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8 de dezembro de 2025

Ética Social: breve análise teológica

 Por: David W. Gill

Resumo em áudio:

...

Capa do livro de D. W. Gill [1]

Sobre o assunto ética, já publicamos neste blog: Ética e  moral, Ética bíblica, Ética situacional, além de assuntos correlatos. E continuamos, desta vez, destacando o conceito de Ética social[2], à luz da Bíblia.

Entende-se por ética social o estudo das questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição, conforme elas surgem num contexto social.

1.    Introdução e Definição

O governo público, a política, as ciências econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime: estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua com estes campos correlatos.

Conforme acontece no caso de outros subcampos da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente (proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.

É impossível manter uma distinção clara e precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos (raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal focaliza o agente moral individual.

Como no caso da ética pessoal, a ética social dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir (decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.

Somente nestes últimos cem anos é que a ética chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi sugerido acima.

2.    Análise e Discernimento

A primeira tarefa da ética social cristã é a análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação a estas.

a)    A Revelação e a Observação

A análise ética social cristã avança numa dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social, mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios humanos.

b)   A Criação

Boa parte da ética social teológica tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou "esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus. Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia, raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".

Quer a ética social esteja fundamentada basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã (cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).

c)    A Queda

Por mais importante que a doutrina da criação seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade (Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação, divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.

Perspectivas posteriores no pensamento hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus. Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo, transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).

d)   Lei e Justiça

A ética social cristã, e na verdade toda ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino, João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).

De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã. "Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas, em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem divina e de solicitude humana.

e)   O Reino de Deus

Até os éticos sociais das ordens-da-criação mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre. A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas, o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho, Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e tudo o mais.

É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de "plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17) e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo, do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.

f)     Escatologia

A ética social cristã é fundamentalmente escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap 18) e da nova Jerusalém (Ap 21).

É neste juízo final que os principados e potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria, pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações. Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.

 

3.    A Estratégia e a Implementação

A primeira tarefa da ética social cristã, portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da estratégia e da implementação.

a)   Perspectivas Tradicionais

A reflexão contemporânea sobre como a convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da implementação das preocupações éticas sociais cristãs.

O livro de Troeltsch, The Social Teaching of the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs, com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária, anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo" é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem conversionista.

As tipologias sociais científicas e históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e “leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.

a)   A Oração e a Evangelização

Do ponto de vista da ética social bíblica, as atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações, intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.

Faz, também, parte básica do ponto de vista cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os agentes morais individuais.

b)   Comunidade Alternativa

Longe de se tratar de um afastamento irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios pelos quais esta estratégia pode ser empregada.

Comunidades cristãs alternativas têm uma relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeiro lugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundo lugar, a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo) contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades alternativas na sociedade. Em terceiro lugar, a comunidade cristã fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quarto lugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quinto lugar, a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de discernimento, mas também de ação social.

c)    A Participação Institucional

Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a convicção ética. A política eleitoral, as reformas legislativas, as ativações comerciais e profissionais e a educação pública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas por dois critérios. Em primeiro lugar, nenhum cristão está, em caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundo lugar, nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.

d)   Meios e Fins

A ética social bíblico-cristã, tanto no discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e fins.

Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Capa de Word of God in the Ethics of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
  • [2] GILL, David W. Ética Social. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág.  97 a 102 (Texto adaptado).

17 de novembro de 2025

O que é solipsismo: breve análise bíblica

 Por Alcides Amorim

Áudio:

...

Solipsismo e Fé Cristã: dois caminhos do eu [1]

Já vimos em alguns posts a relação (pró ou contra) entre a posição de alguns filósofos e a da Bíblia. Marx, que defendeu que vivemos em um mundo onde tudo é material, não havendo o sobrenatural, abolindo as noções espirituais e o transcendente é um exemplo de posição que faz oposição a Deus, por ser contrário a qualquer crença e/ou objeto de fé. Enquanto outros como Descartes, Berkeley, Locke, Pascal e outros, são exemplos de pensadores racionais, mas que também tinham fé.

Onde entra o solipsismo neste contexto? No ponto em que, diferentemente dos filósofos que embora racionais eram também crentes num Ser sobrenatural (Deus) o solipsismo, embora seja fruto de reflexões filosóficas, entra em choque tanto com o racionalismo quanto com a fé cristão/bíblica.

