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30 de junho de 2026

Bispos e Papas (20): Cornélio

 Por: Alcides Amorim 

Bispo Cornélio e Cipriano de Cartago [1]

Depois do bispo Fabiano, martirizado em 250, o próximo bispo de nossa lista (bispos e papas romanos), é Cornélio, que exerceu seu episcopado entre 251 e 253. Na lista dos papas católicos ele é 21º, considerando que Pedro, o apóstolo tenha sido o primeiro papa.   Eusébio de Cesareia, em História Eclesiástica (HE, 6, XXXIX) [2], diz que durante a violenta perseguição do imperador Décio aos cristãos, o bispo Fabiano foi martirizado “... e foi sucedido por Cornélio como bispo de Roma”. E no livro 7, II, ele afirma que “... Cornélio exerceu o episcopado em torno de três anos...” sendo sucedido por Lúcio.

Acho importante destacar aqui o contexto histórico da época do pontificado de Cornélio e sua relação com a perseguição sob o imperador Décio e o Novacionismo.

No ano 249, Décio cingiu-se com a púrpura imperial. Embora os historiadores cristãos tenham caracterizado como personagem cruel, Décio era simplesmente um romano de feitio antigo e um homem disposto a restaurar a velha glória de Roma. Por diversas razões, essa glória parecia estar perdendo o seu brilho. Os bárbaros além das fronteiras se mostravam cada vez mais inquietos e mais atrevidos em suas incursões dentro dos domínios do Império. A economia do império estava em crise. E as velhas tradições caíam cada vez mais em desuso.
Para um romano tradicional, era claro que uma das razões pelas quais tudo isto sucedia, era que o povo havia abandonado o culto de seus deuses. Quando todos adoravam os deuses, as coisas pareciam caminhar muito melhor e a glória e o poder de Roma eram cada vez maiores. Em consequência, era possível pensar que o que estava sucedendo era que, desde que Roma estava retirando o seu culto, os deuses por sua vez estavam retirando seu favor ao velho Império. Nesse caso, uma das medidas que se impunha no intento de restaurar a velha glória de Roma era a restauração dos velhos cultos. Se todos os súditos do Império voltassem a adorar os deuses, possivelmente os deuses voltariam a favorecer o Império.
Esta foi a principal razão da política religiosa de Décio. Não se tratava já dos velhos rumores acerca das práticas nefandas dos cristãos, nem da necessidade de castigar sua obstinação, mas se tratava, antes, de uma campanha religiosa que buscava a restauração dos velhos cultos. Em última análise, o que estava em jogo era a sobrevivência da velha Roma dos Césares, com suas glórias e seus deuses. Tudo o que se opunha a isto era falta de patriotismo e alta traição [3].

Em 250 [4], o imperador romano Décio emitiu um edito exigindo que todos os cidadãos do Império realizassem sacrifícios aos deuses tradicionais. O objetivo político do imperador era restaurar a unidade religiosa romana, forçando os cristãos a abdicarem de sua fé sob pena de severa punição.

Como consequência dessa intensa perseguição, muitos cristãos cederam à pressão e sacrificaram aos deuses para salvar suas vidas ou subornaram autoridades para obter certificados de que o haviam feito. Esses cristãos que renegaram a fé sob coerção ficaram conhecidos historicamente como lapsi (os "caídos").

Quando a perseguição diminuiu e a Igreja voltou a ter relativa paz, surgiu um grande dilema: o que fazer com os lapsi que desejavam retornar à comunhão e ao seio da Igreja? Essa questão gerou um acalorado debate entre os líderes cristãos da época.

Enquanto o clero debatia o perdão, o presbítero romano Novaciano assumiu uma postura extremista e rigorosa. Ele defendia que os apóstatas haviam cometido um pecado imperdoável perante os homens e que a Igreja não tinha o poder nem a autoridade para readmitir os lapsi de volta.

Em 251 d.C., Cornélio foi eleito e consagrado Bispo de Roma, adotando uma posição pastoral muito mais próxima à misericórdia. Ele liderou um sínodo que excomungou Novaciano e reafirmou que a Igreja possuía autoridade divina para perdoar e reconciliar os cristãos arrependidos, estabelecendo penitências adequadas.

