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17 de novembro de 2025

O que é solipsismo: breve análise bíblica

 Por Alcides Amorim

Áudio:

...

Solipsismo e Fé Cristã: dois caminhos do eu [1]

Já vimos em alguns posts a relação (pró ou contra) entre a posição de alguns filósofos e a da Bíblia. Marx, que defendeu que vivemos em um mundo onde tudo é material, não havendo o sobrenatural, abolindo as noções espirituais e o transcendente é um exemplo de posição que faz oposição a Deus, por ser contrário a qualquer crença e/ou objeto de fé. Enquanto outros como Descartes, Berkeley, Locke, Pascal e outros, são exemplos de pensadores racionais, mas que também tinham fé.

Onde entra o solipsismo neste contexto? No ponto em que, diferentemente dos filósofos que embora racionais eram também crentes num Ser sobrenatural (Deus) o solipsismo, embora seja fruto de reflexões filosóficas, entra em choque tanto com o racionalismo quanto com a fé cristão/bíblica.

Vimos que Descartes, ao duvidar de tudo no Discurso do Método e nas Meditações, chega à certeza do próprio pensamento — “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”). Descartes, aparentemente parte do solipsismo, através de sua dúvida radical “cogito – penso”, mas ele não para aí. Ele usa essa certeza como ponto de partida para reconstruir o conhecimento e provar: a existência de Deus e a existência do mundo externo, garantida pela veracidade divina, enquanto o solipsismo fica apenas com o “Cogito. O solipsista não aceita nenhuma prova da existência de Deus nem do mundo, ficando preso apenas ao próprio pensamento.

 Bem, Ministério Got Questions [2] afirma que o solipsismo é a crença de que é incerta a existência de qualquer coisa que não seja a própria mente. Isso pode envolver desde o ceticismo em relação aos sentidos e às experiências da pessoa até a crença de que qualquer coisa fora da mente é inexistente. Como acontece com qualquer visão filosófica abstrata, ela tem milhares de variedades e aplicações diferentes. Versões variadas de solipsismo têm sido aplicadas a visões de mundo cristãs, ateístas e panteístas, e a tudo o que está entre elas.

De um ponto de vista direto, a Bíblia não sugere nada parecido com o solipsismo. Diz-se que Deus criou (Gênesis 1:1; João 1:1-3), e diz-se que essa criação mudou (Gênesis 1:2-3) e mudará novamente (Apocalipse 21:1-2). Essa realidade é descrita como tendo partes diferentes e distintas (Gênesis 1:4-7). Da mesma forma, os seres humanos são chamados a responder às nossas experiências como um meio de realizar a vontade de Deus (Romanos 1:20; Mateus 11:21-23). Uma pessoa que defende pontos de vista solipsistas precisa interpretar essas ideias de uma forma altamente metafórica, o que não é natural para o texto. Essa visão da realidade ou das Escrituras tampouco é sugerida nos escritos dos primeiros Pais da Igreja.

Além disso, o solipsismo deve ser diferenciado do ceticismo geral e da verificação de fatos. A Bíblia incentiva um ceticismo cauteloso (Atos 17:11), especialmente com relação a ideias espirituais (1 João 4:1). A simples consciência de que somos falíveis e de que precisamos verificar novamente nossas experiências não é solipsismo. O verdadeiro solipsismo, de fato, não pode ser conectado às nossas experiências de forma alguma.

O solipsismo corrói qualquer lógica ou evidência que possa apoiar a realidade da experiência. Se nossas experiências são artificiais, imaginárias ou falsas, então qualquer experiência que possa nos levar a acreditar no solipsismo pode fazer parte da ilusão e, portanto, não ser confiável. Ao mesmo tempo, qualquer experiência que possa nos levar a duvidar do solipsismo pode ser descartada pelo mesmo motivo. Como resultado, o solipsismo não é provado nem contradito por nenhuma experiência possível – o que significa que o solipsismo como filosofia é praticamente sem sentido. A ideia é tanto infalsificável quanto inverificável. Verdadeira ou falsa, não podemos conhecê-la ou refutá-la e, portanto, não podemos tomar nenhuma decisão significativa sobre ela.

Esse é um dos motivos pelos quais o solipsismo e os argumentos que o implicam são geralmente considerados becos sem saída em discussões filosóficas. Ou seja, a introdução do solipsismo torna a conversa sem sentido. Assim que alguém argumenta que nossas experiências – em um nível fundamental – não são confiáveis, ficamos incapazes de saber qualquer coisa. Isso não é apenas contrário à forma como vivenciamos a vida, mas também torna toda a razão e experiência inúteis. O solipsismo se enquadra na categoria de ideias que são interessantes, mas nas quais não vale a pena se aprofundar (Colossenses 2:8; Tito 3:9).

Para algumas pessoas, o solipsismo é preocupante porque é um conceito difícil de abandonar. Se não se pode confiar em nossos próprios sentidos e experiências, o que isso significa para nossos relacionamentos, nossa ciência ou nossa religião? A solução para essa angústia é perceber como o solipsismo é impraticável. Ou seja, a crença no solipsismo não pode ser vivida de forma significativa. Tampouco pode ser provada ou refutada por quaisquer experiências ou evidências possíveis. Para se libertar da preocupação com o solipsismo, é preciso perceber que se trata de uma abstração pura, sem aplicação prática...

Uma metáfora simples para o fato de estar preso a um pensamento solipsista é a música infantil "The Song That Never Ends" (A Canção Que Nunca Acaba), cuja letra é a seguinte:

Essa é a música que nunca termina. / Sim, ela continua e continua, meus amigos. / Algumas pessoas começaram a cantá-la sem saber o que era. / E continuarão a cantá-la para sempre, só porque...

(repetir do início ad nauseam).

Se você aceitar a afirmação da música (de que precisa continuar cantando), ficará preso no ciclo para sempre, como diz a música. Mas se alguém perguntar por que você está sempre cantando, a única razão que você pode dar é: "porque a música diz isso"! A solução é perceber que, além da música em si, não há absolutamente nenhum motivo para continuar cantando. Você não foi obrigado a começar e não é obrigado a continuar - a menos que decida arbitrariamente que deve obedecer à música por algum motivo.

