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11 de junho de 2026

Nossa cidadania está nos céus

 Por: Gotquestions  

Um cidadão é uma pessoa que pertence legalmente a um país e tem os direitos e a proteção desse país. Os cidadãos adotam a cultura e as práticas da nação ou reino ao qual pertencem. Todo ser humano nasce no reino deste mundo, no qual Satanás governa (2 Coríntios 4.4). Consequentemente, crescemos adotando a cultura, as práticas e os valores que ele instiga (Gênesis 3.1; 1João 2.16).

O reino de Satanás escraviza seus cidadãos (Romanos 6.16). Com corações e mentes obscurecidos, seguimos cegamente nosso líder nos pecados que nos levam cada vez mais à escravidão. Permanecemos cativos nesse reino do pecado, rumo à destruição, até que Jesus nos liberte (Efésios 2.1-4). Filipenses 3.18-19 destaca as diferenças entre aqueles que desejam ter comunhão com Jesus Cristo e aqueles que se concentram em objetivos terrenos: "Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu lhes dizia e agora digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está naquilo de que deviam se envergonhar, visto que só pensam nas coisas terrenas." Aqueles que não conhecem a Cristo vivem apenas para este mundo e para o prazer que podem encontrar para si mesmos. Eles são "cidadãos" deste mundo e vivem de acordo com suas regras e sistema de valores.

Quando nascemos de novo pela fé em Jesus Cristo (João 3.3), nascemos no Reino dos Céus (Mateus 3.2; 7.21; Romanos 14.17). Falando sobre aqueles que tiveram esse renascimento espiritual, Filipenses 3.20 diz: "Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo". Jesus passou grande parte de Seu ministério terreno explicando o Reino dos Céus (Mateus 4.17). Ele o comparou a muitas coisas, inclusive a um campo de trigo no qual as ervas daninhas cresciam junto com o trigo. As plantas pareciam idênticas no início, mas foram separadas na colheita. A verdade é que, muitas vezes, os cidadãos do céu e os deste mundo parecem idênticos, e ninguém além de Deus sabe a diferença (Romanos 8.19). Muitas pessoas podem parecer cidadãos do céu, quando, na verdade, nunca houve renascimento em seus corações (Mateus 7.21).

Quando Deus nos concede a cidadania no Reino dos Céus, nos tornamos "novas criaturas" (2Coríntios 5.17). Ele envia Seu Espírito Santo para habitar em nosso espírito, e nosso corpo se torna Seu templo (1Coríntios 3.16; 6.19-20). O Espírito Santo começa a transformar nossos desejos pecaminosos e mundanos naqueles que glorificam a Deus (Romanos 12.1-2). Seu objetivo é nos tornar o mais parecido possível com Jesus nesta vida (Romanos 8.29). Recebemos o poder e o privilégio de sair do sistema de valores falho do mundo e viver para a eternidade (1João 2.15-17). Ser adotado na família de Deus significa que nos tornamos cidadãos de um reino eterno onde nosso Pai é o Rei. Nosso foco se volta para as coisas eternas e para o acúmulo de tesouros no céu (Mateus 6.19-20). Consideramo-nos embaixadores nesta Terra até que nosso Pai nos mande buscar e voltemos para casa (Efésios 2.18-19; 6.20).

Vivemos por um curto período de tempo nesses corpos físicos, antecipando o futuro brilhante em nosso verdadeiro lar. Enquanto estamos aqui, compartilhamos a experiência de Abraão, vivendo "como em terra alheia... Porque Abraão aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor" (Hebreus 11.9-10).


Fonte:

  • GOT Questions. O que significa o fato de nossa cidadania estar no céu?. Disponível em:  <https://www.gotquestions.org/Portugues/cidadania-no-ceu.html>. Acesso em: 10/06/2026 - Texto adaptado.

14 de maio de 2026

Os cristãos e a cultura do cancelamento: como reagir

Por: Gotquestions


A cultura do cancelamento é a atitude social moderna de que o discurso ou o comportamento polêmico deve ser punido por meio de vergonha pública, silenciamento, boicote, demissão, falência, deplantação, etc. O resultado é que a influência, a presença e/ou a reputação do infrator é "cancelada".