A eleição de Cornélio e suas diretrizes misericordiosas levaram Novaciano a ordenar-se bispo rival, criando o primeiro cisma da história da Igreja. Assim, o episcopado de Cornélio ficou marcado pelo combate ao novacionismo e pela afirmação da Igreja como uma instituição universal, aberta a pecadores arrependidos.

Importante também ver a importância de Cipriano de Cartago para o episcopado de Cornélio em relação a solução da crise dos lapsi. Juntos, formularam uma via pastoral intermediária, estabelecendo que os pecadores arrependidos poderiam retornar à comunhão eclesial após cumprirem penitências proporcionais à gravidade de suas faltas.

O laço entre os dois líderes fortaleceu-se ainda mais por meio de cartas de encorajamento mútuo durante a nova onda de repressão sob o imperador Treboniano Galo. Quando Cornélio foi preso e enviado ao exílio, onde viria a falecer em 253 d.C., Cipriano o enalteceu publicamente, celebrando sua firmeza e declarando-o mártir da fé. Essa cooperação histórica não apenas superou as heresias da época, mas também consolidou os conceitos de colegialidade episcopal e de solidariedade entre as grandes sedes apostólicas.

O Bispo Cornélio foi martirizado? A resposta a esta pergunta, dada pelo Chatgpt [5] diz que a tradição cristã afirma que Cornélio, bispo de Roma (251–253), morreu durante a perseguição do imperador Galo, razão pela qual passou a ser venerado como mártir. Entretanto, há uma pequena nuance histórica.
Os testemunhos mais antigos indicam que Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde faleceu em 253. Durante muito tempo, acreditou-se que ele tivesse sido executado. Hoje, muitos historiadores entendem que sua morte pode ter ocorrido em consequência dos sofrimentos do exílio, e não necessariamente por decapitação ou outro método de execução. Ainda assim, a Igreja antiga o reconheceu como mártir, porque sua morte foi considerada consequência direta da perseguição que sofreu por causa da fé.
Seu grande correspondente e amigo, Cipriano de Cartago, escreveu diversas cartas em sua defesa durante a controvérsia envolvendo os lapsi (os cristãos que haviam renegado a fé durante a perseguição). Cipriano elogia repetidamente a firmeza de Cornélio e o apresenta como um pastor fiel que sofreu por Cristo.
Há um detalhe interessante: diferentemente de Cipriano, cujo martírio por decapitação em 258 está amplamente documentado, o modo exato da morte de Cornélio permanece menos claro. Isso explica por que alguns livros antigos o descrevem como "executado", enquanto estudos históricos mais recentes preferem dizer que ele morreu no exílio, sendo venerado como mártir em razão da perseguição...
Esse episódio é especialmente significativo para quem estuda a história da Igreja, pois Cornélio e Cipriano tornaram-se símbolos da unidade e da disciplina eclesiástica, enfrentando juntos o cisma de Novaciano e defendendo que a Igreja podia conceder reconciliação aos pecadores verdadeiramente arrependidos, sem abrir mão da santidade nem da autoridade pastoral.


Notas:

  •  [1Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa, feita através do chatgpt, em: 30/06/2026.
  •  [2]  CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro anos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
  •  [3GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo. Vol. I: A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 138-140. 
  •  [4Texto fundamentada em fontes filtradas por I. A. do Google (Modo IA), em 28/06/2026.
  •  [5O bispo Cornélio foi martirizado? In: chatgpt.com. Acesso em: 30/06/2026.

5 de janeiro de 2026

Bispos e Papas (20): Cornélio

 
Bispo Cornélio [1]

O historiador Justo L. González cita em sua lista dos bispos de Roma em ordem cronológica:  Lino (?), Anacleto (?), Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleuterio (175-189), Vítor (189-199), Ceferino (199-217), Calixto (217-222), Urbano (222-230), Ponciano (230-235), Antero (235-236), Fabião (236-250), um total, até aqui [2], de dezenove bispos de Roma. O próximo que veremos abaixo é Cornélio (251-253). “Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela  Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado” (H. E., 6: XXXIX.

Como Eusébio destaca, Cornélio sucedeu o bispo Fabiano (ou Fabião) em um dos períodos mais turbulentos da história inicial da Igreja cristã. Seu episcopado, entre os anos ocorreu logo após a perseguição do imperador Décio, que deixou profundas feridas internas na comunidade cristã, especialmente quanto ao destino dos fiéis que haviam renegado a fé sob coerção. Veja este Edito de Trajano Décio Trajano Décio,  nome referendado pelo Senado:

“Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício” [3].