O solipsismo funciona da mesma forma em nossa mente. Se quiséssemos, poderíamos considerar tudo o que vivenciamos como fruto de nossa imaginação, inclusive todos os sinais em contrário. Mas teríamos que fazer o mesmo com todos os sinais que apontassem para o solipsismo em primeiro lugar. E, de qualquer forma, não temos motivos tangíveis para pensar que isso é verdade. Como na canção infantil, é bem possível que fiquemos presos à ideia, mas não há absolutamente nada que sugira que façamos isso, a não ser a própria ideia.

Em suma, um resumo feito, via Chat Gpt [3], comparando o solipsismo com a fé cristã apresenta:

Portanto, diferentemente da música infantil citada acima que propõe ficarmos presos à ideia, a fé cristã supera o solipsismo ao transformar a interioridade em porta de acesso ao divino (Deus), não em prisão do sujeito. Veja, também, para concluir, este vídeo do Brendo Silva, sobre o assunto:

“Solipsismo: a crença de que só a própria mente existe — uma ilusão que, à luz da fé cristã, nega a realidade do Criador e do próximo.”

Notas / Referências bibliográficas:

  •  [1] “Solipsismo e Fé Cristã: dois caminhos do eu: À esquerda, vemos o solipsismo: um ‘eu’ fechado em si mesmo, isolado, cercado por muros invisíveis. Para o solipsista, apenas sua própria mente é real – o mundo e os outros podem ser apenas projeções da consciência. É uma solidão metafísica: o universo reduzido ao ‘eu penso’. À direita, À direita, a cristã: um ‘eu’ aberto, confiante, que se volta a Deus e ao mundo. A cruz e a Terra simbolizam a comunhão – Deus é o fundamento da realidade, e cada pessoa é chamada ao amor e à relação” (Imagem e legenda ilustrativas sugeridas e feitas pelo ChatGpt. In: https://chatgpt.com/c/69092191-8fb4-8332-95ab-2b0e60eaf2de. Acesso em: 06/11/2025. 
  •  [3O que é o solipsismo? In: https://chatgpt.com/c/69092191-8fb4-8332-95ab-2b0e60eaf2de. Acesso em: 06/11/2025.

3 de novembro de 2025

Fundacionalismo x Coerentismo: breve análise bíblica

 
Ilustração: Fundacionalismo / Coerentismo [1]

No artigo Joseph Fletcher e a Lei do Amor vimos que ele – Fletcher – argumenta que as decisões éticas devem ser baseadas nas circunstâncias únicas de cada situação, e não em regras absolutas e rígidas. E, para fazer uma relação com esta ideia resolvi falar um pouco também, a seguir, dos conceitos de fundacionalismo e coerentismo.

Na filosofia, uma das grandes perguntas é: “Como sabemos que o que acreditamos é realmente verdadeiro?” Essa questão levou à criação destas duas teorias importantes sobre a justificação do conhecimento.

1.    Fundacionalismo

O Fundacionalismo vê o conhecimento como um edifício. Na base, existem crenças básicas, que não precisam de justificativas — como percepções imediatas ou verdades evidentes. Sobre essas bases, construímos outras crenças que dependem delas. Assim, o conhecimento tem um fundamento seguro, daí o termo “Fundacionalismo”. Por exemplo, como vimos aqui, a máxima de Descartes “penso, logo existo” está intrinsecamente ligada ao Fundacionalismo. Através da dúvida metódica, ele busca um conhecimento indubitável para servir de base (fundação) para todo o resto. Ele aplicou a dúvida radical a tudo, mas concluiu que o próprio ato de duvidar prova a sua existência. Essa primeira verdade, o cogito (eu penso), torna-se a crença fundacional indubitável a partir da qual ele tenta reconstruir o conhecimento conforme exposto em sua obra “Discurso do Método”, que pode ser resumido em percepção, razão, certeza. Para Descartes, portanto, a certeza do próprio pensamento era o ponto de partida para todo o saber.

2.    Coerentismo

Os coerentistas rejeitam a ideia de um fundamento único. Para eles, uma crença é justificada quando coerente com o conjunto de todas as nossas outras crenças. O importante não é uma base inabalável, mas a consistência do todo. Assim, o conhecimento se parece mais com uma rede, onde cada parte sustenta e é sustentada pelas outras.

Um dos coerentistas, Hegel, por exemplo, analisava como a verdade e a justificação epistemológica são compreendidas em seu sistema, especialmente através de sua dialética e idealismo absoluto. A filosofia hegeliana compartilha com o Coerentismo a ideia de que a verdade não é verificada por uma base externa e fixa (como no Fundacionalismo), mas pela coerência interna de um sistema de crenças.

Para efeito de comparação, podemos dizer que: o fundacionalista busca certezas firmes, enquanto o coerentista confia na harmonia entre as ideias. Mas, ambos tentam resolver o mesmo desafio: evitar o regresso infinito, em que cada crença precisaria de outra para se justificar. No fim, seja por bases sólidas ou por conexões coerentes, o que buscamos é o mesmo: compreender o que torna nosso conhecimento realmente confiável.

3.    Fundacionalismo e Coerentismo à luz da Bíblia

Como o Fundacionalismo e o Coerentismo estão ligados ao ramo do conhecimento denominado epistemologia e apresenta visões diferentes da justificação do conhecimento, para uma breve análise destes conceitos do ponto-de-vista epistemológico e bíblico, vejamos o que diz o Ministério Got Questions neste[1] e  também neste[2] artigo.

Tanto o Coerentismo quanto o Fundacionalismo, ao invés de lidar diretamente com o que é verdadeiro ou falso, essas visões procuram definir o que torna uma crença justificada: em que ponto é razoável presumir que uma crença é verdadeira? De fato, eles seguem o objetivo da epistemologia que visa alcançar o conhecimento, buscando entender as questões: "O que é conhecimento?" "Como o conhecimento é adquirido?" "O que as pessoas sabem?" "Como sabemos o que sabemos?" "Por que sabemos o que sabemos?"

Do ponto de vista bíblico, entretanto, a Epistemologia busca refletir sobre a natureza e os fundamentos do conhecimento a partir da perspectiva da revelação divina conforme apresentada na Bíblia. Diferentemente da epistemologia tradicional que baseia o conhecimento na razão e na experiência humana, a epistemologia bíblica entende que o conhecimento verdadeiro e seguro vem de Deus, que se revela ao homem por meio das Escrituras e da pessoa de Jesus Cristo.