É apropriado que os denunciantes revelem a corrupção e a ilegalidade ou que as mulheres vítimas de abuso se apresentem, confrontem seu agressor e garantam que ele seja responsabilizado. Mas a cultura do cancelamento vai muito além disso, estabelecendo novas regras para retaliar o discurso, o comportamento ou até mesmo o pensamento que tenha sido pré-julgado como "ofensivo" ou até mesmo simplesmente controverso. Na cultura do cancelamento, as pessoas podem ser condenadas ao ostracismo, ter suas reputações manchadas e suas carreiras arruinadas, embora não tenham violado nenhuma lei ou se envolvido em qualquer comportamento malicioso.

A cultura do cancelamento é o resultado de duas outras coisas igualmente perigosas: o politicamente correto e o pós-modernismo. O politicamente correto é a tentativa de minimizar a ofensa social e institucional por meio do policiamento do discurso (e, portanto, do pensamento), forçando o uso de certas palavras e proibindo outras. O pós-modernismo afirma que todas as alegações de verdade são subjetivas. A verdade se torna uma questão de preferência, e a "tolerância" é promovida como um valor supremo. No entanto, quanto mais "tolerante" uma cultura se torna, mais intolerante ela é em relação a qualquer pessoa que ela considere intolerante. As pessoas consideradas "intolerantes" ou com potencial de ofender devem ser silenciadas - e o resultado é a cultura do cancelamento.

A cultura do cancelamento está associada a vários problemas que podem ser tratados biblicamente:

1) A cultura do cancelamento é precipitada. Há pouca preocupação com o devido processo legal e, em seu lugar, há indignação imediata e julgamentos precipitados. O que alimenta a controvérsia são informações parciais, muitas vezes tendenciosas. A Bíblia ordena: "Faça plana a vereda de seus pés, para que todos os seus caminhos sejam retos" (Provérbios 4:26), e devemos "viver com sensatez" (Tito 2:12). O pensamento irracional e a mentalidade de multidão não têm lugar na vida do cristão.

2) A cultura do cancelamento é rancorosa. O desprezo vitriólico que vem do grupo de cancelamento é, muitas vezes, chocantemente feio. Selecionar uma pessoa para "cancelamento" parece ser o mesmo que declarar que essa pessoa é digna de ódio e, com isso, vem a permissão para difamá-la. Em contraste com a promoção da maldade da cultura do cancelamento, Jesus nos ordena: "amem os seus inimigos, façam o bem aos que odeiam vocês. Abençoem aqueles que os amaldiçoam, orem pelos que maltratam vocês" (Lucas 6:27-28). Nosso discurso deve ser "gracioso e atraente" (Colossenses 4:6). O discurso perverso, obsceno ou cheio de ódio não tem lugar na vida do cristão.

3) A cultura do cancelamento é julgadora. Os autoproclamados defensores do discurso "aceitável" têm se esforçado muito para encontrar material sobre o qual possam cancelar outros. Pessoas perderam seus empregos por causa de artigos escritos há três décadas, piadas contadas na juventude, literatura clássica lida em voz alta e editoriais contrários publicados. Não há espaço para o inconformismo - ou para a liberdade de expressão. Se a polícia linguística fosse julgada por seu próprio padrão severo, quantos deles continuariam sem ser cancelados? As escrituras advertem contra o julgamento hipócrita (Mateus 7:1). A hipocrisia ou um espírito hipercrítico e de busca de falhas não tem lugar na vida do cristão.

4) A cultura do cancelamento não perdoa. Casos passados de discurso ou ações inapropriados ou ofensivos, não importa há quanto tempo, não são perdoados na cultura do cancelamento. Uma vez que uma pessoa é cancelada, não há como restaurá-la às boas graças da sociedade - não há graça. Não há chance de redenção. A reabilitação e a restauração não são o objetivo, tampouco aprender com os próprios erros. O objetivo é manchar, difamar e caluniar. A Bíblia aponta para o arrependimento e nos ordena a perdoar uns aos outros: "Suportem-se uns aos outros e perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros" (Colossenses 3:13). Uma atitude sem perdão e sem amor não tem lugar na vida do cristão.

