Por: Alcides Amorim
“Dois amores
fundaram duas cidades” (Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus).
“Buscai a paz da cidade
para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis
paz”
(Jr
29.7).
A obra A Cidade de Deus, escrita por
Agostinho de Hipona no século V, permanece como uma das mais profundas
reflexões cristãs sobre a relação entre fé, sociedade e poder. Sua distinção
entre a Cidade de Deus (Civitas Dei) e a cidade terrena (Civitas
Terrena) oferece uma chave importante para compreender não apenas a
história, mas também a presença e a responsabilidade do cristão na vida
pública.
Essas duas cidades não correspondem
simplesmente a territórios, governos ou instituições. Elas representam, antes,
duas orientações fundamentais do coração humano: dois amores, dois conjuntos de
valores e duas maneiras de compreender a existência. De um lado, o amor a Deus,
que conduz à justiça e ao serviço; de outro, o amor-próprio desordenado, que
pode transformar a busca por reconhecimento, poder e glória em finalidade da
própria vida.
É justamente nesse contraste que a reflexão de
Agostinho continua atual. A questão não é simplesmente saber quem governa, qual
partido vence ou qual modelo político prevalece. A questão mais profunda é: que
tipo de amor orienta aqueles que exercem o poder e aqueles que participam da
vida pública?
Na verdade, a obra A Cidade de Deus, de Agostinho,
permanece como uma das lentes mais profundas para compreender a relação entre a
fé cristã, a sociedade e a ação política. No centro do tratado agostiniano
encontra-se a distinção entre duas comunidades espirituais e morais. Elas não
são definidas por fronteiras geográficas, políticas ou institucionais, mas pelo
objeto de seu amor. A Cidade de Deus é formada por aqueles que vivem pelo amor
a Deus, até o desprezo de si mesmos, orientados pela justiça divina e pelo
verdadeiro bem. A cidade terrena, por sua vez, caracteriza-se pelo amor-próprio
levado até o desprezo de Deus, manifestando-se na busca desordenada por glória,
poder e exaltação pessoal.
Para Agostinho, a verdadeira grandeza do homem
não está no poder, na glória ou no reconhecimento público, mas na justiça que
orienta sua vida. Quem busca viver retamente não faz da aprovação humana o
objetivo de sua existência. O reconhecimento pode até acontecer como
consequência de uma boa conduta, mas não deve se tornar a razão de agir. O que
importa, em última análise, não é ser admirado pelo poder que se exerce, mas
ser reconhecido pela justiça que se pratica.
Na história presente, essas duas cidades
caminham entrelaçadas. Não constituem dois territórios politicamente separados,
nem podem ser identificadas simplesmente com instituições humanas. Sua
distinção é, antes de tudo, espiritual e moral: uma se orienta pelo amor a
Deus; a outra, pelo amor desordenado de si mesma. É justamente nesse cenário de
convivência histórica que se deve compreender a Igreja.
A Igreja não deve ser confundida com a
totalidade do Reino de Deus em sua consumação escatológica. Ela é a comunidade
peregrina daqueles que pertencem a Cristo e aguardam a plena manifestação de
seu Reino. Inserida no mundo, mas não reduzida aos seus valores, a Igreja
testemunha, pela fé, pela Palavra e pela prática cristã, uma ordem de valores
que não nasce dos consensos culturais, mas do senhorio de Cristo.
Ao mesmo tempo, a Igreja visível
permanece uma comunidade histórica e, portanto, imperfeita. A própria parábola
do trigo e do joio recorda que a separação definitiva não pertence aos homens,
mas ao juízo de Deus: “Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por
ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em
molhos para o queimar; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro” (Mt 13.30).
Essa perspectiva é fundamental para compreender
também os limites da ação política. O Estado pertence à ordem temporal
da vida humana. Em razão da condição caída do homem, instituições, leis e
autoridades civis tornam-se necessárias para conter a violência, preservar a
ordem e promover uma medida possível de justiça e paz. Agostinho não considera
o Estado um instrumento de salvação nem acredita que qualquer estrutura
política possa produzir, por si mesma, a perfeição moral da sociedade. Seu
papel é temporal e limitado.
A chamada “paz terrena” possui, portanto, valor
real, mas não deve ser confundida com a paz definitiva do Reino de Deus.
Governos passam, sistemas políticos se transformam e impérios desaparecem. A
história de Roma, conhecida tão de perto por Agostinho, tornou-se uma
demonstração concreta da fragilidade das realizações humanas. Nenhuma ordem
política é eterna.
Conforme observa Bengt Hägglund[1], a tensão entre essas duas
cidades não se resolve historicamente pela substituição imediata de uma pela
outra, mas permanece até a consumação final. A distinção agostiniana, portanto,
permite compreender a história humana como o espaço em que diferentes amores,
valores e finalidades coexistem e se confrontam. A cultura, a sociedade e a
política tornam-se, assim, campos nos quais se manifestam tanto os efeitos da
queda quanto os sinais da graça comum de Deus.