 Bem, na definição da justificação, ao comparar o Fundacionalismo e o Coerentismo, devemos nos lembrar de que não se trata de discussões sobre o que é de fato verdadeiro, mas de opiniões variadas sobre o que torna uma crença justificada ou razoável para uma pessoa manter.

O Fundacionalismo pode ser visualizado como uma árvore, uma pirâmide ou uma parede de tijolos. Para ser justificada, uma crença precisa ser apoiada por outra crença, que por sua vez é justificada, e assim por diante, até que se chegue à base definitiva dessas crenças, o fundamento. De acordo com o Fundacionalismo, todas as crenças justificadas são, em última análise, fundamentadas em certas outras crenças que não podem ser derivadas ou verificadas por outras crenças. Esses axiomas são fundamentais e necessários. Eles "devem ser acreditados" para que se tenha qualquer conhecimento. Para que uma crença seja adequadamente justificada, o Fundacionalismo exige que ela seja atribuída a uma ou mais dessas máximas fundamentais.

O Coerentismo (contextualismo) pode ser visualizado como uma teia extremamente complexa, uma nuvem ou um emaranhado de fios. Para ser justificada, uma crença deve ser apoiada por outras crenças. Quanto mais contato a crença tiver com outras ideias – quanto mais ela for coerente com a estrutura circundante – mais justificada ela será. Como se estivesse olhando para uma teia de aranha do centro para fora, pode não haver um ponto final perceptível. As conexões podem se ramificar em várias direções sem que haja um ponto final ancorado em si mesmo. De acordo com o Coerentismo, as crenças justificadas são aquelas que têm apoio "suficientemente bom" de outras crenças e não exigem que a cadeia de apoio seja verificada até que pare - se é que isso acontece. Para que uma crença seja adequadamente justificada, o Coerentismo exige que ela esteja conectada a um número subjetivamente suficiente de crenças de apoio.

O Fundacionalismo é apoiado principalmente pela força da lógica. A existência de verdades fundamentais é demonstrada nas teorias da matemática básica, como "um número é igual a si mesmo". Essa afirmação não pode ser deduzida de outras ideias, mas também não pode ser negada sem obliterar a lógica e a própria matemática. O Fundacionalismo permite os laços mais fortes possíveis entre a verdade e a crença, criando um vínculo direto entre as duas. Ele também evita o problema de um argumento que acaba sendo usado para se sustentar. Entretanto, o Fundacionalismo também é abstrato. Embora possa ser logicamente possível rastrear todos os fatos e ideias até as máximas básicas, não é prático fazer isso, e esse rastreamento praticamente nunca é feito no mundo real.

A principal vantagem do Coerentismo é a praticidade. A maioria das pessoas não consegue rastrear uma crença até os axiomas fundamentais, mesmo que estejam inclinadas a buscar essa descoberta. Também é verdade que, em alguns casos, a cadeia de justificação não fica clara: nem todas as etapas do processo são simples e fáceis de determinar. Isso significa que a maioria das pessoas no mundo real aborda a justificação por meio de uma forma prática de Coerentismo, mesmo que acreditem que "deveria haver" um ponto final objetivo para seu raciocínio. O perigo é que o Coerentismo facilmente se torna relativismo. Ele pode até levar ao solipsismo[3], já que o que constitui uma conexão "boa o suficiente" é profundamente subjetivo.

Em última análise, tanto o Fundacionalismo quanto o Coerentismo podem ser consistentes com uma visão de mundo bíblica. Isso se deve ao fato de que nenhum dos dois é uma declaração sobre o que "é verdade" ou o que "se deve acreditar", mas apenas o processo pelo qual se determina se há uma ligação justificada entre uma crença e a verdade. Assim, para entender bem se o processo da busca da justificação do conhecimento destas visões está correto precisa ser analisado à luz da Bíblia: não crer de imediato, mas provar se o conhecimento vem de Deus ou não (1Jo 4.1); examinar se o conhecimento proposto não venha nos desviar da fé (2Co 13.5) e prová-lo à luz das Escritura (At 17.11). De qualquer forma, embora o Fundacionalismo pareça mais robusto, a falibilidade humana deve ser levada em conta, deixando espaço para o Coerentismo em algumas aplicações. Portanto, ambas são teorias que buscam explicar como as crenças são justificadas e como se constrói o conhecimento racional. Mas do lado espiritual, o Fundacionalismo reforça a importância de uma base segura na revelação de Deus, enquanto o Coerentismo destaca a importância da harmonia e consistência entre as crenças para discernimento e crescimento na fé.

Veja também o vídeo a seguir:



Notas / Referências bibliográficas:

  • [1Imagem meramente ilustrativa, feita com através do Chat Gpt, em 21/10/2025... 
  • [4Solipsismo é uma concepção filosófica que sustenta que apenas o próprio eu e suas experiências existem de fato. Segundo essa doutrina, toda a realidade é reduzida ao sujeito pensante, e os outros seres e objetos seriam meras impressões sem existência própria independente da mente. Dessa forma, o solipsismo afirma que o único conhecimento certo é o do próprio ato de pensar e do eu presente, e tudo mais pode ser colocado em dúvida ou contestado. É uma posição extrema do idealismo que defende a exclusividade da realidade do sujeito pensante em relação ao mundo externo...” (In: Perplexity: Solipsismo). Voltaremos a este assunto... 












































[1] Imagem meramente ilustrativa, feita com através do Chat Gpt, em 21/10/2025... 

27 de outubro de 2025

Ética situacional: breve análise bíblica

 
Ilustração: Ética situacional [1]

Sobre o conceito de ética, já vimos brevemente: Ética x moral; Ética bíblica; Ceticismo e ética;  Ética situacional... Sobre este último, vimos como Fletcher analisa a ética do ponto-de-vista da “lei do amor”. A ética situacional de Joseph Fletcher defende que a única lei moral absoluta é o amor (ágape), e que as decisões morais devem ser tomadas com base nas circunstâncias de cada situação, e não em regras fixas. O amor, entendido como uma ação sacrificial e não apenas como sentimento, guia a escolha do que é melhor para a situação em questão, justificando o uso de qualquer meio se o fim for amoroso... Mas, a Bíblia realmente ensina a ética situacional? Vejamos a seguir o que diz o Ministério Got Questions [2] sobre isto.

