Um cidadão é uma pessoa que
pertence legalmente a um país e tem os direitos e a proteção desse país. Os
cidadãos adotam a cultura e as práticas da nação ou reino ao qual pertencem.
Todo ser humano nasce no reino deste mundo, no qual Satanás governa (2
Coríntios 4.4). Consequentemente, crescemos adotando a cultura, as práticas e
os valores que ele instiga (Gênesis 3.1; 1João 2.16).
O reino de Satanás escraviza
seus cidadãos (Romanos 6.16). Com corações e mentes obscurecidos, seguimos
cegamente nosso líder nos pecados que nos levam cada vez mais à escravidão.
Permanecemos cativos nesse reino do pecado, rumo à destruição, até que Jesus
nos liberte (Efésios 2.1-4). Filipenses 3.18-19 destaca as diferenças
entre aqueles que desejam ter comunhão com Jesus Cristo e aqueles que se
concentram em objetivos terrenos: "Pois muitos andam entre nós, dos
quais repetidas vezes eu lhes dizia e agora digo, até chorando, que são
inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o
ventre, e a glória deles está naquilo de que deviam se envergonhar, visto que
só pensam nas coisas terrenas." Aqueles que não conhecem a Cristo
vivem apenas para este mundo e para o prazer que podem encontrar para si
mesmos. Eles são "cidadãos" deste mundo e vivem de acordo com suas
regras e sistema de valores.
Quando nascemos de novo pela
fé em Jesus Cristo (João 3.3), nascemos no Reino dos Céus (Mateus 3.2; 7.21; Romanos
14.17). Falando sobre aqueles que tiveram esse renascimento espiritual, Filipenses
3.20 diz: "Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também
aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo". Jesus passou grande
parte de Seu ministério terreno explicando o Reino dos Céus (Mateus 4.17). Ele
o comparou a muitas coisas, inclusive a um campo de trigo no qual as ervas
daninhas cresciam junto com o trigo. As plantas pareciam idênticas no início,
mas foram separadas na colheita. A verdade é que, muitas vezes, os cidadãos do
céu e os deste mundo parecem idênticos, e ninguém além de Deus sabe a diferença
(Romanos 8.19). Muitas pessoas podem parecer cidadãos do céu, quando, na
verdade, nunca houve renascimento em seus corações (Mateus 7.21).
Quando Deus nos concede a
cidadania no Reino dos Céus, nos tornamos "novas criaturas" (2Coríntios
5.17). Ele envia Seu Espírito Santo para habitar em nosso espírito, e nosso
corpo se torna Seu templo (1Coríntios 3.16; 6.19-20). O Espírito Santo
começa a transformar nossos desejos pecaminosos e mundanos naqueles que
glorificam a Deus (Romanos 12.1-2). Seu objetivo é nos tornar o mais parecido
possível com Jesus nesta vida (Romanos 8.29). Recebemos o poder e o privilégio
de sair do sistema de valores falho do mundo e viver para a eternidade (1João 2.15-17).
Ser adotado na família de Deus significa que nos tornamos cidadãos de um reino
eterno onde nosso Pai é o Rei. Nosso foco se volta para as coisas eternas e
para o acúmulo de tesouros no céu (Mateus 6.19-20). Consideramo-nos
embaixadores nesta Terra até que nosso Pai nos mande buscar e voltemos para
casa (Efésios 2.18-19; 6.20).
Vivemos por um curto
período de tempo nesses corpos físicos, antecipando o futuro brilhante em nosso
verdadeiro lar. Enquanto estamos aqui, compartilhamos a experiência de Abraão,
vivendo "como em terra alheia... Porque Abraão aguardava a
cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor" (Hebreus
11.9-10).
Fonte:
GOT Questions. O que significa o fato de nossa cidadania estar no céu?. Disponível em: <https://www.gotquestions.org/Portugues/cidadania-no-ceu.html>. Acesso em: 10/06/2026 - Texto adaptado.
A
cultura do cancelamento é a atitude social moderna de que o discurso ou o
comportamento polêmico deve ser punido por meio de vergonha pública,
silenciamento, boicote, demissão, falência, deplantação, etc. O resultado é que
a influência, a presença e/ou a reputação do infrator é "cancelada".
É
apropriado que os denunciantes revelem a corrupção e a ilegalidade ou que as
mulheres vítimas de abuso se apresentem, confrontem seu agressor e garantam que
ele seja responsabilizado. Mas a cultura do cancelamento vai muito além disso,
estabelecendo novas regras para retaliar o discurso, o comportamento ou até
mesmo o pensamento que tenha sido pré-julgado como "ofensivo" ou até
mesmo simplesmente controverso. Na cultura do cancelamento, as pessoas podem
ser condenadas ao ostracismo, ter suas reputações manchadas e suas carreiras
arruinadas, embora não tenham violado nenhuma lei ou se envolvido em qualquer
comportamento malicioso.