Vimos que Descartes, ao duvidar de tudo no Discurso do Método e nas Meditações, chega à certeza do próprio pensamento — “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”). Descartes, aparentemente parte do solipsismo, através de sua dúvida radical “cogito – penso”, mas ele não para aí. Ele usa essa certeza como ponto de partida para reconstruir o conhecimento e provar: a existência de Deus e a existência do mundo externo, garantida pela veracidade divina, enquanto o solipsismo fica apenas com o “Cogito. O solipsista não aceita nenhuma prova da existência de Deus nem do mundo, ficando preso apenas ao próprio pensamento.

 Bem, Ministério Got Questions [2] afirma que o solipsismo é a crença de que é incerta a existência de qualquer coisa que não seja a própria mente. Isso pode envolver desde o ceticismo em relação aos sentidos e às experiências da pessoa até a crença de que qualquer coisa fora da mente é inexistente. Como acontece com qualquer visão filosófica abstrata, ela tem milhares de variedades e aplicações diferentes. Versões variadas de solipsismo têm sido aplicadas a visões de mundo cristãs, ateístas e panteístas, e a tudo o que está entre elas.

De um ponto de vista direto, a Bíblia não sugere nada parecido com o solipsismo. Diz-se que Deus criou (Gênesis 1:1; João 1:1-3), e diz-se que essa criação mudou (Gênesis 1:2-3) e mudará novamente (Apocalipse 21:1-2). Essa realidade é descrita como tendo partes diferentes e distintas (Gênesis 1:4-7). Da mesma forma, os seres humanos são chamados a responder às nossas experiências como um meio de realizar a vontade de Deus (Romanos 1:20; Mateus 11:21-23). Uma pessoa que defende pontos de vista solipsistas precisa interpretar essas ideias de uma forma altamente metafórica, o que não é natural para o texto. Essa visão da realidade ou das Escrituras tampouco é sugerida nos escritos dos primeiros Pais da Igreja.

Além disso, o solipsismo deve ser diferenciado do ceticismo geral e da verificação de fatos. A Bíblia incentiva um ceticismo cauteloso (Atos 17:11), especialmente com relação a ideias espirituais (1 João 4:1). A simples consciência de que somos falíveis e de que precisamos verificar novamente nossas experiências não é solipsismo. O verdadeiro solipsismo, de fato, não pode ser conectado às nossas experiências de forma alguma.

O solipsismo corrói qualquer lógica ou evidência que possa apoiar a realidade da experiência. Se nossas experiências são artificiais, imaginárias ou falsas, então qualquer experiência que possa nos levar a acreditar no solipsismo pode fazer parte da ilusão e, portanto, não ser confiável. Ao mesmo tempo, qualquer experiência que possa nos levar a duvidar do solipsismo pode ser descartada pelo mesmo motivo. Como resultado, o solipsismo não é provado nem contradito por nenhuma experiência possível – o que significa que o solipsismo como filosofia é praticamente sem sentido. A ideia é tanto infalsificável quanto inverificável. Verdadeira ou falsa, não podemos conhecê-la ou refutá-la e, portanto, não podemos tomar nenhuma decisão significativa sobre ela.

Esse é um dos motivos pelos quais o solipsismo e os argumentos que o implicam são geralmente considerados becos sem saída em discussões filosóficas. Ou seja, a introdução do solipsismo torna a conversa sem sentido. Assim que alguém argumenta que nossas experiências – em um nível fundamental – não são confiáveis, ficamos incapazes de saber qualquer coisa. Isso não é apenas contrário à forma como vivenciamos a vida, mas também torna toda a razão e experiência inúteis. O solipsismo se enquadra na categoria de ideias que são interessantes, mas nas quais não vale a pena se aprofundar (Colossenses 2:8; Tito 3:9).

Para algumas pessoas, o solipsismo é preocupante porque é um conceito difícil de abandonar. Se não se pode confiar em nossos próprios sentidos e experiências, o que isso significa para nossos relacionamentos, nossa ciência ou nossa religião? A solução para essa angústia é perceber como o solipsismo é impraticável. Ou seja, a crença no solipsismo não pode ser vivida de forma significativa. Tampouco pode ser provada ou refutada por quaisquer experiências ou evidências possíveis. Para se libertar da preocupação com o solipsismo, é preciso perceber que se trata de uma abstração pura, sem aplicação prática...

