudo o mais.
É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é
mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as
demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de
"plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e
discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17)
e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no
sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem
qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da
inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais
da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre
as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo,
do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e
aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros
que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.
f)Escatologia
A ética social cristã é fundamentalmente
escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e
completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova
criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está
verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus
Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o
futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção
à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas
razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o
juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap
18) e da nova Jerusalém (Ap 21).
É neste juízo final que os principados e
potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus
Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os
expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a
habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter
permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria,
pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e
apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência
e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde
habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam
satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem
de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações.
Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social
bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no
discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.
3.A Estratégia e a Implementação
A primeira tarefa da ética social cristã,
portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da
história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A
segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou
seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da
estratégia e da implementação.
a)Perspectivas Tradicionais
A reflexão contemporânea sobre como a
convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido
grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl
Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta
reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst
Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do
carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e
o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo
do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de
partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da
implementação das preocupações éticas sociais cristãs.
O livro de Troeltsch, The Social Teaching of
the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs,
com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e
associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de
Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates
atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária,
anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem
acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás
de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo"
é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o
transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem
conversionista.
As tipologias sociais científicas e
históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições
individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e
“leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões
do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente
transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão
sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas
por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.
a)A Oração e a Evangelização
Do ponto de vista da ética social bíblica, as
atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como
estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã
está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo
menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações,
intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive
por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é
uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.
Faz, também, parte básica do ponto de vista
cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e
mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética
social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela
faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade
coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a
mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os
agentes morais individuais.
b)Comunidade Alternativa
Longe de se tratar de um afastamento
irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma
comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação
da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no
seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos
políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios
pelos quais esta estratégia pode ser empregada.
Comunidades cristãs alternativas têm uma
relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeirolugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e
discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da
comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às
questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundolugar,
a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo)
contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências
totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades
alternativas na sociedade. Em terceirolugar, a comunidade cristã
fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas
sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quartolugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas
formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quintolugar,
a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas
estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de
discernimento, mas também de ação social.
c)A Participação Institucional
Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e
outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e
instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível
para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas
circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são
convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado
considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a
convicção ética. A políticaeleitoral, as reformaslegislativas,
as ativaçõescomerciais e profissionais e a educaçãopública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse
necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas
por dois critérios. Em primeirolugar, nenhum cristão está, em
caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa
obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundolugar,
nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor
unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o
mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre
lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.
d)Meios e Fins
A ética social bíblico-cristã, tanto no
discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como
ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as
consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em
especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados
nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é
chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos
afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de
bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios
pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade
e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que
é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e
fins.
Notas / Referências bibliográficas:
[1]Capa de Word of God in the Ethics
of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David
W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e
palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de
trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
[2] GILL, David W. Ética Social.
In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São
Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 97 a 102
(Texto adaptado).
Sobre
o conceito de ética, já vimos brevemente: Ética x moral; Ética bíblica; Ceticismo e ética; Éticasituacional... Sobre este último,
vimos como Fletcher analisa a ética do ponto-de-vista da “lei do amor”. A ética
situacional de Joseph Fletcher defende que a única lei moral absoluta é
o amor (ágape), e que as decisões morais devem ser tomadas com base
nas circunstâncias de cada situação, e não em regras fixas. O amor,
entendido como uma ação sacrificial e não apenas como sentimento, guia a
escolha do que é melhor para a situação em questão, justificando o uso de
qualquer meio se o fim for amoroso... Mas, a Bíblia realmente ensina a ética
situacional? Vejamos a seguir o que diz o Ministério Got
Questions [2] sobre isto.
A éticasituacional é uma visão
particular da ética moral que sustenta que a moralidade de um ato é determinada
por seu contexto. A ética situacional afirma que se há um certo e errado, ele é
simplesmente determinado pelo resultadodesejado da situação. A
ética situacional é diferente do relativismo moral porque o relativismo moral
afirma que não há certo ou errado. A ética situacional desenvolve um código de
ética no qual atender às necessidades de cada situação determina o que é certo
ou errado.