Alguns cristãos “... correram a obedecer ao edito imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios diante dos deuses. Outros, talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros, enfim, permaneceram firmes, e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis que seus verdugos pudessem impor...” [4]. Como afirma González, “... o propósito do imperador não era criar mártires, mas apóstatas...” (Idem, pág. 140). Os cristãos que, temendo a morte, cederam à pressão do rei, passaram a ser conhecidos como lapsi (os que “caíram”). “Mas agora, com a nova situação criada pelo edito de Décio, apareceu um grupo de pessoas que permaneciam firmes na fé, mas cuja firmeza não levava à coroa do martírio. A essas pessoas que haviam confessado sua fé em meio das torturas se lhes deu o título de ‘confessores’" (Idem, pág. 141).

Com o fim da perseguição, surgiu um grave dilema pastoral: seria possível readmitir os lapsi ou (lapsos) à comunhão da Igreja? Foi nesse cenário que Cornélio foi eleito bispo de Roma [5], após um longo período de vacância do episcopado, causado justamente pela perseguição.

A eleição de Cornélio não foi pacífica. Um presbítero romano chamado Novaciano, defensor de uma postura rigorista, opôs-se à sua nomeação e chegou a se proclamar bispo rival, tornando-se um dos primeiros antipapas da história.

Novaciano defendia que os lapsi jamais poderiam ser readmitidos à comunhão, mesmo após arrependimento. Cornélio, ao contrário, adotou uma posição pastoral e misericordiosa, sustentando que, após penitência sincera, os lapsi poderiam ser reconciliados com a Igreja.

Essa posição foi confirmada por um sínodo romano [6], que apoiou Cornélio e condenou o cisma novacianista. O bispo Cipriano de Cartago foi um dos principais aliados de Cornélio, defendendo sua legitimidade e sua teologia pastoral.

Embora Cornélio não tenha deixado uma obra teológica sistemática, seu pensamento é conhecido por meio de cartas [7] preservadas, sobretudo nas obras de Eusébio de Cesareia e na correspondência com Cipriano. Seus principais eixos pastorais foram:

·         a unidade da Igreja,

·         a autoridade legítima do episcopado,

·         a misericórdia aliada à disciplina, por meio da penitência,

·         a rejeição do rigorismo extremo que negava o perdão eclesial.

Cornélio compreendia a Igreja como uma comunidade de pecadores em processo de conversão, não como uma assembleia de perfeitos. Essa visão teve influência duradoura na prática penitencial cristã.

Durante a perseguição do imperador Treboniano Galo, sucessor de Décio, Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde morreu em 253. Embora não haja unanimidade histórica quanto às circunstâncias exatas de sua morte, a tradição cristã o venerou como mártir, pois sofreu o exílio e a morte em razão da fé, “... sendo sentenciado ao martírio por ordem daquele imperador, por não aceitar prestar culto aos deuses pagãos...” (Site UCDB.

E quanto ao seu legado histórico e teológico, pode ser destacado:

-  a consolidação da autoridade do bispo de Roma em tempos de crise;

 -  ajuda no estabelecimento de uma teologia do perdão e da penitência que moldaria a prática sacramental posterior;

-  sua vitória sobre o cisma novacianista preservou a unidade e a catolicidade da Igreja.

No exílio, “... o papa [ou bispo] Cornélio passou os últimos dias da sua vida. Onde encontrava um pouco de alegria era nas cartas que recebia do bispo Cipriano, seu admirador e amigo de fé, muito preocupado em mandar-lhe algumas palavras de consolo...” (Idem).