Uma metáfora simples para o fato de estar preso a um pensamento solipsista é a música infantil "The Song That Never Ends" (A Canção Que Nunca Acaba), cuja letra é a seguinte:

Essa é a música que nunca termina. / Sim, ela continua e continua, meus amigos. / Algumas pessoas começaram a cantá-la sem saber o que era. / E continuarão a cantá-la para sempre, só porque...

(repetir do início ad nauseam).

Se você aceitar a afirmação da música (de que precisa continuar cantando), ficará preso no ciclo para sempre, como diz a música. Mas se alguém perguntar por que você está sempre cantando, a única razão que você pode dar é: "porque a música diz isso"! A solução é perceber que, além da música em si, não há absolutamente nenhum motivo para continuar cantando. Você não foi obrigado a começar e não é obrigado a continuar - a menos que decida arbitrariamente que deve obedecer à música por algum motivo.

O solipsismo funciona da mesma forma em nossa mente. Se quiséssemos, poderíamos considerar tudo o que vivenciamos como fruto de nossa imaginação, inclusive todos os sinais em contrário. Mas teríamos que fazer o mesmo com todos os sinais que apontassem para o solipsismo em primeiro lugar. E, de qualquer forma, não temos motivos tangíveis para pensar que isso é verdade. Como na canção infantil, é bem possível que fiquemos presos à ideia, mas não há absolutamente nada que sugira que façamos isso, a não ser a própria ideia.

Em suma, um resumo feito, via Chat Gpt [3], comparando o solipsismo com a fé cristã apresenta:

Portanto, diferentemente da música infantil citada acima que propõe ficarmos presos à ideia, a fé cristã supera o solipsismo ao transformar a interioridade em porta de acesso ao divino (Deus), não em prisão do sujeito. Veja, também, para concluir, este vídeo do Brendo Silva, sobre o assunto:

“Solipsismo: a crença de que só a própria mente existe — uma ilusão que, à luz da fé cristã, nega a realidade do Criador e do próximo.”

Notas / Referências bibliográficas:

  •  [1] “Solipsismo e Fé Cristã: dois caminhos do eu: À esquerda, vemos o solipsismo: um ‘eu’ fechado em si mesmo, isolado, cercado por muros invisíveis. Para o solipsista, apenas sua própria mente é real – o mundo e os outros podem ser apenas projeções da consciência. É uma solidão metafísica: o universo reduzido ao ‘eu penso’. À direita, À direita, a cristã: um ‘eu’ aberto, confiante, que se volta a Deus e ao mundo. A cruz e a Terra simbolizam a comunhão – Deus é o fundamento da realidade, e cada pessoa é chamada ao amor e à relação” (Imagem e legenda ilustrativas sugeridas e feitas pelo ChatGpt. In: https://chatgpt.com/c/69092191-8fb4-8332-95ab-2b0e60eaf2de. Acesso em: 06/11/2025. 
  •  [3O que é o solipsismo? In: https://chatgpt.com/c/69092191-8fb4-8332-95ab-2b0e60eaf2de. Acesso em: 06/11/2025.

27 de outubro de 2025

Ética situacional: breve análise bíblica

 
Ilustração: Ética situacional [1]

Sobre o conceito de ética, já vimos brevemente: Ética x moral; Ética bíblica; Ceticismo e ética;  Ética situacional... Sobre este último, vimos como Fletcher analisa a ética do ponto-de-vista da “lei do amor”. A ética situacional de Joseph Fletcher defende que a única lei moral absoluta é o amor (ágape), e que as decisões morais devem ser tomadas com base nas circunstâncias de cada situação, e não em regras fixas. O amor, entendido como uma ação sacrificial e não apenas como sentimento, guia a escolha do que é melhor para a situação em questão, justificando o uso de qualquer meio se o fim for amoroso... Mas, a Bíblia realmente ensina a ética situacional? Vejamos a seguir o que diz o Ministério Got Questions [2] sobre isto.

A ética situacional é uma visão particular da ética moral que sustenta que a moralidade de um ato é determinada por seu contexto. A ética situacional afirma que se há um certo e errado, ele é simplesmente determinado pelo resultado desejado da situação. A ética situacional é diferente do relativismo moral porque o relativismo moral afirma que não há certo ou errado. A ética situacional desenvolve um código de ética no qual atender às necessidades de cada situação determina o que é certo ou errado.

