Ainda menino, por volta dos dez anos de idade,
costumava ajudar meu pai na pequena lavoura de arroz, no estado do Paraná. Uma de minhas tarefas era
espantar os passarinhos que, em bandos, desciam sobre a terra recém-semeada
para comer os grãos antes que germinassem. Munido de um estilingue, algumas
pedras e muita disposição, passava boa parte do tempo correndo de um lado para
outro, gritando e batendo palmas para afastá-los. No meio da lavoura havia
também um espantalho. Vestia roupas velhas, usava um chapéu de palha e
permanecia imóvel, como um sentinela. Sua missão era a mesma que a minha. Mas
os passarinhos logo descobriram que ele era incapaz de lhes causar qualquer
ameaça. Em pouco tempo, já pousavam tranquilamente sobre seus braços,
indiferentes à sua presença. Minhas ações – enquanto eu estava presente na lavoura - que os espantavam.
Recentemente, deparei-me com uma simulação
digitalizada, uma imagem sintética – mas esta falava! – que recriava a figura
do ex-presidente Jair Bolsonaro sob uma estética peculiar já que o mesmo não
podia comparecer nem falar. Confesso que a imagem não me fez rir. Ela me fez
pensar.
A analogia com a infância saltou-me aos olhos,
mas por uma lógica estritamente inversa. Na política brasileira atual, o
"espantalho" não foi esvaziado pelo tempo; ele foi transformado em um
alvo fixo por aqueles que temem o que ele representa. Fora do embate eleitoral
direto, cassado e silenciado pelas engrenagens do sistema, Bolsonaro foi
forçado a ficar imóvel como aquele sentinela da lavoura de arroz. No entanto,
ao contrário do boneco de palha da minha infância, a simples simulação de sua
imagem ainda é capaz de causar calafrios e reações desmedidas em uma vasta ala
do cenário nacional. Quem são, afinal, estes "muitos" que ainda se
espantam com a mera projeção de sua figura?
Os primeiros a se assustarem são os ocupantes
dos altos gabinetes de Brasília e os burocratas institucionais. Para esse establishment,
a figura de Bolsonaro nunca foi apenas a de um indivíduo, mas o canalizador de
uma força popular conservadora que eles não conseguem compreender nem
controlar. Cada inquérito, cada barreira jurídica e cada tentativa de
apagamento político funcionam como pedradas de um estilingue institucional
contra o sentinela. O pânico deles reside no fato de que, mesmo amarrado ao
poste da inelegibilidade, a sombra do espantalho continua projetando a vontade
de milhões de brasileiros que recusam o pensamento único.
O espanto estende-se também à velha imprensa e
à elite cultural, que assistem, perplexas, à eficácia da imagem sobre o
argumento. Para esses setores, o debate deveria ser controlado por narrativas
acadêmicas e discursos herméticos. Mas a imagem sintética e popular de
Bolsonaro atua como um curto-circuito nesse monopólio. Ela dialoga diretamente
com o homem comum, com o produtor rural e com o trabalhador que enxergam
naquela silhueta uma defesa de seus valores mais profundos: a família, a
liberdade e a pátria. Os "donos do debate" se apavoram porque
percebem que nenhuma teoria sociológica sofisticada consegue anular a conexão
visceral gerada por um simples aceno ou por um meme que circula no WhatsApp ou YouTube.
Essa perseguição obsessiva ganha contornos de
engenharia social em tempos de inteligência artificial. Estamos debatendo
pessoas reais ou espantalhos cuidadosamente inflados para justificar o
arbítrio? O sistema constrói uma caricatura monstruosa do líder conservador
para, sob o pretexto de combater um "perigo iminente", avançar sobre
as liberdades individuais de qualquer cidadão comum. Cria-se o espantalho do
extremismo para que a sociedade aceite, anestesiada, a censura e o
silenciamento de vozes dissonantes.
O paradoxo da lavoura ou do espantalho contemporâneos
é revelador. Enquanto os poderosos gastam energia, tempo e recursos públicos
tentando desestabilizar e rasgar o manto daquele que decidiram isolar, a
semente da direita conservadora continua germinando no solo brasileiro. A
política atual fabrica o medo em torno de um homem silenciado porque sabe que,
no fundo, o verdadeiro perigo para o sistema não é o boneco ou a imagem - que fala
em seu nome – em si. O verdadeiro temor da elite é o despertar da imensa
plantação que aprendeu a olhar para o horizonte sem medo dos predadores da
liberdade.
E por falar em liberdade – mas nem tanto, diante do cerceamento que testemunhamos disfarçado de legalidade –, fico por aqui. A tentativa obsessiva de silenciar uma liderança e, por tabela, os milhões que nela se enxergam, apenas evidencia o quanto as nossas liberdades fundamentais estão sob constante ameaça daqueles que deveriam protegê-las. Recordo-me, neste momento, da advertência do filósofo e pensador político conservador Edmund Burke: "O povo nunca entrega suas liberdades, exceto sob alguma ilusão". No Brasil atual, a ilusão vendida é a de que, derrubando o espantalho, a colheita estará segura; a dura realidade, porém, é que o verdadeiro alvo das foices institucionais sempre foi a nossa própria capacidade de plantar e colher em liberdade.
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