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16 de março de 2026

Logos

 Por:  Andrew Finlay Walls  [1]


Logos[1]. O termo grego mais comum aplicado a “palavra” no NT; ocasionalmente com outros significados (e.g., "relato", "raciocínio", "motivo"); especificamente no prólogo do quarto evangelho (Jo 1.1,14) e talvez em outros escritos joaninos (1 Jo 1.1; Ap 19.13) é usado a respeito da segunda Pessoa da Trindade. Na linguagem grega comum também significa "razão".

1.    O Uso Joanino

Segundo João 1.1-8, o Logos já estava presente na criação ("no princípio" refere-se a Gn 1.1), no mais estreito relacionamento com Deus ("com" = pros, não meta nem syn). Na realidade, o Logos era Deus (não "divino" como Moffatt – o predicado sem artigo é gramaticalmente exigido, mas também pode indicar uma distinção entre as pessoas). Este relacionamento com Deus estava em vigor no momento da Criação (1.2). Toda a obra da criação foi levada a efeito através ("por" = v. 3) do Logos. Sendo a fonte da vida (1.4, pontuação provável), e a luz do mundo (cf. 9.5), e de todo homem (1.9, pontuação provável), e ainda continuando (tempo presente em 1.5) esta obra, o Logos encarnou-Se, revelando o sinal da presença de Deus e a Sua natureza (1.14).

O prólogo, portanto, revela três facetas principais do Logos e de Sua atividade: Sua divindade e relacionamento íntimo com o Pai; Sua obra como agente da criação; Sua encarnação.

Em 1 Jo 1.1 "o Logos da vida", visto, ouvido e tocado, pode referir-se ao Cristo pessoal da pregação apostólica, ou impessoalmente à mensagem a respeito dele. Ap 19.12, retrata Cristo como um general vencedor chamado o Logos de Deus. Como em Hb 4.12, é o quadro veterotestamentário dos efeitos esmagadores da palavra de Deus (cf. a linguagem figurada do v. 15) que está em mente.

2.    Pano de Fundo do Termo

No Antigo Testamento, vários fatores oferecem algum preparo para o uso em João. Deus cria mediante a palavra (Gn 1.3; SI 33.9) e Sua palavra, às vezes, é referida semi-pessoalmente (SI 107.20; 147.15,18); é ativa, dinâmica e obtém os resultados pretendidos (Is 50.10-11). A sabedoria de Deus é personificada (Pv 8 - note especialmente os vv. 22ss, a respeito da obra da sabedoria na criação). O Anjo do Senhor, às vezes, é referido como Deus, às vezes como diferente dEle (cf. Jz 2.1). O nome de Deus é semi-personalizado (Ez 23.21; 1 Rs 8.29).

O Judaísmo Palestino. Além da personificação da sabedoria (cf. Eclesiástico 24) os rabinos usavam a palavra më'mrä, "palavra", como perífrase de "Deus". Este uso ocorre nos targuns.

A Filosofia Grega. Entre os filósofos, o significado de Logos varia, mas, em geral, representa "razão" e reflete a convicção grega de que a divindade não pode entrar em contato direto com a matéria. O Logos é um para-choque entre Deus e o universo, e a manifestação do princípio divino no mundo. Na tradição estoica, o Logos é tanto a razão divina quanto a razão distribuída no mundo (e, portanto, na mente).

O Judaísmo Helenístico. No judaísmo alexandrino havia plena personificação do verbo na Criação (Sab. Sal. 9.1; 16.12). Nos escritos de Filo que, embora fosse judeu, bebeu profundamente do platonismo e do estoicismo, o termo aparece mais de 1300 vezes. O Logos é "a imagem" (Cl 1.15); a primeira forma (prötogonos), a representação (charaktër, cf. Hb 1.3), de Deus; e até mesmo um "Segundo Deus" (deuteros theos; cf. Eusébio, Praeparatio Evangelica vii. 13); o meio pelo qual Deus cria o mundo a partir da grande desolação; e, além disso, o meio pelo qual Deus é conhecido (isto é, com a mente. O conhecimento mais estreito podia ser recebido diretamente, em êxtase).

A Literatura Hermética. Logos ocorre frequentemente na literatura hermética. Embora sejam pós-cristãos, estes escritos são influenciados pelo judaísmo helenístico Indicam a doutrina do Logos, em termos semelhantes aos de Filo, nos círculos místicos pagãos.

Origens da Doutrina de João. João 1 é radicalmente distinto do uso filosófico. Para os gregos, Logos era essencialmente razão; para João, essencialmente palavra. A linguagem que Filo e o NT têm em comum levou muitos a considerarem que João dependia de Filo. Mas o Logos de Filo é naturalmente referido como neutro, ao passo que o Logos de João é "Ele". Filo não se aproximou mais do que Platão de um Logos que talvez fosse encarnado, e não faz identificação alguma entre Logos e Messias. O Logos de João não é apenas o agente de Deus na criação; Ele é Deus e Se torna encarnado, revelando e redimindo.

O më'mra rabínico dificilmente é mais do que uma substituição reverente do nome divino; não é um conceito suficientemente substancial; nem é provável algum contato direto com os círculos herméticos.

A origem da doutrina do Logos em João acha-se na Pessoa e na obra do Cristo histórico. "Jesus não deve ser interpretado pelo Logos: Logos é inteligível somente à medida que pensamos em Jesus" (W. F. Howard, IB, VIII, 442). Sua expressão é apropriada principalmente devido à conotação veterotestamentária de "palavra" e da sua personificação da sabedoria. Cristo é o Verbo ativo de Deus, Sua revelação salvífica ao homem decaído. Não é por acidente que tanto o evangelho quanto Cristo, que é o assunto do evangelho, sejam chamados "a palavra". Mas o uso de "Logos" no mundo helenístico contemporâneo tornou-o um conceito útil para "construir pontes".

Em duas passagens no NT onde Cristo é descrito em termos que relembram o Logos de Filo, a palavra "Logos" está ausente (Cl 1.15-17; Hb 1.3). Sua introdução à linguagem cristã tem sido atribuída a Apolo.

3.    Logos no Uso Cristão Primitivo

Os apologistas acharam Logos um termo conveniente para expor o cristianismo aos pagãos. Usavam seu sentido de "razão", e alguns chegaram, assim, a ver a filosofia como uma preparação para o evangelho. As implicações hebraicas de "palavra" eram desenfatizadas, mas nunca totalmente perdidas. Alguns teólogos distinguiam entre o Logos endiathetos, ou Palavra latente na Deidade desde a eternidade, e o logos prophorikos, que foi pronunciado e se tornou eficaz na criação. Orígenes parece ter usado a linguagem do deuteros theos, de Filo. Nas principais controvérsias cristológicas, no entanto, o uso do termo não esclareceu as questões principais, e não ocorre nos grandes credos.

Por: A. F. WALLSParte inferior do formulário


Notas / Fonte:

  •  [1] Andrew Finlay Walls (1928–2021): “...foi um influente historiador britânico e pioneiro nos estudos do Cristianismo Mundial e da história da igreja africana. Ele lecionou em diversas universidades, incluindo Aberdeen e Edimburgo, sendo fundamental na compreensão da mudança do centro de gravidade do cristianismo do Ocidente para o hemisfério sul” (Wikipedia). Acesso, via I.A., em: 06/03/2026.
  •   [2] WALLS, A. F. Logos. In:  Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. II (Pág. 449 a 450 – Texto adaptado). 



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