De capa a capa, a Bíblia é verdadeira, consistente e aplicável. A Bíblia ensina, admoesta ou até mesmo inclina-se a defender a ética situacional? A resposta curta é "não". Vamos considerar três princípios: 1) Deus é o criador e sustentador. 2) Toda a Palavra de Deus é verdadeira, até mesmo as partes de que não gostamos ou entendemos. 3) O certo e o errado são determinados e definidos por quem Deus é.

1.    Deus é o criador e sustentador

A ética situacional afirma que a moralidade é determinada pelo ambiente ou circunstância. A Palavra de Deus diz que a moralidade é determinada pela soberania de Deus, pois Ele é o criador e sustentador. Isso não é uma questão de semântica, mas de fato. Ainda que Deus desse um comando para um grupo de pessoas e o proibisse a um outro grupo, a determinação de que é certo ou errado, ético ou não, não se baseia na situação, mas sim no comando de Deus. Deus tem a autoridade para governar o certo e o errado. Romanos 3:4 diz: "Antes seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso."

2.    Toda a Palavra de Deus é verdadeira

Sugerir que a Bíblia defende a ética situacional seria implicar que ela contém erros. Isso não é possível. Não é possível por causa do número 1, Deus é o criador e sustentador.

3.    O certo e o errado são definidos por quem Deus é

O amor é a natureza de Deus. Ele define o que o amor é, não pelo que faz, mas simplesmente por quem é. A Bíblia diz: "Deus é amor" (1 João 4:16). O amor é desinteressado e atencioso com os outros, nunca procura a sua própria glória ou prazer (1 Coríntios 13). Portanto, em virtude de quem é Deus, a Bíblia, sendo dada por Deus e sendo completamente verdadeira, não pode conter um sistema de ética que desafiaria a natureza de Deus. A ética situacional encontra o certo e o errado para agradar a maioria ou uma única pessoa por egoísmo. O amor é o oposto. O amor procura incentivar e encorajar outras pessoas.

Dois problemas fundamentais com a ética situacional são a realidade de uma verdade absoluta e o conceito de amor real. A Bíblia ensina a verdade absoluta, a qual ensina que o certo e o errado são pré-determinados por um Deus Santo. E o amor – a definição de Deus do amor verdadeiro, honesto e real – não deixa espaço para motivações egoístas ou impuras. Mesmo se alguém dissesse que a situação exige abnegação, ainda é uma determinação humana e não divina. As razões de um ser humano para determinar o que é melhor sem o amor verdadeiro são fundacionalmente[3] egoístas.

Então o que acontece quando as coisas parecem certas, mas Deus diz que são erradas? Temos de confiar na soberania de Deus e confiar "que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28). Se nós pertencemos a Cristo, Deus nos deu o Seu Espírito (João 16), e por meio dEle temos uma compreensão do que é certo e errado. Através dEle, somos convencidos, incentivados e orientados para a justiça. Um desejo sincero de conhecer a verdade de um assunto, juntamente com a busca de Deus, será recompensado com a resposta de Deus. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos" (Mateus 5:6).     

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Vejamos mais estes textos [4] / comentários:

 “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.  Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.14-16).

Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.21)

E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (1Jo 2.20,27).

Comentando sobre 1Co 2.14 (Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente), o Dr. C. I. Scofield [5] destaca: “Paulo divide os homens em três classes:

1) psuchikos, significando dos sentidos, sensuais (Tg 3.15; Jd 19), naturais, isto é, o homem adâmico, não renovado pelo novo nascimento (Jo 3.3,5);

2) pneumatikos, significando espirituais, isto é, o homem renovado cheio do Espírito e andando no Espírito em comunhão com Deus (Ef 5.18-20); e

3) sarkikos, significando carnais, isto é, o homem renovado que, andando ‘segundo a carne’, permanece uma criancinha em Cristo (I Co 3.1-4). O homem natural pode ser culto, educado, eloquente, fascinante, mas o conteúdo espiritual das Escrituras lhe é absolutamente oculto; e o cristão carnal só consegue entender as verdades mais simples, ‘o leite’ (1 Co 3.2)”.