Essa compreensão possui importantes implicações
éticas. Quando tratamos da cultura e da ética no contexto dos reinos dos
homens, ligados ao Primeiro Adão, e do Reino de Deus, ligado ao Segundo Adão[2], torna-se necessário
reconhecer que nenhum sistema político pode reivindicar para si a plenitude do
Reino de Cristo.
O cristão participa da vida social e política,
mas não deposita nela sua esperança última. Ele respeita as autoridades, cumpre
seus deveres civis, participa legitimamente da vida pública e procura promover
o bem de sua comunidade. Entretanto, sua cidadania terrena está subordinada à
sua cidadania celestial.
Essa verdade é especialmente importante diante
da tentação de transformar a política em objeto de fé. Nenhum partido,
ideologia, governo ou candidato pode ser identificado com o Reino de Deus. Da
mesma forma, nenhum adversário político deve ser transformado em símbolo
absoluto do mal. A consciência cristã precisa resistir tanto à idolatria do
poder quanto à demonização daqueles que pensam de maneira diferente.
A parábola do trigo e do joio também nos
recorda os limites do julgamento humano. A lavoura pertence ao seu verdadeiro
Dono, e a ceifa ocorrerá no tempo determinado por Ele. Isso não significa que o
cristão deva abandonar o discernimento moral ou permanecer indiferente diante
da injustiça. Significa, antes, que seu discernimento deve ser exercido com
humildade, reconhecendo que nenhum ser humano ou instituição possui autoridade
para ocupar o lugar do Juiz definitivo.
Essa consciência é particularmente relevante
para os cristãos que participam da vida pública, inclusive como candidatos,
governantes ou agentes políticos. O poder deve ser compreendido como
responsabilidade, e não como instrumento de autoexaltação. A autoridade
política é legítima enquanto serve ao bem público; torna-se moralmente
corrompida quando é transformada em mecanismo de dominação, enriquecimento
pessoal, mentira ou instrumentalização da fé.
Para o eleitor cristão, especialmente diante
das intensas disputas e polarizações políticas do Brasil contemporâneo, a
perspectiva agostiniana funciona como um importante antídoto contra a idolatria
política. O cristão pode escolher candidatos, avaliar propostas e participar do
processo eleitoral de acordo com sua consciência e seus princípios éticos.
Entretanto, deve fazê-lo sem atribuir a qualquer projeto político a capacidade
de inaugurar o Reino de Deus.
As escolhas políticas devem, portanto, ser
orientadas por critérios de justiça, responsabilidade, defesa da dignidade
humana, cuidado com os vulneráveis, promoção da paz e respeito à ordem social.
Mesmo quando uma decisão política produz resultados positivos, eles serão
sempre parciais e provisórios. A política terrena pode e deve ser utilizada
para o bem comum, mas jamais deve ser amada como um fim último.
A distinção entre as duas cidades não conduz,
portanto, à fuga da sociedade, mas a uma participação mais lúcida nela. O
cristão não abandona a cidade terrena; vive nela como peregrino, consciente de
que sua esperança definitiva está além dela. Sua responsabilidade pública nasce
justamente dessa consciência: ele participa sem idolatrar, exerce autoridade
sem se exaltar, defende princípios sem transformar adversários em inimigos
absolutos e trabalha pelo bem temporal sem perder de vista o bem eterno.
Em suma, a consciência de pertencer à Cidade de
Deus liberta o cristão tanto do desespero quanto do fanatismo político. Os
governos passam, os impérios caem e as estruturas humanas se transformam. A
própria Roma que Agostinho conheceu em sua grandeza experimentou a fragilidade
do poder terreno. O Reino de Cristo, porém, não depende da permanência de
qualquer estrutura política.
Ao participar da vida pública, o cristão
permanece, ao mesmo tempo, cidadão de sua cidade terrena e peregrino em direção
à pátria celestial. Respeita as leis, busca a paz da sociedade onde Deus o
colocou, exerce com responsabilidade seus deveres civis, vigia contra as
seduções do poder e mantém sua esperança final naquele Reino cujo Rei não passa
e cujo domínio não terá fim.
Veja também:
§
A
democracia é uma forma cristã de governo?
§
Nossa
cidadania está nos céus.
- [1] HÄGGLUND. In: AMORIM, Alcides Barbosa de. Fé, cultura e razão: fundamentos éticos da cosmovisão protestante. Pindamonhangaba/SP: Clube de Autores, 2026, p. 295-296.
- [2] AMORIM, Alcides Barbosa de. Fé, cultura e razão: fundamentos éticos da cosmovisão protestante. Pindamonhangaba/SP: Clube de Autores, 2026, cap. 12.