Notas / Referências bibliográficas:

  • [2] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995 (Reimpressão), pág. 4 a 7.
  • [5] Texto resumido com base nas fontes:
a)  https://chatgpt.com/c/694ef888-4b0c-832c-8680-d6afb26f3c70. Acesso em 26/12/2025. 
b)  https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/09/16/ss--cornelio--papa-e-cipriano--bispo--martires.html. Acesso em 26/12/2025. 
c)  https://site.ucdb.br/santos-do-dia/sao-cornelio/278/. Acesso em 26/12/2025.
d)  GONZÁLEZ (O.C., Nota 4). 
e)  Eusébio. História Eclesiástica... (H.E.).
  • [6] “Por este motivo reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número ainda maior de presbíteros e diáconos, enquanto que nas demais províncias os pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer. Todos tomaram uma decisão: que Novato [Novaciano], junto com os que se haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam considerados como alheios à Igreja. Por outro lado, os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados e cuidados com os remédios da penitência...” (H. E., 6:XLIII).
  • [7] Junto com essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda outra sobre os atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para quem leia este livro saiba sobre ele” (Idem).

30 de novembro de 2025

Bispos e Papas (19): Fabiano

Bispo Fabiano [1]

O próximo bispo de nossa lista (bispos e papas romanos), que queremos destacar aqui é o Bispo Fabiano ou Fabião. Na lista de Eusébio de Cesareia, em História Eclesiástica (HE, 6, XXIX) [2] encontramos: “Gordiano  sucedeu Maximino  na soberania de Roma, quando Ponciano, que havia ocupado o episcopado por seis anos, foi sucedido por Antero na igreja de Roma, o qual é também sucedido por Fabiano depois de se empenhar no serviço por cerca de um mês. Diz-se que Fabiano chegara a Roma com alguns outros do país e, ali permanecendo de modo notabilíssimo, pela graça divina e celestial, foi apresentado como um dos candidatos para o ofício... Relatam, ainda, que uma pomba de súbito, desceu do alto, pousou sobre sua cabeça, exibindo uma cena como aquela sobre nosso Salvador. Com isso todo o corpo exclamou com toda veemência e a uma só voz, como que movido pelo Espírito de Deus, que ele era digno; e, sem demora tomaram-no e o colocaram no episcopal.”

Na nossa lista, Ponciano foi o 17º bispo, Antero, o 18º. Portanto, o Bispo Fabiano, que sucedeu a Antero, corresponde ao 19º que ocupou o episcopado em Roma, entre 236 a 250, um longo período papal (14 anos) segundo a Igreja Católica.

Além das informações de Eusebio (acima), outras, especificadas aqui [3], por exemplo, afirmam sobre o Bispo ou Papa Fabiano:

§  Era um fazendeiro e homem simples do campo, mas um excelente administrador;

§  Dividiu a cidade de Roma em sete distritos eclesiásticos, cada um sob a responsabilidade de um diácono com auxílio de um subdiácono e assistentes, visando atender à crescente comunidade cristã: cuidados sociais, assistência aos pobres, a gestão das catacumbas (cemitérios cristãos).

§  Cada distrito tinha seu clero, responsável por abrigar doentes, conservar ou construir capelas para cultos e manter contato próximo com o presbítero encarregado pelo papa para o serviço litúrgico. Essa reforma marcou a criação de uma organização muito unida e adaptada ao crescimento do cristianismo na cidade...

Segundo o site católico Paulinas [4], Fabiano, um quase desconhecido antes da eleição, foi muito apreciado também por suas intervenções doutrinais, especialmente nas controvérsias da Igreja da África. O site diz que Fabiano, durante o seu pontificado de catorze anos, houve paz e desenvolvimento interno e externo da Igreja. Mas que também enfrentou problemas com o imperador Décio, que ao enfrentar problemas no seu governo, desencadeou uma ferrenha perseguição contra toda a Igreja. “Ocorreu um grande êxodo de cristãos de Roma, que se deslocaram para o Oriente à procura das comunidades religiosas dos desertos, um pouco mais protegidas das perseguições. Este foi o início para a vida eremita, com os 'anacoretas', mais conhecidos como os padres do deserto. Entretanto, o papa Fabiano permaneceu no seu posto e não renegou a fé, sendo decapitado no dia 20 de janeiro de 250” (Idem).

Eusébio (HE, 6, XXXIX), cita: “Agora pois, a Felipe [5], que havia imperado por sete anos, sucede Décio [6], que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado”.

Antes do reinado de Décio, a perseguição aos cristãos no império era esporádica e localizada, mas por volta do início de janeiro de 250 ele emitiu um édito ordenando que todos os cidadãos realizassem um sacrifício religioso na presença de comissários. Um grande número de cristãos desafiou o governo, o que resultou na morte dos bispos de Roma, Jerusalém [Alexandre] e Antioquia [Babilas], e na prisão de muitos outros.