A ética situacional é uma visão particular da ética moral que sustenta que a moralidade de um ato é determinada por seu contexto. A ética situacional afirma que se há um certo e errado, ele é simplesmente determinado pelo resultado desejado da situação. A ética situacional é diferente do relativismo moral porque o relativismo moral afirma que não há certo ou errado. A ética situacional desenvolve um código de ética no qual atender às necessidades de cada situação determina o que é certo ou errado.

De capa a capa, a Bíblia é verdadeira, consistente e aplicável. A Bíblia ensina, admoesta ou até mesmo inclina-se a defender a ética situacional? A resposta curta é "não". Vamos considerar três princípios: 1) Deus é o criador e sustentador. 2) Toda a Palavra de Deus é verdadeira, até mesmo as partes de que não gostamos ou entendemos. 3) O certo e o errado são determinados e definidos por quem Deus é.

1.    Deus é o criador e sustentador

A ética situacional afirma que a moralidade é determinada pelo ambiente ou circunstância. A Palavra de Deus diz que a moralidade é determinada pela soberania de Deus, pois Ele é o criador e sustentador. Isso não é uma questão de semântica, mas de fato. Ainda que Deus desse um comando para um grupo de pessoas e o proibisse a um outro grupo, a determinação de que é certo ou errado, ético ou não, não se baseia na situação, mas sim no comando de Deus. Deus tem a autoridade para governar o certo e o errado. Romanos 3:4 diz: "Antes seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso."

2.    Toda a Palavra de Deus é verdadeira

Sugerir que a Bíblia defende a ética situacional seria implicar que ela contém erros. Isso não é possível. Não é possível por causa do número 1, Deus é o criador e sustentador.

3.    O certo e o errado são definidos por quem Deus é

O amor é a natureza de Deus. Ele define o que o amor é, não pelo que faz, mas simplesmente por quem é. A Bíblia diz: "Deus é amor" (1 João 4:16). O amor é desinteressado e atencioso com os outros, nunca procura a sua própria glória ou prazer (1 Coríntios 13). Portanto, em virtude de quem é Deus, a Bíblia, sendo dada por Deus e sendo completamente verdadeira, não pode conter um sistema de ética que desafiaria a natureza de Deus. A ética situacional encontra o certo e o errado para agradar a maioria ou uma única pessoa por egoísmo. O amor é o oposto. O amor procura incentivar e encorajar outras pessoas.

Dois problemas fundamentais com a ética situacional são a realidade de uma verdade absoluta e o conceito de amor real. A Bíblia ensina a verdade absoluta, a qual ensina que o certo e o errado são pré-determinados por um Deus Santo. E o amor – a definição de Deus do amor verdadeiro, honesto e real – não deixa espaço para motivações egoístas ou impuras. Mesmo se alguém dissesse que a situação exige abnegação, ainda é uma determinação humana e não divina. As razões de um ser humano para determinar o que é melhor sem o amor verdadeiro são fundacionalmente[3] egoístas.

Então o que acontece quando as coisas parecem certas, mas Deus diz que são erradas? Temos de confiar na soberania de Deus e confiar "que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28). Se nós pertencemos a Cristo, Deus nos deu o Seu Espírito (João 16), e por meio dEle temos uma compreensão do que é certo e errado. Através dEle, somos convencidos, incentivados e orientados para a justiça. Um desejo sincero de conhecer a verdade de um assunto, juntamente com a busca de Deus, será recompensado com a resposta de Deus. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos" (Mateus 5:6).     

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Vejamos mais estes textos [4] / comentários:

 “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.  Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.14-16).

Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.21)

E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (1Jo 2.20,27).

Comentando sobre 1Co 2.14 (Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente), o Dr. C. I. Scofield [5] destaca: “Paulo divide os homens em três classes:

1) psuchikos, significando dos sentidos, sensuais (Tg 3.15; Jd 19), naturais, isto é, o homem adâmico, não renovado pelo novo nascimento (Jo 3.3,5);

2) pneumatikos, significando espirituais, isto é, o homem renovado cheio do Espírito e andando no Espírito em comunhão com Deus (Ef 5.18-20); e

3) sarkikos, significando carnais, isto é, o homem renovado que, andando ‘segundo a carne’, permanece uma criancinha em Cristo (I Co 3.1-4). O homem natural pode ser culto, educado, eloquente, fascinante, mas o conteúdo espiritual das Escrituras lhe é absolutamente oculto; e o cristão carnal só consegue entender as verdades mais simples, ‘o leite’ (1 Co 3.2)”.

São os espirituais que conseguem "julgar todas as coisas" em uma situação complexa que requer discernimento fora do comum e que pode gerar consequências dependendo das escolhas a serem tomadas. Ao decidirem fazer a escolha correta segundo os princípios divinos podem pagar um preço por esta escolha. Essa capacidade de escolha da verdade permite aos seguidores espirituais avaliar a veracidade de ensinamentos e distinguir entre o certo e o errado, mas não se opõe ao mandamento de não julgar de forma hipócrita ou condenatória, especialmente em questões pessoais. E, por falar em escolhas arriscadas, veja o exemplo da aparente “mentira” de Raabe no vídeo a seguir, de Leandro Quadros:


Notas / Referências bibliográficas:

  •  [1] Imagem meramente ilustrativa feita através do Chat Gpt, em 17/10/2025.
  •  [3] Fundacionalismo: “... uma vertente da epistemologia que afirma que só podemos ter certeza de algo se, em algum ponto da linha, pudermos rastreá-lo até uma verdade indubitável e irrefutável. Essa verdade servirá como base a partir da qual todos os nossos outros conhecimentos e crenças poderão ser construídos e justificados...” (In: Expresso existencial). Veja também: Coerentismo e fundacionalismo.  
  •  [5] SCOFIELD, C. I. Nota sobre 1Co 2.14. In: Bíblia Sagrada (ARA). São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil: 1987. 