Em meio à cultura do cancelamento, devemos usar nossas palavras com sabedoria. Os crentes devem "buscar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão" (1 Timóteo 6:11). Devemos "seguir a verdade em amor, crescendo em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Efésios 4:15). E devemos continuar a rejeitar o ódio e amar os outros, até mesmo nossos inimigos (1 João 4:7; Mateus 5:43-48).

A cultura do cancelamento vê as pessoas com as quais uma pluralidade de pessoas discorda como irredimíveis e dignas de desprezo. A cultura cristã não vê ninguém como irredimível. O arrependimento e a mudança são sempre possíveis, e o perdão está disponível. A cultura cristã não vê ninguém como um objeto de desprezo. O amor de Deus está sempre disponível. Não há causas perdidas.

Fonte:

    • GOTquestions. Como os cristãos devem reagir à cultura do cancelamento?. In: <https://www.gotquestions.org/Portugues/cultura-do-cancelamento.html>. Acesso em 13/05/2026

    • Imagem ilustrativa, feita via ChatGpt.

16 de março de 2026

Logos

 Por:  Andrew Finlay Walls  [1]


Logos[1]. O termo grego mais comum aplicado a “palavra” no NT; ocasionalmente com outros significados (e.g., "relato", "raciocínio", "motivo"); especificamente no prólogo do quarto evangelho (Jo 1.1,14) e talvez em outros escritos joaninos (1 Jo 1.1; Ap 19.13) é usado a respeito da segunda Pessoa da Trindade. Na linguagem grega comum também significa "razão".

1.    O Uso Joanino

Segundo João 1.1-8, o Logos já estava presente na criação ("no princípio" refere-se a Gn 1.1), no mais estreito relacionamento com Deus ("com" = pros, não meta nem syn). Na realidade, o Logos era Deus (não "divino" como Moffatt – o predicado sem artigo é gramaticalmente exigido, mas também pode indicar uma distinção entre as pessoas). Este relacionamento com Deus estava em vigor no momento da Criação (1.2). Toda a obra da criação foi levada a efeito através ("por" = v. 3) do Logos. Sendo a fonte da vida (1.4, pontuação provável), e a luz do mundo (cf. 9.5), e de todo homem (1.9, pontuação provável), e ainda continuando (tempo presente em 1.5) esta obra, o Logos encarnou-Se, revelando o sinal da presença de Deus e a Sua natureza (1.14).

O prólogo, portanto, revela três facetas principais do Logos e de Sua atividade: Sua divindade e relacionamento íntimo com o Pai; Sua obra como agente da criação; Sua encarnação.

Em 1 Jo 1.1 "o Logos da vida", visto, ouvido e tocado, pode referir-se ao Cristo pessoal da pregação apostólica, ou impessoalmente à mensagem a respeito dele. Ap 19.12, retrata Cristo como um general vencedor chamado o Logos de Deus. Como em Hb 4.12, é o quadro veterotestamentário dos efeitos esmagadores da palavra de Deus (cf. a linguagem figurada do v. 15) que está em mente.

2.    Pano de Fundo do Termo

No Antigo Testamento, vários fatores oferecem algum preparo para o uso em João. Deus cria mediante a palavra (Gn 1.3; SI 33.9) e Sua palavra, às vezes, é referida semi-pessoalmente (SI 107.20; 147.15,18); é ativa, dinâmica e obtém os resultados pretendidos (Is 50.10-11). A sabedoria de Deus é personificada (Pv 8 - note especialmente os vv. 22ss, a respeito da obra da sabedoria na criação). O Anjo do Senhor, às vezes, é referido como Deus, às vezes como diferente dEle (cf. Jz 2.1). O nome de Deus é semi-personalizado (Ez 23.21; 1 Rs 8.29).

O Judaísmo Palestino. Além da personificação da sabedoria (cf. Eclesiástico 24) os rabinos usavam a palavra më'mrä, "palavra", como perífrase de "Deus". Este uso ocorre nos targuns.