A repressão fortaleceu, em vez de enfraquecer, o movimento cristão, pois a opinião pública condenou a violência do governo e aplaudiu a resistência passiva dos mártires. Décio forneceu o modelo para uma perseguição mais rigorosa aos cristãos, que começou em 303, durante o reinado de Diocleciano. No início de 251, poucos meses antes da morte de Décio, a perseguição aos cristãos cessou [7].

Eusébio (HE, 6, XXXIX), cita: “Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado”.

Portanto, no mesmo ano, 250, além do martírio de Fabiano, houve também os martírios de Alexandre, bispo de Jerusalém, e de Babilas, bispo de Antioquia.


Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Bispo ou Papa Fabiano. Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Fabiano. Acesso em: 05/11/2025.
  • [2] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro anos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
  • [5] Felipe (244-249) e sucessor de Giordano III (238-244). “O reinado de Filipe testemunhou o verdadeiro início da crise do século III, marcada por uma série de invasões bárbaras através do Danúbio e por uma guerra civil interna liderada por generais dissidentes. O sucesso inicial de Décio, enviado por Filipe para enfrentar a invasão gótica de 248, levou o exército de Décio a proclamá-lo imperador” (In: https://www.britannica.com/biography/Philip-Roman-emperor).
  • [6] Décio (249-251) foi imperador romano e sucessor de Felipe.

  • [7] Décio: Imperador romano. Disponível em: < https://www.britannica.com/biography/Decius>. Acesso em: 06/11/2025.

7 de outubro de 2025

Bispos e Papas (18): Antero

Bispo Antero [1]

O próximo bispo de nossa lista (bispos e papas romanos), que queremos destacar aqui é o Bispo Antero. Na lista de Eusébio de Cesareia, em História Eclesiástica (HE) [2] encontramos: “Depois de Maximino, Gordiano recebeu em sucessão o principado dos romanos, e a Ponciano, que havia exercido o episcopado da igreja de Roma por seis anos, sucedeu Antero, que depois de servir no cargo durante um mês, teve como sucessor Fabiano” (HE, 6, XXIX – Destaques meus).

Veja que Eusébio afirma que Antero teve um episcopado muito curto, de apenas um mês ou pouco um mais. Assim, conforme esta [3] e mais esta [4] e esta outra [5] fontes católicas, o Papa ou Bispo Antero:

§  Exerceu seu episcopado entre “21 de novembro de 235 a 3 de janeiro de 236”.

§  Foi filho de Rômulo e nasceu na Magna Grécia, na região que hoje é a Calábria, de uma família de origens gregas, mas seu nome indica que ele foi um escravo livre.

§  Sua eleição foi marcada pelo enfrentamento da oposição de um sacerdote de nome Nereu de Chipre, que desejava o trono de São Pedro, mas não reuniu adeptos em número suficiente para apoiar as suas pretensões.

§  Pouco se sabe da sua morte, mas provavelmente foi condenado à morte por Maximino Trácio.

§  Ordenou a compilação de documentos canônicos oficiais, recolhidos e conservados na Igreja, em um lugar chamado scrinium. Muitas recompilações foram queimadas por ordem do imperador Diocleciano, mas voltaram a ser redigidas para desaparecerem novamente nos tempos do Papa Honório III (1225).

Segundo o Portal São Francisco (Nota 5) “Antero Promoveu a coleção de Os Atos dos Mártires, uma ordenação das atas concernentes aos mártires da Igreja, determinando que fossem lavradas cópias para serem guardadas nas igrejas. Sua iniciativa irritou o imperador romano Máximiano, um bárbaro da Trácia, que o levou à condenação e execução, tendo seu corpo sido sepultado junto às catacumbas de São Calixto. Sua morte violenta, associada a sua humildade e grande carisma pessoal, resultou em milhares de conversões entre os romanos e gregos pagãos e até entre a guarda pessoal do imperador...”.

Lembrando que nossa lista segue uma ordem diferente da Teologia Católica, uma vez que esta considera o apóstolo Pedro como o primeiro papa.


Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa. Disponível em: Paróquia de Coreaú (Nota 4). Acesso em: 06/10/2025.