São os espirituais que conseguem "julgar todas as coisas" em uma situação complexa que requer discernimento fora do comum e que pode gerar consequências dependendo das escolhas a serem tomadas. Ao decidirem fazer a escolha correta segundo os princípios divinos podem pagar um preço por esta escolha. Essa capacidade de escolha da verdade permite aos seguidores espirituais avaliar a veracidade de ensinamentos e distinguir entre o certo e o errado, mas não se opõe ao mandamento de não julgar de forma hipócrita ou condenatória, especialmente em questões pessoais. E, por falar em escolhas arriscadas, veja o exemplo da aparente “mentira” de Raabe no vídeo a seguir, de Leandro Quadros:


Notas / Referências bibliográficas:

  •  [1] Imagem meramente ilustrativa feita através do Chat Gpt, em 17/10/2025.
  •  [3] Fundacionalismo: “... uma vertente da epistemologia que afirma que só podemos ter certeza de algo se, em algum ponto da linha, pudermos rastreá-lo até uma verdade indubitável e irrefutável. Essa verdade servirá como base a partir da qual todos os nossos outros conhecimentos e crenças poderão ser construídos e justificados...” (In: Expresso existencial). Veja também: Coerentismo e fundacionalismo.  
  •  [5] SCOFIELD, C. I. Nota sobre 1Co 2.14. In: Bíblia Sagrada (ARA). São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil: 1987. 

26 de agosto de 2025

A Escatologia de Irineu e o Fundamentalismo Protestante

Por: Alcides Amorim


Há alguma similaridade entre o ensino escatológico de Irineu de Lyon (Leão) e o dos protestantes fundamentalistas? Esta pergunta tem relação com o texto sobre as setenta semanas do profeta Daniel (9) e os comentários do Dr. C. I. Scofield [1] sobre o assunto. Scofield foi um pastor protestante fundamentalista que escreveu suas ricas anotações de sua Bíblia de Referências. Nelas, ele ensina a visão escatológica futurista e dispensacionalista e, ao comentar Daniel 9.24, ele afirma que “... a interpretação que atribui a última das semanas ao fim dos tempos é dos Pais da Igreja”. E, como exemplo, ele cita Irineu e Hipólito. Resolvi, então, ver o pensamento de Irineu sobre isto, que resumiremos abaixo, e em outro momento pretendo falar sobre a posição de Hipólito.

1.    Sobre a teologia de Irineu

No tocante à vida de Irineu já falamos um pouco neste artigo. Ele era natural da Ásia Menor – provavelmente de Esmirna – onde nasceu por volta do ano de 130 e morreu em 202. Durante toda sua vida, Irineu foi um admirador fervente de seu mestre, e em seus escritos se refere repetidamente aos ensinos do mesmo, isto é, um "ancião" – o presbítero – cujo nome não menciona, mas que parece ser mesmo o bispo Policarpo. Este, que fora discípulo do apóstolo João, morreu por volta de do ano 100. Seu discípulo Policarpo, que serviu a Cristo 86 anos, talvez tenha morrido com mais de 90 anos, em 155. E Irineu, discípulo deste último, continuou sua obra. Veja que Irineu absorveu toda a tradição cristã que o aproximava aos apóstolos. Em todo caso, por razões que desconhecemos, Irineu se transladou da Ásia Memor para Lyon, no que hoje é França.

Os pontos centrais da teologia de Irineu era:

·  a unidade da apostólica transmitida pela sucessão episcopal e base para o combate às heresias;

· Cristo como Recapitulação (Anakephalaiosis), a ideia de que Cristo recapitula em si toda a história humana. Adão trouxe a queda, Cristo, o novo Adão, refaz o caminho, obedecendo onde Adão desobedeceu (cf. Rm 5.12-21; 1Co 15.22,45) e enfatiza salvação como uma restauração e renovação da humanidade em Cristo.

·  Encarnação como parte do plano de salvação: Para Irineu, a encarnação já fazia parte do propósito eterno de Deus, não apenas uma resposta ao pecado.

·  Combate à heresia gnóstica: Irineu rejeitou a ideia gnóstica de um Deus superior ao Criador; afirmou que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo e que a criação é boa, e a redenção acontece dentro da história, não pela fuga dela.

·  Escatologia: Irineu esperava um reino futuro de Cristo na terra (inclinação milenarista, comum nos primeiros séculos); e via a história em termos de “planos” (dispensações) ou “economias” de Deus, conduzindo ao cumprimento em Cristo. Sobre este ponto falaremos mais abaixo.