A Filosofia Grega. Entre os filósofos, o significado de Logos varia, mas, em geral, representa "razão" e reflete a convicção grega de que a divindade não pode entrar em contato direto com a matéria. O Logos é um para-choque entre Deus e o universo, e a manifestação do princípio divino no mundo. Na tradição estoica, o Logos é tanto a razão divina quanto a razão distribuída no mundo (e, portanto, na mente).

O Judaísmo Helenístico. No judaísmo alexandrino havia plena personificação do verbo na Criação (Sab. Sal. 9.1; 16.12). Nos escritos de Filo que, embora fosse judeu, bebeu profundamente do platonismo e do estoicismo, o termo aparece mais de 1300 vezes. O Logos é "a imagem" (Cl 1.15); a primeira forma (prötogonos), a representação (charaktër, cf. Hb 1.3), de Deus; e até mesmo um "Segundo Deus" (deuteros theos; cf. Eusébio, Praeparatio Evangelica vii. 13); o meio pelo qual Deus cria o mundo a partir da grande desolação; e, além disso, o meio pelo qual Deus é conhecido (isto é, com a mente. O conhecimento mais estreito podia ser recebido diretamente, em êxtase).

A Literatura Hermética. Logos ocorre frequentemente na literatura hermética. Embora sejam pós-cristãos, estes escritos são influenciados pelo judaísmo helenístico Indicam a doutrina do Logos, em termos semelhantes aos de Filo, nos círculos místicos pagãos.

Origens da Doutrina de João. João 1 é radicalmente distinto do uso filosófico. Para os gregos, Logos era essencialmente razão; para João, essencialmente palavra. A linguagem que Filo e o NT têm em comum levou muitos a considerarem que João dependia de Filo. Mas o Logos de Filo é naturalmente referido como neutro, ao passo que o Logos de João é "Ele". Filo não se aproximou mais do que Platão de um Logos que talvez fosse encarnado, e não faz identificação alguma entre Logos e Messias. O Logos de João não é apenas o agente de Deus na criação; Ele é Deus e Se torna encarnado, revelando e redimindo.

O më'mra rabínico dificilmente é mais do que uma substituição reverente do nome divino; não é um conceito suficientemente substancial; nem é provável algum contato direto com os círculos herméticos.

A origem da doutrina do Logos em João acha-se na Pessoa e na obra do Cristo histórico. "Jesus não deve ser interpretado pelo Logos: Logos é inteligível somente à medida que pensamos em Jesus" (W. F. Howard, IB, VIII, 442). Sua expressão é apropriada principalmente devido à conotação veterotestamentária de "palavra" e da sua personificação da sabedoria. Cristo é o Verbo ativo de Deus, Sua revelação salvífica ao homem decaído. Não é por acidente que tanto o evangelho quanto Cristo, que é o assunto do evangelho, sejam chamados "a palavra". Mas o uso de "Logos" no mundo helenístico contemporâneo tornou-o um conceito útil para "construir pontes".

Em duas passagens no NT onde Cristo é descrito em termos que relembram o Logos de Filo, a palavra "Logos" está ausente (Cl 1.15-17; Hb 1.3). Sua introdução à linguagem cristã tem sido atribuída a Apolo.

3.    Logos no Uso Cristão Primitivo

Os apologistas acharam Logos um termo conveniente para expor o cristianismo aos pagãos. Usavam seu sentido de "razão", e alguns chegaram, assim, a ver a filosofia como uma preparação para o evangelho. As implicações hebraicas de "palavra" eram desenfatizadas, mas nunca totalmente perdidas. Alguns teólogos distinguiam entre o Logos endiathetos, ou Palavra latente na Deidade desde a eternidade, e o logos prophorikos, que foi pronunciado e se tornou eficaz na criação. Orígenes parece ter usado a linguagem do deuteros theos, de Filo. Nas principais controvérsias cristológicas, no entanto, o uso do termo não esclareceu as questões principais, e não ocorre nos grandes credos.