A
cultura do cancelamento é o resultado de duas outras coisas igualmente
perigosas: o politicamente correto e o pós-modernismo. O politicamentecorreto
é a tentativa de minimizar a ofensa social e institucional por meio do
policiamento do discurso (e, portanto, do pensamento), forçando o uso de certas
palavras e proibindo outras. O pós-modernismo afirma que todas as alegações de
verdade são subjetivas. A verdade se torna uma questão de preferência, e a
"tolerância" é promovida como um valor supremo. No entanto, quanto
mais "tolerante" uma cultura se torna, mais intolerante ela é em
relação a qualquer pessoa que ela considere intolerante. As pessoas consideradas
"intolerantes" ou com potencial de ofender devem ser silenciadas - e
o resultado é a cultura do cancelamento.
A
cultura do cancelamento está associada a vários problemas que podem ser
tratados biblicamente:
1) A
cultura do cancelamento é precipitada. Há pouca preocupação com o
devido processo legal e, em seu lugar, há indignação imediata e julgamentos
precipitados. O que alimenta a controvérsia são informações parciais, muitas
vezes tendenciosas. A Bíblia ordena: "Faça plana a vereda de seus pés,
para que todos os seus caminhos sejam retos" (Provérbios 4:26), e
devemos "viver com sensatez" (Tito 2:12). O pensamento irracional e a
mentalidade de multidão não têm lugar na vida do cristão.
2) A
cultura do cancelamento é rancorosa. O desprezo vitriólico que vem do
grupo de cancelamento é, muitas vezes, chocantemente feio. Selecionar uma
pessoa para "cancelamento" parece ser o mesmo que declarar que essa
pessoa é digna de ódio e, com isso, vem a permissão para difamá-la. Em
contraste com a promoção da maldade da cultura do cancelamento, Jesus nos
ordena: "amem os seus inimigos, façam o bem aos que odeiam vocês.
Abençoem aqueles que os amaldiçoam, orem pelos que maltratam vocês" (Lucas
6:27-28). Nosso discurso deve ser "gracioso e atraente" (Colossenses
4:6). O discurso perverso, obsceno ou cheio de ódio não tem lugar na vida do
cristão.
3) A
cultura do cancelamento é julgadora. Os autoproclamados defensores do
discurso "aceitável" têm se esforçado muito para encontrar material
sobre o qual possam cancelar outros. Pessoas perderam seus empregos por causa
de artigos escritos há três décadas, piadas contadas na juventude, literatura
clássica lida em voz alta e editoriais contrários publicados. Não há espaço
para o inconformismo - ou para a liberdade de expressão. Se a polícia
linguística fosse julgada por seu próprio padrão severo, quantos deles
continuariam sem ser cancelados? As escrituras advertem contra o julgamento
hipócrita (Mateus 7:1). A hipocrisia ou um espírito hipercrítico e de busca de
falhas não tem lugar na vida do cristão.
4) A
cultura do cancelamento não perdoa. Casos passados de discurso ou
ações inapropriados ou ofensivos, não importa há quanto tempo, não são
perdoados na cultura do cancelamento. Uma vez que uma pessoa é cancelada, não
há como restaurá-la às boas graças da sociedade - não há graça. Não há chance
de redenção. A reabilitação e a restauração não são o objetivo, tampouco
aprender com os próprios erros. O objetivo é manchar, difamar e caluniar. A
Bíblia aponta para o arrependimento e nos ordena a perdoar uns aos outros:
"Suportem-se uns aos outros e perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha
motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês,
perdoem também uns aos outros" (Colossenses 3:13). Uma atitude sem
perdão e sem amor não tem lugar na vida do cristão.
Em
meio à cultura do cancelamento, devemos usar nossas palavras com sabedoria. Os
crentes devem "buscar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e
a mansidão" (1 Timóteo 6:11). Devemos "seguir a verdade em amor,
crescendo em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Efésios 4:15). E
devemos continuar a rejeitar o ódio e amar os outros, até mesmo nossos inimigos
(1 João 4:7; Mateus 5:43-48).
A
cultura do cancelamento vê as pessoas com as quais uma pluralidade de pessoas
discorda como irredimíveis e dignas de desprezo. A cultura cristã não vê
ninguém como irredimível. O arrependimento e a mudança são sempre possíveis, e
o perdão está disponível. A cultura cristã não vê ninguém como um objeto de
desprezo. O amor de Deus está sempre disponível. Não há causas perdidas.