  • [2] CESAREIA, Eusébio. História Eclesiástica: os primeiros quatro anos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

3 de setembro de 2025

A Escatologia de Hipólito e o Fundamentalismo Protestante

 Por: Alcides Amorim

Hipólito de Roma[1]

Sobre o comentário acerca das setenta semanas de Daniel, feito pelo Dr. C. I. Scofield [2], ele cita dois Pais da Igreja, Irineu e Hipólito, cuja escatologia se assemelhava à dos fundamentalistas. Sobre o primeiro já falamos aqui e aqui e, sobre Hipólito, veja o conteúdo abaixo.

1.    Quem era Hipólito [3]

Hipólito de Roma (c. de 170-c. de 236) foi um presbítero de língua grega na igreja em Roma que liderou um cisma contra o Bispo Calixto. Ele e um bispo posterior de Roma, Ponciano, foram exilados para a Sardenha durante a perseguição feita pelo imperador Maximino (235) Ponciano e Hipólito aparentemente foram reconciliados antes de morrerem na Sardenha, e vieram a ser considerados mártires.

Hipólito escreveu vários documentos importantes. A Refutação de todas as Heresias (as vezes chamada Philosophoumena) trata principalmente das seitas gnósticas, fazendo seus erros remontarem à filosofia. A Tradição Apostólica é a fonte mais completa no tocante aos costumes organizacionais e litúrgicos da Igreja ante-niceana [4] – e abrange o batismo, a eucaristia, a ordenação e a festa do amor ágape). O Comentário de Daniel é o mais antigo da Igreja Ortodoxa; expõe uma escatologia quillasta [5]. Contra Noeto opõe-se a uma antiga forma de modalismo. Uma estátua de Hipólito, presumivelmente preparada durante sua vida, traz uma inscrição que alista seus escritos e registra uma tabela de cálculo da data da Páscoa.

As opiniões de Hipólito foram aguçadas por sua controvérsia com Calixto. Além de suas diferenças pessoais (Calixto era um ex-escravo com pouca educação formal, Hipólto, uma pessoa livre com muita cultura) e da rivalidade pelo episcopado, os dois homens discordavam doutrinariamente no tocante a duas considerações importantes. Hipólito defendia a cristologia do Logos e fazia tanta distinção entre o Pai e Cristo, que Calixto o chamava de "diteísta"; Calixto e seu antecessor, Zeferino, enfatizavam a união divina, de tal maneira que Hipólito não via diferença entre as opiniões deles e o modalismo de Sabélio. Hipólito adotava um conceito rigorista da disciplina eclesiástica, e negava a reconciliação com a igreja àqueles que eram culpados dos pecados mais graves, deixando nas mãos de Deus o perdão; Calixto adotava um conceito mais lasso, e estava disposto a conceder o perdão da igreja, especialmente nos casos de pecados sexuais.

2.    Sua escatologia

§  A última semana de Daniel (9.27) / o Anticristo.

A exemplo de Irineu de Lyon, Hipólito de Roma também interpretou as setenta semanas de Daniel (Dn 9.24-27) como um período literal de 490 anos, conectando a última semana (70ª) diretamente com a vinda do Anticristo e os acontecimentos finais da história a exemplo também dos dispensacionalistas. A primeira metade da última semana era um período de aparente paz e aliança feita pelo Anticristo, enquanto a segunda metade, um período de extrema perseguição, abolição do sacrifício, “abominação da desolação” e domínio do Anticristo sobre o mundo. Esta fase é explicada e conectada também pelos períodos de tempos mencionados em Daniel e Apocalipse: 1260 dias (Ap 11.3; 12.6), 42 meses (Ap 11.2; 13.5) e tempo, tempos e metade de um tempo (Dn 12.7; Ap 12.14). Após este período de tribulação, Cristo intervirá e instaurará seu Reino definitivo.

§  Arrebatamento da Igreja / Milênio:

Sobre o arrebatamento, Hipólito não o via como um evento secreto como fazem os dispensacionalistas. Para ele, a igreja passará pela perseguição do Anticristo, especialmente durante os últimos 3 anos e meio da semana de Daniel. Espera-se que os fiéis sejam perseverantes e aguardem a manifestação gloriosa de Cristo no final da última semana. Na verdade, a ordem dos eventos do final dos tempos para Hipólito será:  Aparecimento do Anticristo (Dn 7.25; 9.27; 11.36; Ap 13); Perseguição dos santos: a Igreja sofreria durante o reinado de 3 anos e meio; Segunda vinda de Cristo: Cristo destruiria o Anticristo e instauraria o reino. Ressurreição/arrebatamento: ocorre na manifestação de Cristo, quando os justos são reunidos a Ele (1Ts 4.16-17). Mas, como Irineu e os dispensacionalistas modernos, Hipólito também cria em um reinado terreno (literal) de Cristo por mil anos.