Por: A. F. WALLSParte inferior do formulário


Notas / Fonte:

  •  [1] Andrew Finlay Walls (1928–2021): “...foi um influente historiador britânico e pioneiro nos estudos do Cristianismo Mundial e da história da igreja africana. Ele lecionou em diversas universidades, incluindo Aberdeen e Edimburgo, sendo fundamental na compreensão da mudança do centro de gravidade do cristianismo do Ocidente para o hemisfério sul” (Wikipedia). Acesso, via I.A., em: 06/03/2026.
  •   [2] WALLS, A. F. Logos. In:  Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. II (Pág. 449 a 450 – Texto adaptado). 



2 de março de 2026

Revelação Geral

Por: Bruce B. Demarest [[1]]

Revelação Geral [2]

Revelação Geral é aquela manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe e que Ele é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e justo. A revelação geral, ou natural, pode ser dividida em duas categorias: (1) interna, o senso inato da deidade e da consciência, e (2) externa, a natureza e a história da providência.

1.    Resumo das Posições.

(1) Alguns estudiosos negam completamente a realidade de qualquer revelação geral. Postulando uma distinção qualitativa infinita entre Deus e o homem, e a destruição da imago Dei pela queda, Karl Barth recusou-se a admitir qualquer revelação fora da Palavra de Deus. Para Barth, a revelação significa a encarnação da Palavra, do Verbo.

(2) Outros reconhecem que a revelação geral é uma realidade, mas negam que ela fica registrada como conhecimento concreto na mente dos não-regenerados, escurecida pelo pecado. Sendo assim, a escola de Kuyper, Berkouwer, Van Til e outros, dentro da Igreja Reformada Holandesa, insiste que a natureza e a história apontam para Deus somente na experiência daqueles cujo coração e mente tenham sido iluminados pela graça da regeneração.

(3) No outro extremo, muitos estudiosos liberais insistem que a luz derramada pela revelação geral é suficiente para a salvação. Uma tradição dentro dessa categoria focaliza a atenção no valor iluminador da experiência religiosa extática. Com modificações mínimas, Schleiermacher, Otto, Tillich e Rahner alegam que através de um encontro não-cognitivo e místico, a alma humana entra num contato salvífico com Deus, a Alma universal. Uma segunda tradição liberal alega que a mente humana, utilizando o método científico, é capaz de esmiuçar toda a verdade que o homem precisa para ordenar a sua vida. Nesse sentido, Henry P. Van Dusen, Harold DeWolf e outros argumentam que, posto que a ordem mundial é causada por Deus e reflete a Sua vontade, uma análise científica do homem e do seu meio-ambiente levará a Deus.

(4) Aquino e a tradição tomista declaram que a mente racional, ajudada pela analogia da existência entre Deus e o homem, e da lei da causa e do efeito, é capaz de comprovar a existência de Deus e a infinidade da Sua perfeição. Pela análise indutiva do mundo do espaço e do tempo, Aquino construiu um corpo notável de teologia natural. Embora fosse otimista a respeito da capacidade de o homem natural acumular conhecimentos sobre Deus, ele ressaltava que a salvação depende de verdades superiores transmitidas pela revelação especial.

(5) Autoridades como Agostinho, Lutero, Calvino, Hodge, Warfield e Henry argumentam a favor da realidade objetiva da revelação geral, e da sua utilidade limitada para transmitir um conhecimento elementar da existência e do caráter de Deus. Agostinho sustentava que existia uma intuição de Deus, capacitada pelo Logos, que servia como a base para adquirir mais conhecimentos mediante a inspeção racional do mundo dos fenômenos. Lutero reconhecia que "todos os homens têm o conhecimento geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que Ele castiga os iníquos, etc", Calvino insistiu, semelhantemente, que "até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e do céu, a subirem em direção ao Criador". Assim também registram a Confissão Belga (II) e a Confissão de Fé de Westminster (1,1).

2.    Dados Bíblicos

No A.T., o discurso de Eliú dirigido a Jó (esp. Jó 36.24-37.24) chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados estão presentes para todos contemplarem (Jó 36.25). Além disso, o discurso que Deus dirigiu a Jó (esp. Jó 38.1-39...) transmite a ideia de que  os fenômenos naturais (trovão, relâmpago, chuva, neve), o nascer do sol todas as manhãs, as constelações majestosas nos céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal, todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.

