Por: Andrew Finlay Walls [1]
Logos[1]. O termo grego mais comum
aplicado a “palavra” no NT; ocasionalmente com outros significados (e.g.,
"relato", "raciocínio", "motivo"); especificamente
no prólogo do quarto evangelho (Jo 1.1,14) e talvez em outros escritos joaninos
(1 Jo 1.1; Ap 19.13) é usado a respeito da segunda Pessoa da Trindade. Na
linguagem grega comum também significa "razão".
1.
O Uso Joanino
Segundo João 1.1-8, o Logos já estava presente
na criação ("no princípio" refere-se a Gn 1.1), no mais estreito
relacionamento com Deus ("com" = pros, não meta nem syn).
Na realidade, o Logos era Deus (não "divino" como Moffatt – o predicado
sem artigo é gramaticalmente exigido, mas também pode indicar uma distinção
entre as pessoas). Este relacionamento com Deus estava em vigor no momento da
Criação (1.2). Toda a obra da criação foi levada a efeito através
("por" = v. 3) do Logos. Sendo a fonte da vida (1.4, pontuação
provável), e a luz do mundo (cf. 9.5), e de todo homem (1.9, pontuação
provável), e ainda continuando (tempo presente em 1.5) esta obra, o Logos
encarnou-Se, revelando o sinal da presença de Deus e a Sua natureza (1.14).
O prólogo, portanto, revela três facetas
principais do Logos e de Sua atividade: Sua divindade e relacionamento íntimo
com o Pai; Sua obra como agente da criação; Sua encarnação.
Em 1 Jo 1.1 "o Logos da vida", visto,
ouvido e tocado, pode referir-se ao Cristo pessoal da pregação apostólica, ou
impessoalmente à mensagem a respeito dele. Ap 19.12, retrata Cristo como um
general vencedor chamado o Logos de Deus. Como em Hb 4.12, é o quadro
veterotestamentário dos efeitos esmagadores da palavra de Deus (cf. a linguagem
figurada do v. 15) que está em mente.
2.
Pano de Fundo do Termo
No Antigo Testamento, vários fatores oferecem
algum preparo para o uso em João. Deus cria mediante a palavra (Gn 1.3; SI
33.9) e Sua palavra, às vezes, é referida semi-pessoalmente (SI 107.20; 147.15,18);
é ativa, dinâmica e obtém os resultados pretendidos (Is 50.10-11). A sabedoria
de Deus é personificada (Pv 8 - note especialmente os vv. 22ss, a respeito da
obra da sabedoria na criação). O Anjo do Senhor, às vezes, é referido como
Deus, às vezes como diferente dEle (cf. Jz 2.1). O nome de Deus é semi-personalizado
(Ez 23.21; 1 Rs 8.29).
O Judaísmo Palestino. Além da
personificação da sabedoria (cf. Eclesiástico 24) os rabinos usavam a palavra më'mrä,
"palavra", como perífrase de "Deus". Este uso ocorre nos
targuns.
A Filosofia Grega. Entre os
filósofos, o significado de Logos varia, mas, em geral, representa
"razão" e reflete a convicção grega de que a divindade não pode
entrar em contato direto com a matéria. O Logos é um para-choque entre Deus e o
universo, e a manifestação do princípio divino no mundo. Na tradição estoica, o
Logos é tanto a razão divina quanto a razão distribuída no mundo (e, portanto,
na mente).
O Judaísmo Helenístico. No
judaísmo alexandrino havia plena personificação do verbo na Criação (Sab. Sal.
9.1; 16.12). Nos escritos de Filo que, embora fosse judeu, bebeu profundamente
do platonismo e do estoicismo, o termo aparece mais de 1300 vezes. O Logos é
"a imagem" (Cl 1.15); a primeira forma (prötogonos), a
representação (charaktër, cf. Hb 1.3), de Deus; e até mesmo um
"Segundo Deus" (deuteros theos; cf. Eusébio, Praeparatio
Evangelica vii. 13); o meio pelo qual Deus cria o mundo a partir da
grande desolação; e, além disso, o meio pelo qual Deus é conhecido (isto é, com
a mente. O conhecimento mais estreito podia ser recebido diretamente, em
êxtase).
A Literatura Hermética. Logos
ocorre frequentemente na literatura hermética. Embora sejam pós-cristãos, estes
escritos são influenciados pelo judaísmo helenístico Indicam a doutrina do
Logos, em termos semelhantes aos de Filo, nos círculos místicos pagãos.
Origens da Doutrina de
João. João 1 é radicalmente distinto do uso filosófico. Para os gregos,
Logos era essencialmente razão; para João, essencialmente palavra. A linguagem
que Filo e o NT têm em comum levou muitos a considerarem que João dependia de
Filo. Mas o Logos de Filo é naturalmente referido como neutro, ao passo que o
Logos de João é "Ele". Filo não se aproximou mais do que Platão de um
Logos que talvez fosse encarnado, e não faz identificação alguma entre Logos e
Messias. O Logos de João não é apenas o agente de Deus na criação; Ele é Deus e
Se torna encarnado, revelando e redimindo.
O më'mra rabínico dificilmente é mais do que
uma substituição reverente do nome divino; não é um conceito suficientemente
substancial; nem é provável algum contato direto com os círculos herméticos.
A origem da doutrina do Logos em João acha-se
na Pessoa e na obra do Cristo histórico. "Jesus não deve ser
interpretado pelo Logos: Logos é inteligível somente à medida que pensamos em
Jesus" (W. F. Howard, IB, VIII, 442). Sua expressão é apropriada
principalmente devido à conotação veterotestamentária de "palavra" e
da sua personificação da sabedoria. Cristo é o Verbo ativo de Deus, Sua
revelação salvífica ao homem decaído. Não é por acidente que tanto o evangelho
quanto Cristo, que é o assunto do evangelho, sejam chamados "a
palavra". Mas o uso de "Logos" no mundo helenístico
contemporâneo tornou-o um conceito útil para "construir pontes".
Em duas passagens no NT onde Cristo é descrito
em termos que relembram o Logos de Filo, a palavra "Logos" está
ausente (Cl 1.15-17; Hb 1.3). Sua introdução à linguagem cristã tem sido
atribuída a Apolo.
3.
Logos no Uso Cristão Primitivo
Os apologistas acharam Logos um termo
conveniente para expor o cristianismo aos pagãos. Usavam seu sentido de
"razão", e alguns chegaram, assim, a ver a filosofia como uma
preparação para o evangelho. As implicações hebraicas de "palavra"
eram desenfatizadas, mas nunca totalmente perdidas. Alguns teólogos distinguiam
entre o Logos endiathetos, ou Palavra latente na Deidade desde a
eternidade, e o logos prophorikos, que foi pronunciado e se
tornou eficaz na criação. Orígenes parece ter usado a linguagem do deuteros
theos, de Filo. Nas principais controvérsias cristológicas, no entanto,
o uso do termo não esclareceu as questões principais, e não ocorre nos grandes
credos.
Por: A. F. WALLS
Notas / Fonte:
- [1] Andrew Finlay Walls (1928–2021): “...foi um influente historiador britânico e pioneiro nos estudos do Cristianismo Mundial e da história da igreja africana. Ele lecionou em diversas universidades, incluindo Aberdeen e Edimburgo, sendo fundamental na compreensão da mudança do centro de gravidade do cristianismo do Ocidente para o hemisfério sul” (Wikipedia). Acesso, via I.A., em: 06/03/2026.
- [2] WALLS, A. F. Logos. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. II (Pág. 449 a 450 – Texto adaptado).
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