De capa a capa, a Bíblia é verdadeira,
consistente e aplicável. A Bíblia ensina, admoesta ou até mesmo inclina-se a
defender a ética situacional? A resposta curta é "não". Vamos
considerar três princípios: 1) Deus é o criador e sustentador. 2) Toda a
Palavra de Deus é verdadeira, até mesmo as partes de que não gostamos ou
entendemos. 3) O certo e o errado são determinados e definidos por quem Deus é.
1.Deus é o criador e sustentador
A ética situacional afirma que a moralidade é
determinada pelo ambiente ou circunstância. A Palavra de Deus diz que a
moralidade é determinada pela soberania de Deus, pois Ele é o criador e
sustentador. Isso não é uma questão de semântica, mas de fato. Ainda que Deus
desse um comando para um grupo de pessoas e o proibisse a um outro grupo, a
determinação de que é certo ou errado, ético ou não, não se baseia na situação,
mas sim no comando de Deus. Deus tem a autoridade para governar o certo e o
errado. Romanos 3:4 diz: "Antes seja Deus verdadeiro, e todo
homem mentiroso."
2.Toda a Palavra de Deus é verdadeira
Sugerir que a Bíblia defende a ética
situacional seria implicar que ela contém erros. Isso não é possível. Não é
possível por causa do número 1, Deus é o criador e sustentador.
3.O certo e o errado são definidos por quem
Deus é
O amor é a natureza de Deus. Ele define o que
o amor é, não pelo que faz, mas simplesmente por quem é. A Bíblia diz:
"Deus é amor" (1 João 4:16). O amor é desinteressado e atencioso com
os outros, nunca procura a sua própria glória ou prazer (1 Coríntios 13).
Portanto, em virtude de quem é Deus, a Bíblia, sendo dada por Deus e sendo
completamente verdadeira, não pode conter um sistema de ética que desafiaria a
natureza de Deus. A ética situacional encontra o certo e o errado para agradar
a maioria ou uma única pessoa por egoísmo. O amor é o oposto. O amor procura
incentivar e encorajar outras pessoas.
Dois problemas fundamentais com a ética
situacional são a realidade de uma verdade absoluta e o conceito de amor real.
A Bíblia ensina a verdadeabsoluta, a qual ensina que o certo e o
errado são pré-determinados por um Deus Santo. E o amor – a definição de Deus
do amor verdadeiro, honesto e real – não deixa espaço para motivações egoístas
ou impuras. Mesmo se alguém dissesse que a situação exige abnegação, ainda é
uma determinação humana e não divina. As razões de um ser humano para
determinar o que é melhor sem o amor verdadeiro são fundacionalmente[3] egoístas.
Então o que acontece quando as coisas parecem
certas, mas Deus diz que são erradas? Temos de confiar na soberania de Deus e
confiar "que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a
Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28).
Se nós pertencemos a Cristo, Deus nos deu o Seu Espírito (João 16), e por meio
dEle temos uma compreensão do que é certo e errado. Através dEle, somos
convencidos, incentivados e orientados para a justiça. Um desejo sincero de
conhecer a verdade de um assunto, juntamente com a busca de Deus, será
recompensado com a resposta de Deus. "Bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça porque eles serão fartos" (Mateus 5:6).
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Vejamos
mais estes textos [4] / comentários:
“Ora, o homem natural não compreende as coisas do
Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque
elas se discernem espiritualmente. Mas o
que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem
conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de
Cristo” (1Co 2.14-16).
“Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.21)
“E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as
coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes
necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as
coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele
permanecereis” (1Jo 2.20,27).
Comentando
sobre 1Co 2.14 (Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de
Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente), o Dr. C. I. Scofield [5] destaca: “Paulo
divide os homens em três classes:
1) psuchikos, significando dossentidos,
sensuais (Tg 3.15; Jd 19), naturais, isto é, o homem adâmico, não
renovado pelo novo nascimento (Jo 3.3,5);
2) pneumatikos, significando espirituais,
isto é, o homem renovado cheio do Espírito e andando no Espírito em comunhão
com Deus (Ef 5.18-20); e
3) sarkikos, significando carnais,
isto é, o homem renovado que, andando ‘segundo a carne’, permanece uma
criancinha em Cristo (I Co 3.1-4). O homem natural pode ser culto, educado,
eloquente, fascinante, mas o conteúdo espiritual das Escrituras lhe é absolutamente
oculto; e o cristão carnal só consegue entender as verdades mais simples, ‘o
leite’ (1 Co 3.2)”.