14 de julho de 2025

Dogma e dogmatismo: breve análise teológica

Por: Alcides Amorim

Tribunal de dogmas [1]

Já falamos um pouco sobre ética bíblica; ética x moral e ceticismo, que entendemos ser assuntos interrelacionados. Mais um tema correlacionado a estes é o conceito de dogmatismo.

O dogmatismo, ao contrário do ceticismo, refere-se à crença em verdades absolutas e inquestionáveis, geralmente baseadas em princípios estabelecidos ou em autoridades reconhecidas. Implica na adoção de uma postura de firme convicção, sem espaço para dúvidas ou críticas. Sua fundamentação tem conexão principalmente com os contextos religioso e filosófico/jurídico/cultural. Por isso, quero destacar este assunto em duas partes: neste artigo, destacando o conceito teológico-cristão, ou seja, o dogmatismo e sua relação com a ética e a fé, e num outro momento, o seu conceito filosófico em conexão com a ética: ética dogmática.

1.    Dogma

No Novo Testamento, a palavra dogma (do grego, δόγμα) refere-se a um decreto, ordenança, decisão ou mandamento sagrado (divino) e/ou de autoridades civis. Por exemplo, em Lucas 2.1, o termo “dogma” é usado como “decreto” de César Augusto para que todos fossem recenseados; em Atos 16.4, "dogma" é usado para descrever as decisões tomadas pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém para que os gentios não precisassem se circuncidar, mas apenas se abstivessem de idolatria, fornicação e sangue; em Efésios 2.15, Paulo fala sobre a "lei dos mandamentos expressos em ordenanças" (dogmas em algumas traduções), que Jesus removeu ao abolir a lei cerimonial judaica; em Colossenses 2.14, “dogma” é utilizada como “ordenanças” ou dívidas que foram pagas por Cristo na cruz e assim por diante.

No breve resumo teológico sobre dogma, Donald K. McKIM [2] destaca que na filosofia grega posterior, o uso legal do termo “dogma” era abrangido como proposições doutrinárias que expressavam o ponto de vista oficial de um mestre ou escola filosófica em particular.

A teologia cristã primitiva finalmente veio a usar o termo da mesma maneira. Basílio Magno, em meados do século IV, distinguiu entre o kërygma [3] e os dogmas cristãos no sentido das proposições de fé. A primeira aprovação que a igreja deu a declarações "dogmáticas" ocorreu em 325, no Concilio de Nicéia, onde a consubstancialidade do Filho com o Pai foi declarada como uma confissão de fé.

Na Idade Média, a Igreja Católica Romana desenvolveu o conceito do depositum fidel ("depósito de fé") [4], segundo o qual considerava-se que à igreja era confiado um certo depósito de verdades cujas ramificações podiam ser licitamente desenvolvidas pela igreja. Finalmente, através do Concilio de Trento (1545-63) e o Primeiro Concilio Vaticano (1870), os pronunciamentos dogmáticos da Igreja Católica passaram a ser considerados infalíveis. Assim, o dogma era visto no catolicismo romano, até mesmo antes da Reforma, como uma verdade cujo conteúdo objetivo é revelado por Deus e definido pela igreja. Isto é feito mediante um concilio eclesiástico, por um papa ou através da propagação geral do dogma nos ensinos da igreja.

Desde a Reforma, o protestantismo tem rejeitado a associação entre o dogma e os pronunciamentos eclesiásticos infalíveis. Segundo o pensamento da Reforma, todos os dogmas devem ser testados em comparação com a revelação de Deus nas Sagradas Escrituras. Conforme observou Karl Barth: "A Palavra de Deus está tão acima do dogma quanto os céus estão acima da terra" (In: Dogmática Eclesiástica...). Além disso, para os reformadores, a fé é confiança pessoal em Deus e relacionamento com Ele mediante Jesus Cristo, não basicamente a anuência àquilo que a igreja ordena que seja crido. "Dogma" veio a significar uma expressão de verdade doutrinária que obteve o "status" eclesiástico, porém sem reivindicações à infalibilidade.

A obra escrita em 1845 por John Henry Newman, An Essay on the Development of Christian Doctrine (Um Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Crista), foi uma contribuição seminal para o surgimento de questões a respeito das tradições, dos desenvolvimentos e das ligações das ideias cristãs. Os estudiosos alemães tais como Ferdinand Christian Baur e Adolf Harnack submeteram os desenvolvimentos históricos dos dogmas e doutrinas cristãos ao escrutínio crítico [5]. De pontos de vista diferentes, a mesma coisa foi feita por três teólogos escoceses: William Cunningham, Robert Raimy e James Orr.

Karl Barth reinterpretou o antigo uso católico-romano no protestantismo moderno ao definir o dogma como "a concordância entre a proclamação feita pela igreja e a revelação atestada nas Sagradas Escrituras" (Dogmática Eclesiástica...). Os dogmas são as formas nas quais o dogma aparece. O dogma torna-se, em última análise, um "conceito escatológico", visto que nenhuma formulação humana chegará a concordar completamente com a Palavra de Deus antes do reino final de Deus, segundo diz Barth. A pesquisa dogmática, no entanto, pode estar livre para trabalhar com dogmas individuais e apreciá-los como tentativas de se expressar a verdade da revelação.

2.    Dogmática e/ou Teologia Sistemática

A dogmática é o ramo da teologia que procura expressar as crenças e doutrinas (dogmas) da fé cristã – demonstrar "todo o desígnio de Deus" (At 20.27) de um modo organizado ou sistemático. Visto que nenhum teólogo dogmático trata somente dos "dogmas" da igreja, esta disciplina atualmente é mais conhecida por "teologia sistemática" ou simplesmente "teologia".

Os teólogos dogmáticos ou sistemáticos geralmente ocupam-se das fontes bíblicas e do apoio às doutrinas da fé, da história do desenvolvimento de tais doutrinas, dos dogmas contrastantes de outras comunidades da fé e das opiniões de outros teólogos que tratam de tais doutrinas. Pelo fato de esta disciplina aplicar-se à totalidade, e não somente a doutrinas específicas, a teologia sistemática sempre reflete uma comunidade específica da fé católico-romana, a ortodoxia oriental, a luterana, a reformada, a liberal, a neo-ortodoxa, a existencialista, etc.