Fonte:
GOTquestions. Como os cristãos devem reagir à cultura do cancelamento?. In: <https://www.gotquestions.org/Portugues/cultura-do-cancelamento.html>. Acesso em 13/05/2026
Logos[1]. O termo grego mais comum
aplicado a “palavra” no NT; ocasionalmente com outros significados (e.g.,
"relato", "raciocínio", "motivo"); especificamente
no prólogo do quarto evangelho (Jo 1.1,14) e talvez em outros escritos joaninos
(1 Jo 1.1; Ap 19.13) é usado a respeito da segunda Pessoa da Trindade. Na
linguagem grega comum também significa "razão".
1.O Uso Joanino
Segundo João 1.1-8, o Logos já estava presente
na criação ("no princípio" refere-se a Gn 1.1), no mais estreito
relacionamento com Deus ("com" = pros, não meta nem syn).
Na realidade, o Logos era Deus (não "divino" como Moffatt – o predicado
sem artigo é gramaticalmente exigido, mas também pode indicar uma distinção
entre as pessoas). Este relacionamento com Deus estava em vigor no momento da
Criação (1.2). Toda a obra da criação foi levada a efeito através
("por" = v. 3) do Logos. Sendo a fonte da vida (1.4, pontuação
provável), e a luz do mundo (cf. 9.5), e de todo homem (1.9, pontuação
provável), e ainda continuando (tempo presente em 1.5) esta obra, o Logos
encarnou-Se, revelando o sinal da presença de Deus e a Sua natureza (1.14).
O prólogo, portanto, revela três facetas
principais do Logos e de Sua atividade: Sua divindade e relacionamento íntimo
com o Pai; Sua obra como agente da criação; Sua encarnação.
Em 1 Jo 1.1 "o Logos da vida", visto,
ouvido e tocado, pode referir-se ao Cristo pessoal da pregação apostólica, ou
impessoalmente à mensagem a respeito dele. Ap 19.12, retrata Cristo como um
general vencedor chamado o Logos de Deus. Como em Hb 4.12, é o quadro
veterotestamentário dos efeitos esmagadores da palavra de Deus (cf. a linguagem
figurada do v. 15) que está em mente.
2.Pano de Fundo do Termo
No Antigo Testamento, vários fatores oferecem
algum preparo para o uso em João. Deus cria mediante a palavra (Gn 1.3; SI
33.9) e Sua palavra, às vezes, é referida semi-pessoalmente (SI 107.20; 147.15,18);
é ativa, dinâmica e obtém os resultados pretendidos (Is 50.10-11). A sabedoria
de Deus é personificada (Pv 8 - note especialmente os vv. 22ss, a respeito da
obra da sabedoria na criação). O Anjo do Senhor, às vezes, é referido como
Deus, às vezes como diferente dEle (cf. Jz 2.1). O nome de Deus é semi-personalizado
(Ez 23.21; 1 Rs 8.29).
O JudaísmoPalestino. Além da
personificação da sabedoria (cf. Eclesiástico 24) os rabinos usavam a palavra më'mrä,
"palavra", como perífrase de "Deus". Este uso ocorre nos
targuns.
A FilosofiaGrega. Entre os
filósofos, o significado de Logos varia, mas, em geral, representa
"razão" e reflete a convicção grega de que a divindade não pode
entrar em contato direto com a matéria. O Logos é um para-choque entre Deus e o
universo, e a manifestação do princípio divino no mundo. Na tradição estoica, o
Logos é tanto a razão divina quanto a razão distribuída no mundo (e, portanto,
na mente).
O JudaísmoHelenístico. No
judaísmo alexandrino havia plena personificação do verbo na Criação (Sab. Sal.
9.1; 16.12). Nos escritos de Filo que, embora fosse judeu, bebeu profundamente
do platonismo e do estoicismo, o termo aparece mais de 1300 vezes. O Logos é
"a imagem" (Cl 1.15); a primeira forma (prötogonos), a
representação (charaktër, cf. Hb 1.3), de Deus; e até mesmo um
"Segundo Deus" (deuterostheos; cf. Eusébio, PraeparatioEvangelica vii. 13); o meio pelo qual Deus cria o mundo a partir da
grande desolação; e, além disso, o meio pelo qual Deus é conhecido (isto é, com
a mente. O conhecimento mais estreito podia ser recebido diretamente, em
êxtase).