Numa tabela criada pelo ChatGPT [6], relacionando Hipólito e dispensacionalistas, em relação ao tempo do fim temos:  

Evento

Hipólito de Roma

Dispensacionalismo

a)  Última semana de Daniel (Dn 9.27)

§ É futura e se refere ao governo do Anticristo. Dividida em duas metades de 3 anos e meio: paz aparente (1a);

§ Perseguição da Igreja (2a).

§ Idem.

b)   Anticristo

§ Figura real, governará 3 anos e meio, abolirá o sacrifício, instaurará a abominação da desolação e perseguirá os santos.

§ Também é figura real, dominará durante a Tribulação e fará pacto com Israel.

c)   Destino da Igreja durante a tribulação

§ A Igreja permanece na terra e sofre perseguição do Anticristo. Não há livramento antecipado.

§ Igreja é arrebatada antes da Tribulação (pré-tribulacionismo).

§ Alguns grupos aceitam arrebatamento no meio ou no fim da tribulação.

d)  Arrebatamento / Ressurreição (1Ts 4.16-17)

§ Acontece junto com a segunda vinda de Cristo, após a tribulação. É público e glorioso.

§ O arrebatamento é secreto e anterior à tribulação (pré-tribulacionismo clássico). Depois, ocorre uma segunda vinda visível de Cristo.

e) Milênio (Ap 20.4-6)

§ Literal: Cristo reinará 1.000 anos na terra após derrotar o Anticristo.

§ Também literal: Cristo reinará por 1.000 anos após a Tribulação.

f)   Israel e Igreja

§ Não faz distinção rígida: judeus e gentios em Cristo é perseguido pelo Anticristo e depois participa do Reino.

§ Forte distinção: Israel e Igreja têm destinos diferentes. A Tribulação é voltada a Israel; a Igreja já terá sido arrebatada.

g)  Sequência final

§ Anticristo Tribulação Segunda Vinda de Cristo Arrebatamento/Ressurreição Milênio Juízo final Eternidade.

§ Arrebatamento (antes da tribulação) 7 anos de Tribulação (Israel no centro) Segunda Vinda visível Milênio Juízo final Eternidade.

Para concluir, percebemos as ideias de Hipólito convergiam com as de dispensacionalistas, principalmente na crença da vinda de Anticristo real, uma última semana de Daniel futura e um milênio literal. A diferença crucial está no fato de que Hipólito coloca o arrebatamento apenas no fim da tribulação, enquanto o dispensacionalismo (clássico) defende que a Igreja não estará na tribulação, pois será retirada antes. Podemos afirmar, portanto, que Hipólito é um pós-tribulacionista milenarista, enquanto para o dispensacionalismo a ideia mais difundida é o pré-tribulacionista milenarista.

Resumo no vídeo a seguir:


Notas:

  •  [2] Cyrus Ingerson Scofield (1843–1921): “... foi um influente ministro americano. Sua Bíblia de Referência Scofield , repleta de anotações úteis sobre o texto, foi publicada em 1909 e se tornou o padrão para uma geração de cristãos fundamentalistas e popularizou a teologia dispensacionalista...”. Veja mais aqui, aqui e também aqui.  

  •  [3] FERGUSON, Everett. Hipólito. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pág. 251-252.

  •  [4] Isto é, A Tradição Apostólica de Hipólito foi uma das fontes teológicas que serviram de base para o Concílio de Niceia, o primeiro dos concílios ecuménicos, ocorrido no ano 325.

  •  [5] Quiliasta: aquele que defende a crença num "Reino Milenar" literal onde Cristo reinará na Terra após a sua segunda vinda, com base em interpretações de passagens bíblicas como Apocalipse 20.1-6 e outras.

  •  [6] Para montagem deste quadro, o ChatGpt usou como base Exposição sobre Daniel de Hipólito.