Bem, num sentido mais didático, a teologia dogmática [6] recebe esse nome da palavra grega e latina dogma, a qual, ao se referir à teologia, simplesmente significa "uma doutrina ou corpo de doutrinas formalmente e autoritariamente afirmada". Basicamente, a teologia dogmática refere-se à teologia oficial ou "dogmática" como reconhecida por uma certa igreja, como a Igreja Católica Romana, Igreja Reformada Holandesa, etc.

Enquanto se pensa que o termo teologia dogmática tenha aparecido pela primeira vez em 1659 no título de um livro de L. Reinhardt, o termo se tornou mais amplamente utilizado após a Reforma e foi usado para designar os artigos de fé que a igreja tinha formulado oficialmente. Um bom exemplo de teologia dogmática encontra-se nas declarações ou dogmas doutrinários que foram formulados pelos primeiros conselhos da igreja que procuraram resolver problemas teológicos e tomar uma posição contra o ensino herético. Os credos ou dogmas que vieram desses conselhos foram considerados autoritários e vinculativos para todos os cristãos porque a igreja os afirmara oficialmente. Um dos propósitos da teologia dogmática é permitir que uma igreja formule e comunique a doutrina que é considerada essencial para o Cristianismo e que, se negada, constituiria heresia.

Mas na resposta à pergunta O que é a teologia dogmática?, o Ministério Got Questions difere teologia dogmática de teologia sistemática. A teologia dogmática às vezes é confundida com a teologia sistemática, e os dois termos são às vezes utilizados de forma intercambiável. No entanto, existem diferenças sutis, mas importantes, entre os dois. Para entender a diferença entre a teologia sistemática e teologia dogmática, é importante notar que o termo "dogma" enfatiza não apenas as afirmações da Escritura, mas também a afirmação eclesiástica e autoritária dessas declarações. A diferença fundamental entre a teologia sistemática e a teologia dogmática é que a teologia sistemática não requer sanção ou aprovação oficial por parte de uma igreja ou de um corpo eclesiástico, enquanto que a teologia dogmática está diretamente ligada a um determinado corpo ou denominação da igreja. A teologia dogmática normalmente discute as mesmas doutrinas e muitas vezes usa o mesmo esboço e estrutura que a teologia sistemática, mas faz isso de uma posição teológica particular, afiliada a uma denominação ou igreja específica.

Também podemos diferenciar dogma de doutrina e, nesse caso, fazer uma correlação – sob o enfoque cristão protestante – entre teologia, dogma e doutrina:

·  Teologia sistemática, esforço organizado de compreender, de forma lógica e coerente, as verdades reveladas nas Escrituras sobre Deus, o ser humano, a salvação, a igreja e os eventos futuros. Ela busca reunir todos os ensinamentos bíblicos em um sistema unificado.

·   Dogmas: verdades centrais e inegociáveis da fé cristã, como a Trindade, a divindade de Cristo e a ressurreição. São verdades inquestionáveis inseridas nas doutrinas oficialmente reconhecidas pelas igrejas como essenciais para a salvação e identidade cristã.

·   Doutrinas: ensinamentos derivados das Escrituras que instruem a vida e a prática da fé, podendo variar entre tradições denominacionais. No caso específico dos protestantes, no entanto, as Escrituras têm a autoridade final sobre a definição dogmática de um ponto ou item de um conjunto de doutrinas. Toda doutrina pode ser parte da teologia sistemática, mas nem toda doutrina é dogma. Assim, a teologia sistemática organiza as doutrinas e reconhece os dogmas, formando uma base sólida para a fé e a vida cristã.

Concluindo, por aqui, como foi nossa intenção neste post, tentamos analisar o dogma como uma verdade estabelecida como fundamental e indiscutível dentro de um sistema religioso, especialmente no cristianismo, e dogmatismo, como a atitude de aceitar ou impor ideias como absolutas e inquestionáveis, sem admitir questionamento ou debate. Enquanto o dogma pode ter base revelada e reconhecida por uma tradição, o dogmatismo é mais uma postura rígida e fechada ao diálogo, que pode ocorrer tanto na religião quanto em outras áreas, como a política ou a filosofia. Resumindo: dogma é o conteúdo (o que se crê); dogmatismo é a postura (como se crê e se defende).

Veja também:

·        Ética bíblica.
·        Ética x moral.
·        O depósito da fé.


Notas:

  • [1] Tribunal de dogmas: Imagem ilustrativa feita por Inteligência do Artificial do chatgpt, em 12/07/2025.
  • [2] McKIM, Donald K. Dogma (texto adaptado). R.B.
  • [3] Dogma x kerygma: “Em termos simples, o kerygma é o anúncio inicial do Evangelho, a mensagem central de Jesus Cristo, enquanto dogma é uma verdade de fé definida pela Igreja como revelada por Deus e obrigatória para todos os fiéis. O kerygma é o ponto de partida, a proclamação da Boa Nova, enquanto o dogma é uma formulação clara e definitiva dessa fé“. Veja mais este resumo (Kerygma x Dogma), muito bem feito por I. A. do Google. Veja também: kerygma.
  • [5] Escrutínio crítico: “... refere-se à análise detalhada e avaliativa de algo, com o objetivo de identificar pontos fortes, fracos, erros ou inconsistências. Envolve uma investigação cuidadosa e questionadora, indo além de uma simples observação. Pode ser aplicado a diversos contextos, como textos, ideias, ações, políticas ou até mesmo pessoas...” (I.A., Google).


Referências Bibliográficas:

GOT QUESTIONS. O que é teologia dogmática? Disponível em: teologia dogmática. Acesso em: 11/07/2025.

KLOOSTER, Fred H. Dogmática. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. I. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 493 e 494.

MCKIM, Donald K. Dogma. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. I. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 490 e 491.

26 de maio de 2025

Ética Bíblica

Biblia Sagrada: a base judaico-cristã da ética

Estude a Bíblia para ser sábio; creia na mesma para ser salvo; siga os seus preceitos para ser santo” (Billy Graham).

Já destacamos brevemente aqui os conceitos/diferenças entre a ética e a moral. E continuando, queremos destacar abaixo o conceito de ética bíblica. Ou seja, a Ética teológica, que trata daquilo que pode ser aproveitado dos alegados entendimentos de uma determinada comunidade, no tocante a esta vida ou a do porvir.

