O historiador Justo L. González cita em sua lista dos
bispos de Roma em ordem cronológica: Lino (?), Anacleto (?), Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleuterio
(175-189), Vítor
(189-199), Ceferino
(199-217), Calixto
(217-222), Urbano
(222-230), Ponciano
(230-235), Antero
(235-236), Fabião
(236-250), um total, até aqui [2],
de dezenove bispos de Roma. O próximo que veremos abaixo é Cornélio (251-253).
“Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que
por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela Fabiano
consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado” (H. E., 6:
XXXIX.
Como Eusébio destaca, Cornélio sucedeu o bispo Fabiano (ou
Fabião) em um dos períodos mais turbulentos da história inicial da Igreja
cristã. Seu episcopado, entre os anos ocorreu logo após a perseguição do
imperador Décio, que deixou profundas feridas internas na comunidade
cristã, especialmente quanto ao destino dos fiéis que haviam renegado a fé sob
coerção. Veja este Edito de Trajano Décio Trajano
Décio, nome
referendado pelo Senado:
“Todos os habitantes do
Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua
comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o
sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles
obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante
aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos
nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício” [3].
Alguns cristãos “... correram a obedecer ao edito
imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum
tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios
diante dos deuses. Outros, talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do
poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros,
enfim, permaneceram firmes, e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis
que seus verdugos pudessem impor...” [4].
Como afirma González, “... o propósito do imperador não era criar mártires,
mas apóstatas...” (Idem, pág. 140). Os cristãos que, temendo a morte,
cederam à pressão do rei, passaram a ser conhecidos como lapsi (os que
“caíram”). “Mas agora, com a nova situação criada pelo edito de Décio,
apareceu um grupo de pessoas que permaneciam firmes na fé, mas cuja firmeza não
levava à coroa do martírio. A essas pessoas que haviam confessado sua fé em
meio das torturas se lhes deu o título de ‘confessores’" (Idem, pág.
141).
Com o fim da perseguição, surgiu um grave dilema pastoral:
seria possível readmitir os lapsi ou (lapsos) à comunhão da Igreja? Foi
nesse cenário que Cornélio foi eleito bispo de Roma [5],
após um longo período de vacância do episcopado, causado justamente pela
perseguição.
A eleição de Cornélio não foi pacífica. Um presbítero
romano chamado Novaciano, defensor de uma postura rigorista, opôs-se à
sua nomeação e chegou a se proclamar bispo rival, tornando-se um dos primeiros
antipapas da história.
Novaciano defendia que os lapsi jamais poderiam ser
readmitidos à comunhão, mesmo após arrependimento. Cornélio, ao contrário,
adotou uma posição pastoral e misericordiosa, sustentando que,
após penitência sincera, os lapsi poderiam ser reconciliados com a Igreja.
Essa posição foi confirmada por um sínodo romano [6],
que apoiou Cornélio e condenou o cisma novacianista. O bispo Cipriano de
Cartago foi um dos principais aliados de Cornélio, defendendo sua
legitimidade e sua teologia pastoral.
Embora Cornélio não tenha deixado uma obra teológica
sistemática, seu pensamento é conhecido por meio de cartas [7] preservadas,
sobretudo nas obras de Eusébio de Cesareia e na
correspondência com Cipriano. Seus principais eixos pastorais foram:
·
a unidade da Igreja,
·
a autoridade legítima do episcopado,
·
a misericórdia aliada à disciplina, por meio da
penitência,
·
a rejeição do rigorismo extremo que negava o
perdão eclesial.
Cornélio compreendia a Igreja como uma comunidade de
pecadores em processo de conversão, não como uma assembleia de perfeitos. Essa
visão teve influência duradoura na prática penitencial cristã.
Durante a perseguição do imperador Treboniano Galo,
sucessor de Décio, Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual
Civitavecchia), onde morreu em 253. Embora não haja unanimidade histórica
quanto às circunstâncias exatas de sua morte, a tradição cristã o venerou como mártir,
pois sofreu o exílio e a morte em razão da fé, “... sendo sentenciado ao
martírio por ordem daquele imperador, por não aceitar prestar culto aos deuses
pagãos...” (Site
UCDB.
E quanto ao seu legado histórico e teológico, pode ser
destacado:
- a consolidação da autoridade do bispo de Roma
em tempos de crise;
- ajuda no estabelecimento de uma teologia do perdão e da penitência que moldaria a prática sacramental posterior;
- sua vitória sobre o cisma novacianista preservou a unidade e a catolicidade da Igreja.
No exílio, “... o papa [ou bispo] Cornélio passou os últimos dias da sua vida. Onde encontrava um pouco de alegria era nas cartas que recebia do bispo Cipriano, seu admirador e amigo de fé, muito preocupado em mandar-lhe algumas palavras de consolo...” (Idem).
Notas / Referências bibliográficas:
- [1] Bispo ou Papa Cornélio. Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa, reproduzida pelo chatgpt e extraída de: https://www.vam.ac.uk/blog/wp-content/uploads/2014/09/Corn-head.jpg, em: 26/12/2025.
- [2] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995 (Reimpressão), pág. 4 a 7.
- [3] ANDRÉ, Eduardo. Trajano Décio e a Batalha de Abritus. https://historiasderoma.com/category/trajano-decio/ Acesso em: 26/12/2025.
- [4] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 140. Veja mais em: <https://drive.google.com/file/d/11ecYpsTMWN0wCDNpJXLKc_9noBSR9_DW/view>.
- [5] Texto resumido com base nas fontes:
a) https://chatgpt.com/c/694ef888-4b0c-832c-8680-d6afb26f3c70. Acesso em 26/12/2025.
b) https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/09/16/ss--cornelio--papa-e-cipriano--bispo--martires.html. Acesso em 26/12/2025.
c) https://site.ucdb.br/santos-do-dia/sao-cornelio/278/. Acesso em 26/12/2025.
d) GONZÁLEZ (O.C., Nota 4).
e) Eusébio. História Eclesiástica... (H.E.).
- [6] “Por este motivo reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número ainda maior de presbíteros e diáconos, enquanto que nas demais províncias os pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer. Todos tomaram uma decisão: que Novato [Novaciano], junto com os que se haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam considerados como alheios à Igreja. Por outro lado, os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados e cuidados com os remédios da penitência...” (H. E., 6:XLIII).
- [7] “Junto com essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda outra sobre os atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para quem leia este livro saiba sobre ele” (Idem).