De acordo com Sl 19, Deus Se revela através de uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vv. 1-6) e o livro da lei (vv. 7-13). No primeiro volume, lemos: "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (v. 1). Aquilo que a ordem criada demonstra é a "glória" (kābôd), a saber: a manifestação externa daquilo que Deus é no Seu íntimo e dos Seus atributos. A revelação da glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (v. 2), muda ou inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4). Por Sab. [?] Sal. 13.5, fica claro que o judaismo acreditava numa revelação geral na natureza: "Pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor".

No prólogo do seu evangelho, João faz duas asseverações a respeito do Verbo eterno. Em primeiro lugar: "A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens" (1.4). E, em segundo lugar, o Verbo é "a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem" (1.9). Os gregos identificavam o Logos com o poder divino que energiza a vida intelectual e moral do homem. A sabedoria, o conceito judaico paralelo, era considerada como o poder de Deus operante no mundo para criar, iluminar e renovar (cf. Sab[?] Sal. 7.22-9.18). Parece provável, portanto, que em Jo 1.4,9 o apóstolo tenha em mente a obra universal do Logos mediante a qual a mente humana é divinamente iluminada para perceber a Deus como um princípio elementar, de modo semelhante ao "senso da divindade" ou "semente da religião" de Calvino.

Pregando aos gentios em Listra, Paulo e Barnabé apelaram aos conhecimentos que eles e seus ouvintes tinham em comum, como resultado da revelação geral: a saber, que Deus é o Criador de todas as coisas (At 14.15), e o provedor que supre todas as necessidades da vida (v. 17). Ao lidar bondosamente com a humanidade, Deus "não se deixou ficar sem testemunho (amarturon) de si mesmo" (v. 17). De modo semelhante, no seu discurso diante dos atenienses pagãos (At 17.24-31) Paulo se referiu, como ponto de contato, às verdades que o seu auditório conhecia em virtude da autorrevelação universal de Deus na natureza e na história. Essas verdades incluem:

1) Deus é o Criador e o Soberano do universo (At 17.24);

2) Ele é autossuficiente (v. 25a);

3) Ele é a fonte de toda a vida e de todo o bem (v. 25b);

4) Ele é um ser inteligente que formula planos (v. 26);

5) Ele é imanente no mundo (v. 27); e

6) Ele é a origem e o fundamento da existência humana (v. 28).

Em Rm 2.14-15, Paulo ensina que uma modalidade adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências morais.

O ensino mais claro no sentido de que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus como Criador ocorre em Rm 1.18-21. Paulo argumenta que mediante a revelação universal na natureza, Deus é "claramente reconhecido" (v. 20), "percebido" (v. 20) e "conhecido" (v. 19; cf. v. 21). Aquilo que o homem fica conhecendo é definido como o conjunto de atributos invisíveis de Deus Seu eterno poder e Sua natureza divina (theiotes - "divindade"). O substantivo grego theiotes significa a totalidade das perfeições que compõem a Deidade. Além disso, o apóstolo declara que esse conhecimento elementar de Deus é adquirido pela reflexão racional sobre a ordem criada (v. 20). A palavra ginoskō ("conhecer, saber") usada nos w. 19, 21 significa perceber com os sentidos e entender com a mente.

3.    Implicações

 As Escrituras ensinam que a reação correspondente do pecador quando é confrontado com o conteúdo da verdade da revelação geral é alijá-lo da sua consciência (Rm 1.21-32). A pessoa irregenerada, portanto, ao invés de adorar a Deus e obedecer-Lhe, assevera a sua própria autonomia e faz ídolos sem vida, passando, então, a venerá-los. Diante disso, Deus deliberadamente entrega o homem aos sórdidos impulsos da sua própria natureza pecaminosa (Rm 1.24, 26, 28). Ao invés de demonstrar-se salvadora, a revelação geral serve apenas para condenar o pecador e estabelecer sua condição de culpado diante de Deus (Rm 1.20).

Mesmo assim, a revelação geral serve para várias finalidades salutares.