A ética [1] acha seu lugar num dicionário teológico exatamente porque nem no pensamento judaico nem no pensamento cristão ela pode ser separada do seu contexto teológico, a não ser visando o propósito da concentração. Toda a teologia bíblica tem implicações morais nas quais consiste a ética bíblica.

1.    No Antigo Testamento

Ao reconhecer o AT como escritura cristã, a Igreja adotou alguns precedentes morais embaraçosos: a queima das bruxas, a taça envenenada para a prova moral, o castigo de famílias inteiras, a poligamia, o concubinato e muita violência e guerra. Mas também foi herdeira de grande dose de instrução moral, advertências, exemplos, alta inspiração e fé moral, que aumentou incomensuravelmente os recursos éticos do cristianismo.

A principal conquista foi, sem dúvida, o fundamento teocrático da ética como a vontade de Deus, santa, fiel e boa, uma ética que se baseava naquilo que Deus já fizera como Criador e Redentor do Seu povo. Assim, o Decálogo começa com "Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão"; ao passo que a aliança sem igual que ligava Israel ao seu Deus, não num vínculo natural (como se Deus fosse o ancestral mais remoto) mas num relacionamento moral, que se originou na escolha, promessa e libertação da parte de Deus, às quais Israel correspondeu com obediência e confiança gratas, conferiu uma qualidade sem paralelo de humildade e confiança ao pensamento ético judaico. Corretamente entendida, a obediência não procurava obter o favor divino, mas era inspirada por ele.

O próprio Decálogo (perpetuando ideais ainda mais antigos) é um documento ético notável, sendo que sua forma tradicional abrange um código duplo de deveres religiosos (Ex 20.3-12) e sociais (vv. 13-17) embora submeta as duas áreas (a adoração, a proibição dos ídolos, o juramento, o dia sagrado e a piedade filial, de um lado; e a santidade de vida, casamento, das posses, da verdade e do desejo, do outro lado) à autoridade divina direta. Inevitavelmente esta forma de mandamento deu seu tom à moralidade judaica, embora o mandamento final contra a cobiça entre num âmbito onde o legalismo nada possa fazer.

O desenvolvimento desta base ética no "Livro da Aliança" (Ex 20.22-23.19; veja 24.7) reflete um fundo histórico simples nômade e agrícola, e leva um senso de justiça e de responsabilidade comedida às condições primitivas; os delitos capitais são numerosos, a escravidão é aceita, mas a equidade e a piedade começam a afetar a vida social.

Deuteronômio enfatiza um espirito humanitário, uma liberalidade, compaixão e santidade interior ("Amarás o SENHOR teu Deus", 6.5) inteiramente de conformidade com o ensino dos profetas. Amós tornou a ética essencial ao relacionamento entre Israel e Deus, e sua moralidade era pura, autodisciplina, apaixonadamente defensora dos pobres e oprimidos, oposta à crueldade, ao dolo, ao luxo e ao egoísmo. Isaias e Miquéias exigiam uma religião de conformidade com o caráter do Santo de Israel. Jeremias, Ezequiel e Isaias 40-66 aplicam as lições amargas do exilio na Babilônia de modos éticos inexoráveis, embora sempre dentro do contexto do propósito inabalável de Deus pelo Seu povo. O Deus de Israel é enfaticamente o Autor e Guardião da lei moral, exigindo acima de tudo que os homens pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com o seu Deus (Mq 6.8).

O ensino moral judaico posterior incluía (em Provérbios, Eclesiastes, Jó. Siraque) "sabedoria" ética valiosa, cujo alvo era simplificar o dever em reverência prática por Deus, o mais simples bom-senso naqueles que se sabem criaturas do Eterno: "O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria" (SI 111.10). O ideal da sabedoria é expresso de modo eloquente em Jó 31.

O exilio na Babilônia e o domínio estrangeiro que o seguiu tanto ameaçaram a autoidentidade judaica que uma ênfase tremenda foi dada à lei escrita e oral, que entesourava tudo quanto era distintivamente judaico. A piedade, o nacionalismo e o orgulho combinaram-se para produzir um legalismo exagerado, um fardo para a maioria e uma fonte de cegueira moral, casuísmo hipócrita e farisaísmo para muitos. Daí surgiu a oposição "religiosa" a Jesus, para quem o legalismo não tinha nenhuma autoridade divina, e à ênfase que o cristianismo dava à liberdade.

 

2.    No Novo Testamento

Uma longa tradição ética foi resumida, portanto, quando João Batista apareceu, exigindo pureza, retidão, honestidade e solicitude social (Lc 3.10-14). Mas especialmente iluminadora é a discriminação de Jesus, ao retomar do judaísmo seu monoteísmo ético, sua consciência social e o relacionamento entre a religião e a moralidade, enquanto rejeitava a tendência ao farisaísmo, o legalismo duro e externo, o nacionalismo, o cultivo de mérito e a não diferenciação entre o ritual e a moralidade. Por outro lado, Jesus levou a exigência da retidão ainda mais longe do que a Lei tinha feito, penetrando na mentalidade e no motivo por trás do comportamento (Mt 5.17-48), voltando aos propósitos originais de Deus (Mc 2.27; Mt 19.3-9) ou ao mandamento suficiente e sobrepujante do amor a Deus e ao próximo (Mt 22.35-40). Neste resumo de todo o dever, religioso e social, em termo do amor, acha-se a contribuição mais característica de Jesus ao pensamento ético, e Seu exemplo do significado do amor e Sua morte por amor aos homens perfazem Sua contribuição mais poderosa à realização ética.

A religião e a ética encontram-se de novo no evangelho do reino de Deus, que Cristo pregou, Sua versão da esperança messiânica e da visão dos profetas de Deus como Senhor da História; a descrição que Cristo fez da vida no reino, com suas oportunidades e obrigações, dá aplicação à Sua ideia radical e realista de justiça e de amor à vida da família, mordomia cristã das riquezas, responsabilidade diante do estado, os males sociais e o fato da enfermidade e crueldade do pecado. Em todos os âmbitos, a obediência à vontade de Deus constitui-se no reino e assegura as suas bênçãos, embora possa envolver a perda da própria vida, que terá lucro eterno.

