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5 de janeiro de 2026

Bispos e Papas (20): Cornélio

 
Bispo Cornélio [1]

O historiador Justo L. González cita em sua lista dos bispos de Roma em ordem cronológica:  Lino (?), Anacleto (?), Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleuterio (175-189), Vítor (189-199), Ceferino (199-217), Calixto (217-222), Urbano (222-230), Ponciano (230-235), Antero (235-236), Fabião (236-250), um total, até aqui [2], de dezenove bispos de Roma. O próximo que veremos abaixo é Cornélio (251-253). “Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela  Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado” (H. E., 6: XXXIX.

Como Eusébio destaca, Cornélio sucedeu o bispo Fabiano (ou Fabião) em um dos períodos mais turbulentos da história inicial da Igreja cristã. Seu episcopado, entre os anos ocorreu logo após a perseguição do imperador Décio, que deixou profundas feridas internas na comunidade cristã, especialmente quanto ao destino dos fiéis que haviam renegado a fé sob coerção. Veja este Edito de Trajano Décio Trajano Décio,  nome referendado pelo Senado:

“Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício” [3].

Alguns cristãos “... correram a obedecer ao edito imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios diante dos deuses. Outros, talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros, enfim, permaneceram firmes, e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis que seus verdugos pudessem impor...” [4]. Como afirma González, “... o propósito do imperador não era criar mártires, mas apóstatas...” (Idem, pág. 140). Os cristãos que, temendo a morte, cederam à pressão do rei, passaram a ser conhecidos como lapsi (os que “caíram”). “Mas agora, com a nova situação criada pelo edito de Décio, apareceu um grupo de pessoas que permaneciam firmes na fé, mas cuja firmeza não levava à coroa do martírio. A essas pessoas que haviam confessado sua fé em meio das torturas se lhes deu o título de ‘confessores’" (Idem, pág. 141).

Com o fim da perseguição, surgiu um grave dilema pastoral: seria possível readmitir os lapsi ou (lapsos) à comunhão da Igreja? Foi nesse cenário que Cornélio foi eleito bispo de Roma [5], após um longo período de vacância do episcopado, causado justamente pela perseguição.

A eleição de Cornélio não foi pacífica. Um presbítero romano chamado Novaciano, defensor de uma postura rigorista, opôs-se à sua nomeação e chegou a se proclamar bispo rival, tornando-se um dos primeiros antipapas da história.

Novaciano defendia que os lapsi jamais poderiam ser readmitidos à comunhão, mesmo após arrependimento. Cornélio, ao contrário, adotou uma posição pastoral e misericordiosa, sustentando que, após penitência sincera, os lapsi poderiam ser reconciliados com a Igreja.

Essa posição foi confirmada por um sínodo romano [6], que apoiou Cornélio e condenou o cisma novacianista. O bispo Cipriano de Cartago foi um dos principais aliados de Cornélio, defendendo sua legitimidade e sua teologia pastoral.

Embora Cornélio não tenha deixado uma obra teológica sistemática, seu pensamento é conhecido por meio de cartas [7] preservadas, sobretudo nas obras de Eusébio de Cesareia e na correspondência com Cipriano. Seus principais eixos pastorais foram:

·         a unidade da Igreja,

·         a autoridade legítima do episcopado,

·         a misericórdia aliada à disciplina, por meio da penitência,

·         a rejeição do rigorismo extremo que negava o perdão eclesial.

Cornélio compreendia a Igreja como uma comunidade de pecadores em processo de conversão, não como uma assembleia de perfeitos. Essa visão teve influência duradoura na prática penitencial cristã.

Durante a perseguição do imperador Treboniano Galo, sucessor de Décio, Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde morreu em 253. Embora não haja unanimidade histórica quanto às circunstâncias exatas de sua morte, a tradição cristã o venerou como mártir, pois sofreu o exílio e a morte em razão da fé, “... sendo sentenciado ao martírio por ordem daquele imperador, por não aceitar prestar culto aos deuses pagãos...” (Site UCDB.

E quanto ao seu legado histórico e teológico, pode ser destacado:

-  a consolidação da autoridade do bispo de Roma em tempos de crise;

 -  ajuda no estabelecimento de uma teologia do perdão e da penitência que moldaria a prática sacramental posterior;

-  sua vitória sobre o cisma novacianista preservou a unidade e a catolicidade da Igreja.

No exílio, “... o papa [ou bispo] Cornélio passou os últimos dias da sua vida. Onde encontrava um pouco de alegria era nas cartas que recebia do bispo Cipriano, seu admirador e amigo de fé, muito preocupado em mandar-lhe algumas palavras de consolo...” (Idem).


Notas / Referências bibliográficas:

  • [2] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995 (Reimpressão), pág. 4 a 7.
  • [5] Texto resumido com base nas fontes:
a)  https://chatgpt.com/c/694ef888-4b0c-832c-8680-d6afb26f3c70. Acesso em 26/12/2025. 
b)  https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/09/16/ss--cornelio--papa-e-cipriano--bispo--martires.html. Acesso em 26/12/2025. 
c)  https://site.ucdb.br/santos-do-dia/sao-cornelio/278/. Acesso em 26/12/2025.
d)  GONZÁLEZ (O.C., Nota 4). 
e)  Eusébio. História Eclesiástica... (H.E.).
  • [6] “Por este motivo reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número ainda maior de presbíteros e diáconos, enquanto que nas demais províncias os pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer. Todos tomaram uma decisão: que Novato [Novaciano], junto com os que se haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam considerados como alheios à Igreja. Por outro lado, os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados e cuidados com os remédios da penitência...” (H. E., 6:XLIII).
  • [7] Junto com essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda outra sobre os atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para quem leia este livro saiba sobre ele” (Idem).