(1) A lei moral implantada universalmente, fornece a única base autêntica pela qual se pode distinguir entre o bem e o mal. O fato de que o bem é recomendado e o mal é proibido fornece à sociedade a única estrutura viável para a sua existência.

(2) Visto que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus, a testemunha cristã tem certeza de que quando fala a um pecador, a noção de Deus não é um código sem sentido. E

(3) a revelação geral fornece a base racional para a revelação salvadora de Deus que nos é dada através de Cristo e da Bíblia. Nesse sentido, a teologia serve de vestíbulo para a teologia revelada.

Fonte:

DEMAREST, B. A. Revelação Geral. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pág. 303 a 305.


Notas:

  • [1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico, educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021. Acesso em: 24/02/2026.










[1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico, educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021. Acesso em: 24/02/2026.

8 de dezembro de 2025

Ética Social: breve análise teológica

 Por: David W. Gill

Resumo em áudio:

...

Capa do livro de D. W. Gill [1]

Sobre o assunto ética, já publicamos neste blog: Ética e  moral, Ética bíblica, Ética situacional, além de assuntos correlatos. E continuamos, desta vez, destacando o conceito de Ética social[2], à luz da Bíblia.

Entende-se por ética social o estudo das questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição, conforme elas surgem num contexto social.

1.    Introdução e Definição

O governo público, a política, as ciências econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime: estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua com estes campos correlatos.

Conforme acontece no caso de outros subcampos da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente (proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.

É impossível manter uma distinção clara e precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos (raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal focaliza o agente moral individual.

Como no caso da ética pessoal, a ética social dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir (decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.

Somente nestes últimos cem anos é que a ética chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi sugerido acima.

2.    Análise e Discernimento

A primeira tarefa da ética social cristã é a análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação a estas.

a)    A Revelação e a Observação

A análise ética social cristã avança numa dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social, mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios humanos.

b)   A Criação

Boa parte da ética social teológica tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou "esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus. Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia, raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".

Quer a ética social esteja fundamentada basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã (cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).

c)    A Queda

Por mais importante que a doutrina da criação seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade (Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação, divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.

Perspectivas posteriores no pensamento hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus. Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo, transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).

d)   Lei e Justiça

A ética social cristã, e na verdade toda ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino, João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).

De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã. "Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas, em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem divina e de solicitude humana.

e)   O Reino de Deus

Até os éticos sociais das ordens-da-criação mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre. A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas, o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho, Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e tudo o mais.

É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de "plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17) e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo, do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.

f)     Escatologia

A ética social cristã é fundamentalmente escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap 18) e da nova Jerusalém (Ap 21).

É neste juízo final que os principados e potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria, pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações. Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.

 

3.    A Estratégia e a Implementação

A primeira tarefa da ética social cristã, portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da estratégia e da implementação.

a)   Perspectivas Tradicionais

A reflexão contemporânea sobre como a convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da implementação das preocupações éticas sociais cristãs.

O livro de Troeltsch, The Social Teaching of the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs, com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária, anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo" é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem conversionista.

As tipologias sociais científicas e históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e “leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.

a)   A Oração e a Evangelização

Do ponto de vista da ética social bíblica, as atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações, intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.

Faz, também, parte básica do ponto de vista cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os agentes morais individuais.

b)   Comunidade Alternativa

Longe de se tratar de um afastamento irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios pelos quais esta estratégia pode ser empregada.

Comunidades cristãs alternativas têm uma relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeiro lugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundo lugar, a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo) contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades alternativas na sociedade. Em terceiro lugar, a comunidade cristã fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quarto lugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quinto lugar, a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de discernimento, mas também de ação social.

c)    A Participação Institucional

Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a convicção ética. A política eleitoral, as reformas legislativas, as ativações comerciais e profissionais e a educação pública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas por dois critérios. Em primeiro lugar, nenhum cristão está, em caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundo lugar, nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.

d)   Meios e Fins

A ética social bíblico-cristã, tanto no discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e fins.

Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Capa de Word of God in the Ethics of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
  • [2] GILL, David W. Ética Social. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág.  97 a 102 (Texto adaptado).