São
os espirituais que conseguem "julgar todas as coisas" em uma situação
complexa que requer discernimento fora do comum e que pode gerar consequências
dependendo das escolhas a serem tomadas. Ao decidirem fazer a escolha correta
segundo os princípios divinos podem pagar um preço por esta escolha. Essa
capacidade de escolha da verdade permite aos seguidores espirituais avaliar a
veracidade de ensinamentos e distinguir entre o certo e o errado, mas não se
opõe ao mandamento de não julgar de forma hipócrita ou condenatória,
especialmente em questões pessoais. E, por falar em escolhas arriscadas, veja o
exemplo da aparente “mentira” de Raabe no vídeo a seguir, de Leandro Quadros:
Notas / Referências bibliográficas:
[1] Imagem meramente ilustrativa feita através do Chat Gpt, em 17/10/2025.
[3]Fundacionalismo:
“... uma vertente da epistemologia que afirma que só podemos ter certeza de
algo se, em algum ponto da linha, pudermos rastreá-lo até uma verdade
indubitável e irrefutável. Essa verdade servirá como base a partir da qual
todos os nossos outros conhecimentos e crenças poderão ser construídos e
justificados...” (In: Expresso
existencial). Veja também: Coerentismo
e fundacionalismo.
O que me
motivou a falar aqui sobre Joseph Fletcher foi buscar conhecer um pouco acerca de seu
ponto de vista sobre valores cristãos e o que ele chama de “ética situacional”.
Numa época de pragmatismo, relativismo, consequencialismo, ideologia/narrativa,
“governo do amor” etc., torna-se importante saber sobre as mentes pensantes por
trás destes conceitos. E Fletcher é uma destas mentes, cuja teologia serviu e
serve de base para a (tentativa de) aplicação de uma ética cujo “fim justifica
os meios”.
JosephFrancisFletcher (1905–1991) [2] foi um teólogo e filósofo norte-americano conhecido como o principal formulador
da éticasituacional (ou ética da situação), apresentada em sua
obra SituationEthics: The New Morality (1966).
O pensamento de Fletcher em relação à ética
situacional baseada no “amor ágape”[3] já tinha embasamento nas ideias de outros
pensadores e concentrava-se:
· na
"vontade de Deus para a comunidade" (Brunner);
· na
"receptividade para com a exigência do amor" (Barth);
· em se
"deixar que o amor de Deus flua através de nós"; “onde há amor, nenhum outro preceito é
necessário" (Nygren );
Assim, foi consagrado seu tema da éticasituacional. Como enfatiza Reginald E. O. White [4], ela não depende das percepções cristãs. Fletcher
cita expressões e precedentes bíblicos quando é conveniente e menciona oito
"textos de prova" para sua "norma do amor" incluindo
palavras de Jesus, a respeito do Grande Mandamento, e de Paulo, sobre o amor
que cumpre a lei, mas nada vê de especialmente diferente ou sem igual nas
escolhas do cristão. A amorosidade é o motivo operante com plena força, por
trás das decisões de muitos não-cristãos.
Além disso, Fletcher rejeita todas as normas
reveladas, exceto o mandamentodoamor. Jesus não tinha
regras nem sistemas de valores; princípios reverenciados, até mesmo os Dez
Mandamentos, podem ser colocados de lado se entrarem em conflito com o amor.
Violar o sétimo mandamento, por exemplo, pode ser uma coisa boa: depende de se
os interesses do amor são plenamente revelados. As relações sexuais antes do
casamento se a decisão for feita de modo "cristão" podem ser certas.
Não há nenhuma ética pessoal, visto que a moralidade depende do relacionamento
do amor, o que torna o Sermão do Monte supérfluo em grande medida.