Irineu é considerado pela Igreja Católica um dos grandes Padres apostólicos e apologistas; considerado em 2022, pelo Papa Francisco, “Doutor da Unidade”, por sua ênfase na unidade da fé e da Igreja contra divisões. A sua teologia da sucessão apostólica é valorizada pela Igreja Católica como base do episcopado e do magistério, assunto que também destacamos aqui.

Mas é sobre sua escatologia que queremos destacar a seguir sobretudo considerando os pontos similares com o fundamentalismo protestante.

2.    Escatologia: Irineu x Fundamentalistas

Perguntei ao Chatgpt que embora a Igreja Católica considere Irineu como “Doutor da Igreja”, pelo menos a sua escatologia diverge da doutrina católica. A Resposta da I. A. Chatgpt foi: “Sua avaliação está correta: Irineu é Doutor da Igreja, mas sua escatologia não coincide plenamente com a visão católica posterior”. E esta divergência se dá, principalmente a partir de Agostinho de Hipona, do século IV em diante. “Agostinho ensinou que o milênio de Ap 20 não é literal, mas espiritual... corresponde ao período atual da Igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo... Essa interpretação se tornou a dominante (o chamado amilenarismo agostiniano)”. Mas, voltando a Irineu[2], vejamos o que ele diz sobre:

a)   Dispensações

Como já definimos aqui “... uma dispensação é um período de tempo no qual o homem é testado na sua obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus. Três conceitos importantes estão implícitos nesta definição: um depósito de revelação divina quanto à vontade de Deus, incorporando o que Deus exige quanto à sua conduta; a mordomia do homem desta revelação divina, na qual ele é responsável de obedecer; e um período de tempo, geralmente chamado de “século”, durante o qual esta revelação divina prevalece testando a obediência do homem a Deus[3]”.

Irineu não fala diretamente sobre dispensações, mas deixa claro que Deus implementou um plano para resgatar e restaurar a humanidade e a criação, revertendo os efeitos do pecado. Ele chama este plano de "recapitulação" (p. ex.: pág. 65) e é uma forma de a Igreja interpretar a história da salvação em diferentes "economias" ou etapas do plano de Deus. E também destaca sobre “... aquelas coisas que foram preditas pelo Criador igualmente por meio de todos os profetas Cristo cumpriu no final, ministrando à vontade de Seu Pai e completando suas dispensações [destaque meu] com relação à raça humana[4].

b)   As Setenta Semanas de Daniel

Assim como os fundamentalistas (veja aqui), Irineu interpretava as setenta semanas de Daniel  (Dn 9.24-27) como um período histórico de 490 anos literais. A última semana (7 anos) seria o tempo da tribulação, que ele vinculava com eventos que precederiam a volta de Jesus. Portanto, trata-se de um evento escatológico futuro. Ele dividia a última semana em duas partes de três anos e meio (como fazem os dispensacionalistas).   O “príncipe que há de vir” (v. 26) é o Anticristo, um governante que que fará uma aliança por uma semana (7 anos), mas na metade da semana (após 3 anos e meio) romperá o pacto, cessará o sacrifício e instaurará a abominação da desolação. Resumindo: Irineu vê a última semana como ainda não cumprida em sua totalidade, projetada para o fim da história, ligada ao governo do Anticristo.

c)   Arrebatamento da Igreja / Segunda vinda de Cristo / grande tribulação

Irineu (pág. 98) relaciona arrebatamento como a ressurreição dos mortos: “... assim também devemos esperar o tempo da nossa ressurreição, prescrito por Deus e predito pelos profetas, e assim, ressuscitando, sermos arrebatados, todos aqueles que o Senhor considerar dignos deste [privilégio]...”. também cita (Pág. 16 e 17) Enoque e Elias como exemplo de pessoas arrebatadas ou trasladadas. O arrebatamento deles apontava “... assim por antecipação a transladação dos justos”. Quando esta transladação acontecerá? Diferentemente dos fundamentalistas protestantes, que acreditam que Jesus voltará antes da grande tribulação, Irineu cria que a Igreja seria “arrebatada” (1Ts 4.17), mas no fim da última semana, na manifestação de Cristo, não antes. E também não falava de um “arrebatamento secreto” durante a tribulação. Sua visão era mais próxima do que hoje chamamos de pós-tribulacionismo milenarista: a Igreja sofre perseguição, Cristo volta, ocorre o arrebatamento/ressurreição, derrota do Anticristo e início do milênio.

d)   Milênio

O ensino de Irineu sobre o milênio coincide com a posição dos fundamentalistas. Ele ensinava um milênio literal (quiliasmo), terrestre e futuro, que ocorrerá após a volta de Cristo. Sua posição foi abandonada pela Igreja Católica a partir do século IV, como já vimos.

