Por: Richard V. Pierard [1]
Religião Civil: imagem ilustrativa [2]
Também chamada religião cívica, pública ou
política, a religião civil refere-se à aceitação generalizada por um povo de um
conjunto de traços político-religiosos ligados à história e ao destino da sua
nação. Serve para relacionar a sua sociedade com o âmbito do significado
último, possibilita a auto interpretação da sociedade e funciona como o
simbolismo integrante da nação. É a "religião operante" de uma
sociedade (Will Herberg), o sistema de rituais, símbolos, valores, normas e
lealdades que atuam na vida contínua da comunidade e que lhe fornecem um senso
abrangente de união que transcende todos os conflitos e diferenças internos.
Uma religião civil é característica por referir-se ao poder dentro do Estado,
contudo transcende aquele poder ao focalizar-se nas condições últimas.
Teoricamente, fornece tanto a justificativa para o poder como uma base para
criticar aqueles que o exercem. A fé "civil" deve, em certo sentido,
ser independente da igreja como tal; de outra forma, será uma mera legitimação
do Estado pela igreja. Deve ser também genuinamente uma "religião";
caso contrário, será apenas um nacionalismo secular (Phillip Hammond). Requer
uma "teologia civil", porque esta oferece à sociedade um significado
e um destino, interpreta a experiência histórica e fornece um senso de
dinamismo, unicidade e identidade (Maureen Henry). Reduzida aos seus
fundamentos, a religião civil significa que o estado utiliza um consenso de
sentimentos, conceitos e símbolos religiosos - direta ou indiretamente,
consciente ou inconscientemente – visando seus próprios propósitos políticos.
Os comentaristas consideram-na uma fé religiosa "geral" e a
contrastam com a fé "particular de grupos sectários ou denominacionais,
que conseguem a lealdade de apenas um segmento da população.
Embora as características comumente associadas
com a religião civil remontem até ao passado distante, à antiguidade clássica
quando cada polis grega tinha seus próprios deuses, dogma e culto,
Platão desenvolvesse as linhas gerais de uma teologia civil em A República,
e o imperador romano funcionasse tanto como o sacerdote principal na religião
do estado quanto como um objeto de adoração, o termo propriamente dito foi
cunhado por Jean Jacques Rousseau em O Contrato Social (1762). Ele
identificava a fé civil como algo que pudesse lidar com a diversidade religiosa
e, ao mesmo tempo, firmar a lealdade do povo à sociedade civil, de modo que a
paz social fosse conseguida e garantida depois de uma longa era de guerras
destruidoras provocadas pelas diferenças religiosas. Foi somente nas décadas de
1950 e 1960, no entanto, que a religião civil veio a ser um tópico importante
da discussão teológica. O catalisador que a impulsionou para o centro da
atenção erudita foi um estudo apresentado pelo sociólogo Robert N. Bellah em
1965, que asseverava com ousadia: "Poucas pessoas têm percebido que
realmente existe, lado a lado com as igrejas e bem claramente diferenciada
delas, uma religião civil esmerada e bem institucionalizada nos Estados Unidos".
O que se seguiu foi um debate caloroso quanto à natureza da fé pública, e até
mesmo quanto à sua validade como conceito.
O problema chave era a definição, que continua
como alvo de contenda e intensa confusão entre os estudiosos da religião civil.
Russell E. Richey e Donald G. Jones procuraram resolver a dificuldade esboçando
cinco significados gerais, essencialmente inter-relacionados entre si,
propostos por vários escritores, especialmente aqueles que tratam do fenômeno
norte-americano. São:
(1) a religião folclórica
– a religião comum que emerge do espírito do povo e da história da sociedade, e
que está em concorrência com a religião particularista;
(2) a religião universal transcendente
da nação – uma crença que a nação tem em comum, que condena os
costumes folclóricos do povo e da nação, e que corrige as tendências idólatras
em formas específicas do cristianismo e do judaísmo;
(3) o nacionalismo religioso
– a nação assume um caráter soberano, transcendente em si mesma, tornando-se
objeto de adoração e glorificação;
(4) a fé democrática
– os valores humanitários da igualdade, liberdade e justiça que existem sem
necessariamente depender de uma deidade transcendente ou de uma nação
espiritualizada que represente a religião civil na sua máxima qualidade;
(5) a piedade cívica
protestante – a fusão entre o protestantismo e o nacionalismo no
espírito característico norte-americano, que se reflete no moralismo,
individualismo, ativismo, pragmatismo e transformação do mundo em campo
missionário.
Uma alternativa oferecida por Martin E. Marty
propõe que há dois tipos de religiões cívicas: aquela que vê uma deidade
objetiva e transcendente como o ponto de referência para o processo social (a nação
sob a orientação de Deus) e aquela que ressalta a autotranscedência nacional.
Dentro destes tipos há duas abordagens – a "sacerdotal", que é
celebrativa, afirmativa e edifica a cultura, e a "profética", que é dialética,
mas tende a ser condenatória. Na primeira categoria, ele inclui Dwight Eisenhower
como sacerdote e Jonathan Edwards, Abraham Lincoln e Reinhold Niebuhr como
profetas. No grupo auto transcendente nacional coloca Robert Welch, Richard Nixon
e J. Paul Williams como sacerdotes, e Sidney Mead e Robert Bellah como profetas.