Paradoxalmente, ao fazer tudo depender da reação instante e intuitiva do agente
diante das circunstâncias, a ética situacional exclui qualquer padrão
generalizado de moralidade aplicável aos outros ou à sociedade outro sabor
nitidamente não-cristão.
"A fé que opera pelo amor" oferece
um alicerce para a norma do amor, mas não é essencial; um homem sincero,
inteligente e sábio pode rejeitar a Cristo sem afetar a sua moralidade
situacional. A base da norma é nossa decisão de que ela será o amor; para
alguns, isto dependerá de uma decisão (não revelação) prévia de que Deus é
amor.
Procura-se apoio num famoso ditado de
Agostinho: "Ama, e faze o que queres" – "seis palavras benditas,
parte do patrimônio dos emancipados", que fazem de Agostinho o santo
padroeiro da "nova moralidade". Este fato ilustra bem o perigo da
moralidade dos lemas, porque naquele contexto (Homilias, 1 Jo 7.8, 10.7) Agostinho
está argumentando que é uma atitude amorosa o uso da força do Estado para
obrigar os hereges donatistas a "entrarem" na festa ortodoxa do
evangelho; o argumento de uma consciência inquieta que procura tristemente
comprovar que um fim "amoroso" justifica quaisquer meios usados,
produzindo um princípio que foi o alicerce para toda a perseguição religiosa a
partir de então. Fica claro que tudo depende daquilo que é incluído na conduta
amorosa.
Mas na ética situacional somente uma coisa é
intrinsecamente boa – o amor, "um modo de se relacionar com as pessoas e
de usar coisas". O fim procurado, o amor, é o único critério, e
exclusivamente ele justifica os meios. Não há regras determinadas somente o
amor. A única pergunta a ser levantada em qualquer situação é: O que produzirá
a quantidade máxima de amor? A pessoa não recita textos, deveres, mandamentos,
virtudes, obrigações, nem estima consequências: a pessoa reage em cada situação
como o eu livre, exercitando o amor responsável, e pratica ou evita uma coisa
segundo as exigências do amor. Esta atitude simplifica, liberta e é suficiente.
Nenhuma outra orientação é necessária ou possível numa era tão nova. E porque
as situações modernas podem ser mesmo tão complexas, o amor pode facilmente
achar-se sacrificando os outros (para preservar segredos da guerra); contando
mentiras; furtando; permitindo-se práticas homossexuais,
"autossexuais", promíscuas ou adúlteras; lançando bombas atómicas;
aprovando o aborto, a prostituição ou a poligamia.
Na superfície, há muita coisa atraente para
os cristãos “A única lei é a lei do amor, de Cristo"; mas o critério-chave
permanece essencialmente vago, porque não fica definido qual é o alvo do amor.
É totalmente individualista, impulsivo, produto da situação: todas as
obrigações são dissolvidas no impulso amoroso. Talvez seja verdadeiro que
semelhante "amor" não é peculiar aos cristãos: mas o amor cristão o
é.
Se for alegado que a norma é o amor ensinado
por Jesus, logo é incoerente abandonar o Seu conceito de amor como o
cumprimento, e não a revogação, da lei divina: argumentar que Jesus tinha razão
somente no tocante ao amor, mas que estava enganado quanto à castidade, ao
divórcio, à autodisciplina, aos mandamentos de Deus; e é bem falso reivindicar
a Sua autoridade para qualquer coisa que o "amor" desculpe – o aborto,
o sexo extraconjugal, as mentiras e as demais coisas. Sempre que se apela à
autoridade de Cristo, o significado dEle deve ser mantido. Fletcher não
raciocina, em lugar algum, acerca daquilo que o amor requer; os evangelhos
estão repletos de ilustrações daquilo que Jesus queria dizer com isso, e fica
abundantemente claro, no NT inteiro, que o amor cristão proíbe positivamente a
fornicação, o adultério, o assassínio, a mentira, o furto e muitas coisas mais.
Aquilo que o amor requer, e aquilo que ele exclui, não é deixado aos impulsos
intuitivos e sem instrução.