Mas o Rei também é Pai, e os cidadãos do reino são Seus filhos, que compartilham de uma condição e de uma vida que refletem o caráter de Deus, numa comunhão e rum espírito de perdão, em liberdade e confiança, que tornam alegre a obediência. Por trás de tudo, está a lealdade pessoal dos homens ao próprio Jesus como Salvador e Senhor, naquele amor (Jo 14.15; 21.15-17), o desejo de ser como Cristo torna-se um incentivo moral de imenso poder emocional. Semelhante amor deleita-se em guardar os mandamentos de Cristo.

Há bons motivos para se crer que a igreja apostólica oferecia treinamento moral considerável aos convertidos, abrangendo a abstinência dos pecados antigos e dos costumes pagãos, a firmeza sob a perseguição, o incentivo à comunhão e a submissão aos líderes. Este treinamento provavelmente incluía listas de deveres de maridos, esposas, pais, filhos, servos, escravos, vizinhos (veja Colossenses e 1 Pedro). O desenvolvimento mais antigo do ensinamento ético cristão provavelmente seja melhor lustrado em 1 Pedro, onde a ênfase recai sobre a santidade e a submissão às autoridades civis (2.13-17), aos senhores de escravos (2.18-25), aos maridos (3.1-7) e dentro da comunhão (3.8-9, 4.8-11:5.5-6). Este tema inesperado não somente descreve o significado da vida sob o domínio divino; ele segue o conceito bíblico da essência do pecado como vontade própria.

Ilustrações da vida cristã moral mais antiga são melhor vistas na galeria impressionante de Lucas (em Atos) de pessoas essencialmente boas, felizes, socialmente úteis, corajosas e transformadas, que corresponde estreitamente ao seu quadro de Jesus em seu evangelho. Tiago, também, provavelmente apresenta um quadro primitivo da tomada de posição moral da igreja, numa série de meditações sobre as grandes palavras de Jesus segundo o modo de literatura de sabedoria judaica.

A preocupação ética de Paulo era ir contra o legalismo que fracassara na sua própria vida e que ameaçava limitar a Igreja a uma seita judaica; ele assim fazia ao insistir na suficiência da fé para salvar judeus e gentios, igualmente, e na liberdade do cristão para seguir a orientação do Espírito (Gálatas). Ao transmitir aos convertidos a tradição comum do ensinamento ético (Rm 6.17; 2 Ts 2.15; 3.6), Paulo explicava especialmente o significado ético da fé e a natureza da vida no Espírito.

Enfrentando o desafio de quem dizia que, se a justificação é pela fé somente, o crente pode continuar impunemente no pecado, Paulo responde que a fé que salva envolve tão grande identificação pessoal com Cristo na morte ao pecado, ao eu, e ao mundo, e na ressurreição para uma vida nova de liberdade, consagração e triunfo, que continuar no pecado ao exercer semelhante fé é incoerente, desnecessário e impossível (Rm 6; Gl 2.20). Para Paulo, a fé que salva, santifica. Se algum crente achar que não acontece assim, ele está deixando de ser aquilo que em Cristo veio a ser – morto para o pecado, vivo para Deus.

O outro tema ético de Paulo argumenta que aquilo que a Lei nunca pode fazer, por causa da fraqueza da natureza humana, "a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus" realiza, de modo que a lei é cumprida em nós (Rm 8.1-4). Jeremias e Ezequiel já tinham ligado o poder invisível de Deus na criação e na história (Espírito) com o novo coração e a nova vontade necessários em Israel. Lucas, ao demonstrar que Jesus traz o Espírito e O outorga, e João, ao descrever o Espírito como o outro Eu de Jesus, revelam como, no pensamento cristão primitivo, a ideia inteira do Espírito divino estava estampada com a imagem de Jesus (At 16.7). Paulo declara que o efeito desta identificação é produzir a o caráter semelhante ao de Cristo – o fruto do Espírito – em cada crente bem disposto (Gl 5.22-23, Rm 5.5: 8.9-14). Esta transformação dos homens pela dinâmica interior do Espírito de Cristo é um dos temas éticos centrais do cristianismo.

Outro tema comum em todo o ensinamento ético do NT é a imitação de Cristo. Os evangelhos sinóticos apresentam o tema como simplesmente seguir a Jesus. João expõe o ideal de Christus Exemplar, como amar (13.34; 15.12), obedecer (9.4, 15:10) ficar firme (15.20) e servir humildemente (13.14-15), conforme Jesus fez por nós. 1 João a liga com a esperança cristã (3.2). Pedro associa a imitação especialmente com a Cruz (1 Pe 2.21-25; 3.17-18; 4.1,13). Paulo faz dela o alvo da adoração (2) Co 3.18), do ministério (Ef 4.11-13), da exortação (1 Co 11.1) e da providência divina (Rm 8.28-29) definindo seu significado mais interno como ter "a mente de Cristo" (1 Co 2.16, Fp 2.5) “o Espirito de Deus" (1 Co 7.40).

Resumo.

Em contraste com os sistemas filosóficos, as marcas permanentes da ética bíblica são: seu fundamento no relacionamento com Deus; sua obrigação imposta e objetiva à obediência; eu apelo aquilo que há de mais profundo no homem, sua relevância social realista, e sua capacidade de adaptação e desenvolvimento contínuos

A formulação bíblica final do ideal como a semelhança a Cristo relaciona-se diretamente com o amor e a gratidão despertados pela experiência da redenção, está arraigada na História objetiva (como implicação ética óbvia da Encarnação): faz um forte apelo às melhores intuições morais do homem, exige um ministério semelhante ao de Cristo entre os necessitados deste mundo e o cumprimento do reino de Deus na terra e no decurso dos séculos cristãos suas muitas formas e interpretações têm comprovado sua adaptabilidade flexível às condições mutáveis. O mandamento bíblico antigo: "Sede santos, porque Eu sou santo", acha um claro reflexo na promessa bíblica mais recente: "Seremos como Ele".

Nota / Referência bibliográfica:

  • [1] WHITE, Reginald E. O. Ética Bíblica. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 87-90 (Texto copiado na íntegra e adaptado à nova regra ortográfica).