Argumentando numa direção totalmente diferente, John Murray Cuddihy sustentava
que a fé norte-americana nada mais é do que uma "civilidade
religiosa", um código complexo de ritos que instrui as pessoas a serem
religiosamente inofensivas, tolerantes e sensíveis para com as crenças de
outras pessoas. John F. Wilson sugeriu que as ambiguidades no debate da
religião civil têm sua origem nas "formas de análise misturadas de maneira
não-critica e na confusão de modelos por parte dos diferentes
intérpretes", e delineou quatro "construções" principais, sendo
que cada uma delas é baseada num conjunto distinto de premissas e de tradições
intelectuais. Os modelos são:
(1) social – enfatiza cada
coletividade ou entidade social como sagrada;
(2) cultural – orientado em direção
à análise do funcionamento de um conjunto específico de valores em termos da
interação entre os membros de uma determinada ordem da sociedade, ou seja: a
união e coerência simbólicas de uma sociedade;
(3) político – examina o papel do
comportamento e crenças religiosos dentro de uma sociedade política;
(4) teológico – coloca o conteúdo da
religião pública em uma estrutura abrangente de significado que providencia
normas para a ordem política, para a cultura geral e para a sociedade como um
todo.
Embora seja óbvio que a religião civil seja um
conceito extremamente vago e controvertido, escritores têm detectado as suas
manifestações numa vasta gama de países e sociedades, especialmente na
Inglaterra, na África do Sul, no Japão e nos Estados Unidos. A maior parte da
atenção tem sido dedicada ao cenário norte-americano, onde apareceu uma
religião civil que permitiu que a nação fosse entendida de maneira
transcendente ao passo que, ao mesmo tempo, o pluralismo religioso florescia
nas raízes. Visto que havia uma necessidade de símbolos comuns para objetivos
nacionais que nenhuma igreja individual poderia fornecer, e visto que as
pessoas, sendo ou não membros de igrejas, sentiam-se livres para empregar
símbolos religiosos, as chamadas instituições seculares e seus funcionários
ocuparam um lugar de preeminência na religião civil. A ideologia que subjazia
essa aliança entre a política e a religião era:
(1) que Deus existe;
(2) que a Sua vontade pode
ser conhecida através de processos democráticos;
(3) que a América do Norte
tem sido o agente primário de Deus na história; e
(4) a nação tem sido a
principal fonte de identidade para os norte-americanos.
Eles [norte-americanos] eram considerados como
o povo escolhido de Deus que fez o êxodo para a terra prometida além do mar,
que veio a ser uma cidade num monte, uma luz para as nações, proclamando a
mensagem da democracia como a doutrina de salvação que levaria a humanidade à
liberdade, prosperidade e felicidade. Evidências da fé civil incluem figuras
bíblicas e referências ao Deus Onipotente e à providência que têm permeado os
discursos e os documentos públicos dos líderes norte-americanos desde os tempos
mais antigos, a bandeira da nação exibida com destaque nos santuários das
igrejas, a inclusão de "sob a orientação de Deus" no Compromisso da
Lealdade, e, acima de tudo, o lema nacional: "Confiamos em Deus".
Aqueles que apoiam a religião civil insistem
que as ideias de transcendência e aliança tornem a nação responsável, constituem-se
em cimento numa sociedade que de outra forma é heterogênea, desafiam o país a
concretizar seus ideais mais nobres e servem como instrumentos nas mãos de
líderes políticos sábios (tais como Lincoln e Martin Luther King, Jr.) para
inspirar as pessoas a galgarem níveis mais altos de realização. Seus críticos a condenam por idolatrar a
nação, por tentar os entusiastas patrióticos a distorcer e até mesmo falsificar
a história nacional, a fim de fazê-la encaixar-se nos preconceitos da religião
civil, de aviltar a dignidade de Deus reduzindo-O ao nível de uma deidade
tribal, fornece uma ferramenta para os líderes públicos angariarem apoio para
políticas e aventuras duvidosas, desconsiderando as necessidades das minorias
subjugadas dentro da comunidade nacional.
Muitas pessoas comentam que a fé evangélica, bíblica, é incompatível com
a religião civil, mas não há consenso quanto a isso na comunidade protestante
conservadora.
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Veja também:
·
Cultura
e religião: o homem e sua busca pelo transcendente.
·
Dogma
e dogmatismo: breve análise teológica.
Fonte:
PIERARD, Richard. V. Religião Civil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. III (Pág. 272 a 275 – Texto adaptado).
[1] R. V. PIERARD, Doutor da Universidade de Iowa. Professor de História na Universidade Estadual de Indiana, Terre Haute, Indiana, EUA… (E mais aqui).
[12] Imagem meramente
ilustrativa que representa a fusão simbólica entre crenças religiosas e
identidade nacional ou estatal, como bandeiras com cruzes, monumentos cívicos
com elementos sagrados, criada por I. A. do Perplexity.ai
com fonte identifica em: Shutterstock.com.
Acesso em: 13/02/2026.
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