Desta forma, embora a aparente simplificação
também seja atraente, a norma do amor, que com justa razão é suprema, não é
autossuficiente. Muita coisa deve ser conhecida de antemão quanto ao alvo
cristão para a vida e os indivíduos, no tocante à escala de valores cristãos,
acerca daquilo que realmente é bom para o nosso próximo e quanto à vontade de
Deus em cada situação, antes de o amor saber o que fazer. A
"situação", também, não é um mero acaso, mas uma oportunidade dentro
da qual a providência colocou o cristão, com indicações do dever e da
orientação divina Pressupõem-se bastante percepção, conhecimento e maturidade
espiritual. A ética situacional é, na melhor das hipóteses, uma etapa final no
crescimento moral, que vem depois de etapas anteriores que precisam de
diretrizes, experiência emprestada e instrução clara. Fletcher reconhece
tacitamente este fato, ao pressupor que o amor inclui inteligência, informação,
previsão, prudência e muitas coisas mais.
Finalmente, a imediação prática da ética
situacional é atraente aos cristãos. Sugere que o indivíduo está "aberto à
inspiração do momento" quanto àquilo que deve fazer. Mas o indivíduo
cristão não está totalmente aberto aos impulsos imediatos do amor caprichoso
simplesmente por ser ele cristão. Ele confronta todas as situações com a mente
e o coração já moldados pela experiência cristã, herdando (até certo grau) a
longa tradição cristã daquilo que é certo, e tendo um compromisso com a fé e
obediência do cristianismo. Com o exemplo de Jesus diante dos seus olhos, entra
em cada nova situação tendo "a mente de Cristo". Sua norma de
comportamento, portanto, embora certamente deva ser aplicada a situações
variadas e sem precedentes, está, na realidade, arraigada no passado, expressa
na encarnação do ideal em Cristo.
Hoje, o cristão alerta realmente enfrenta de
modo renovado cada nova situação e confia na inspiração do Espírito de Jesus
para saber como agir com amor; mas as diretrizes estão claras. Sua norma para
todas as circunstâncias é a imitação de Cristo. Despojada de exageros e
concentrada em Jesus, a ética situacional tem muita coisa para ensinar àqueles
para quem a citação de textos antigos é orientação suficiente para os problemas
contemporâneos...
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Resumindo, a
ética situacional de Joseph Fletcher defende que a única lei moral
absoluta é o amor (ágape), e que as decisões morais devem ser tomadas
com base nas circunstâncias de cada situação, e não em regras
fixas. O amor, entendido como uma ação sacrificial e não apenas como
sentimento, guia a escolha do que é melhor para a situação em questão,
justificando o uso de qualquer meio se o fim for amoroso... Essa abordagem nos
fazer pensar no numa expressão muito falada hoje no Brasil: “governodoamor”. Pode-se, inclusive, traçar um paralelo entre ambos: a centralidade
do amor como norma ética (?) e a medida de todas as decisões, além da crítica
ao legalismo, à rigidez institucional, mas com o de chegar ao fim último: “o
fim justifica os meios”.
Neste
artigo [5] (Escola Goffs) é
mencionado que embora as ideias de Joseph Fletcher “estivessem enraizadas na
Bíblia, eram novas e, para alguns, chocantes!” para a época (1966) e que
“... mais tarde, tornou-se ateu e participou da Associação Americana de
Eutanásia e da Associação para Esterilização Voluntária...”.
Sobre uma
resposta bíblica para o conceito de “ética situacional” falaremos mais em outro
artigo.
Notas / Referências bibliográficas:
[1] Imagem ilustrativa feita pelo Chat GPT, em 14/10/2025.
[3] Amor (Ágape):
“’… boa vontade atuando em parceria com a razão” na busca do “melhor
interesse do próximo, com um olhar atento a todos os fatores da situação’”.
Ágape é preocupação com os outros. Fletcher usa o termo “melhor interesse”,
então isso parece muito semelhante ao utilitarismo de Singer. Agimos por amor
aos outros, tentando fazer o melhor para servir aos seus interesses” (Idem,
Nota 5).
[4] WHITE, R. E. Oscar. Ética
situacional. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell.
Vol. II. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág.94 a 96 (texto adaptado).