Com a ajuda do chatGpt, elaborei um quadro abaixo da escatologia de Irineu por ordem dos acontecimentos:

1)  Aparecimento do Anticristo

- Surge no fim da história como o “príncipe que há de vir” (Dn 9.27).

- Governa por 3 anos e meio (Dn 7.25; Ap 13.5).

- Rompe a aliança, cessa o sacrifício e instala a abominação da desolação (Dn 9.27; Mt 24.15).

- Persegue duramente os santos (Ap 13.7).

2)  Grande Tribulação da Igreja

- A Igreja não é retirada antes da tribulação, mas chamada a perseverar.

- Irineu entendia o sofrimento como prova final dos fiéis (Ap 13; Dn 12.7).

3)  Segunda Vinda de Cristo

- Cristo vem em glória, derrota o Anticristo (2Ts 2.8; Ap 19.20).

- Os justos são arrebatados / ressuscitados para encontrar o Senhor (1Ts 4.16-17).

- Esse encontro marca o início do reinado milenar.

4)  Milênio literal (1.000 anos)

- Cristo reinará na terra, em Jerusalém restaurada (Ap 20.4-6).

- A criação será renovada (Is 11; 65.17-25).

- Haverá abundância e paz, cumprimento das promessas a Israel.

- Os justos reinarão com Cristo.

5)  Ressurreição final e Juízo universal

- Após os 1.000 anos, Satanás será solto e derrotado (Ap 20.7-10).

- Ocorre a segunda ressurreição: ímpios ressuscitam para o juízo.

- Cristo julga todos (Ap 20.11-15).

6)  Eternidade: Novo céu e nova terra

- Consumação definitiva da criação (Ap 21–22).

- A humanidade restaurada em Cristo habita com Deus para sempre.

Bem, sobre a escatologia dos dispensacionalistas/conservadores, estamos postando os assuntos aqui à medida que conseguimos elaborá-los. Mas quero concluir destacando alguns pontos de aproximação dela com a de Irineu.

Irineu não faz distinção entre Israel e a Igreja ao tratar o fim dos tempos, não ensina sobre um arrebatamento secreto, mas defende uma leitura futurista de Daniel e Apocalipse; entende ser a última semana de Daniel um acontecimento ainda futuro, culminando na revelação do Anticristo; divide esse período em duas metades de 3 anos e meio, conectando com Ap 11–13; afirma que o “príncipe que há de vir” (Dn 9.26-27) é o Anticristo, que perseguirá os santos; e acreditava num reino milenar terreno de Cristo após sua vinda.

Portanto, Irineu e o dispensacionalismo compartilham elementos importantes: leitura futurista de Daniel, expectativa de um Anticristo histórico e defesa de um milênio literal. Contudo, separam-se no ponto crucial do arrebatamento da Igreja. Enquanto o dispensacionalismo vê a Igreja retirada antes da tribulação, Irineu acreditava que os cristãos enfrentariam o Anticristo, sendo arrebatados somente na segunda vinda de Cristo. Assim, sua escatologia está mais próxima de um pós-tribulacionismo milenarista do que da visão pré-tribulacionista moderna.

Veja o resumo do artigo no vídeo a seguir:





Notas / Referências bibliográficas:

  • [1Cyrus Ingerson Scofield (1843–1921): “... foi um influente ministro americano. Sua Bíblia de Referência Scofield , repleta de anotações úteis sobre o texto, foi publicada em 1909 e se tornou o padrão para uma geração de cristãos fundamentalistas e popularizou a teologia dispensacionalista...”. Veja mais aqui, aqui e também aqui
  • [2IRINEU... Contras as Heresias, Livro V, Cap. 25 a 30.
  • [3SCOFIELD, Dr. C. I. Rota de Gênesis 1.28. In: A Bíblia Sagrada. São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil: 1987. Texto e abreviaturas das referências adaptados.
  • [4IRINEU de Lyon. Contra as Heresias: Livro 5, p. 83 e 84), Edição do Kindle.