A LiteraturaHermética. Logos
ocorre frequentemente na literatura hermética. Embora sejam pós-cristãos, estes
escritos são influenciados pelo judaísmo helenístico Indicam a doutrina do
Logos, em termos semelhantes aos de Filo, nos círculos místicos pagãos.
OrigensdaDoutrinadeJoão. João 1 é radicalmente distinto do uso filosófico. Para os gregos,
Logos era essencialmente razão; para João, essencialmente palavra. A linguagem
que Filo e o NT têm em comum levou muitos a considerarem que João dependia de
Filo. Mas o Logos de Filo é naturalmente referido como neutro, ao passo que o
Logos de João é "Ele". Filo não se aproximou mais do que Platão de um
Logos que talvez fosse encarnado, e não faz identificação alguma entre Logos e
Messias. O Logos de João não é apenas o agente de Deus na criação; Ele é Deus e
Se torna encarnado, revelando e redimindo.
O më'mra rabínico dificilmente é mais do que
uma substituição reverente do nome divino; não é um conceito suficientemente
substancial; nem é provável algum contato direto com os círculos herméticos.
A origem da doutrina do Logos em João acha-se
na Pessoa e na obra do Cristo histórico. "Jesus não deve ser
interpretado pelo Logos: Logos é inteligível somente à medida que pensamos em
Jesus" (W. F. Howard, IB, VIII, 442). Sua expressão é apropriada
principalmente devido à conotação veterotestamentária de "palavra" e
da sua personificação da sabedoria. Cristo é o Verbo ativo de Deus, Sua
revelação salvífica ao homem decaído. Não é por acidente que tanto o evangelho
quanto Cristo, que é o assunto do evangelho, sejam chamados "a
palavra". Mas o uso de "Logos" no mundo helenístico
contemporâneo tornou-o um conceito útil para "construir pontes".
Em duas passagens no NT onde Cristo é descrito
em termos que relembram o Logos de Filo, a palavra "Logos" está
ausente (Cl 1.15-17; Hb 1.3). Sua introdução à linguagem cristã tem sido
atribuída a Apolo.
3.Logos no Uso Cristão Primitivo
Os apologistas acharam Logos um termo
conveniente para expor o cristianismo aos pagãos. Usavam seu sentido de
"razão", e alguns chegaram, assim, a ver a filosofia como uma
preparação para o evangelho. As implicações hebraicas de "palavra"
eram desenfatizadas, mas nunca totalmente perdidas. Alguns teólogos distinguiam
entre o Logosendiathetos, ou Palavra latente na Deidade desde a
eternidade, e o logosprophorikos, que foi pronunciado e se
tornou eficaz na criação. Orígenes parece ter usado a linguagem do deuterostheos, de Filo. Nas principais controvérsias cristológicas, no entanto,
o uso do termo não esclareceu as questões principais, e não ocorre nos grandes
credos.
Por: A. F. WALLSParte inferior do formulário
Notas / Fonte:
[1]Andrew Finlay Walls (1928–2021): “...foi um influente historiador britânico e pioneiro nos estudos do Cristianismo Mundial e da história da igreja africana. Ele lecionou em diversas universidades, incluindo Aberdeen e Edimburgo, sendo fundamental na compreensão da mudança do centro de gravidade do cristianismo do Ocidente para o hemisfério sul” (Wikipedia). Acesso, via I.A., em: 06/03/2026.
[2] WALLS, A. F. Logos.
In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São
Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. II (Pág. 449 a 450 – Texto adaptado).
RevelaçãoGeral é aquela
manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e
lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora
não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a
expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe e que Ele
é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e
justo. A revelação geral, ou natural, pode ser dividida em duas categorias: (1)
interna, o senso inato da deidade e da consciência, e (2) externa, a natureza e
a história da providência.
1.Resumo das Posições.
(1) Alguns estudiosos negam completamente a
realidade de qualquer revelação geral. Postulando uma distinção qualitativa
infinita entre Deus e o homem, e a destruição da imago Dei pela queda, Karl
Barth recusou-se a admitir qualquer revelação fora da Palavra de Deus. Para
Barth, a revelação significa a encarnação da Palavra, do Verbo.
(2) Outros reconhecem que a revelação geral é
uma realidade, mas negam que ela fica registrada como conhecimento concreto na
mente dos não-regenerados, escurecida pelo pecado. Sendo assim, a escola de
Kuyper, Berkouwer, Van Til e outros, dentro da Igreja Reformada Holandesa,
insiste que a natureza e a história apontam para Deus somente na experiência
daqueles cujo coração e mente tenham sido iluminados pela graça da regeneração.
(3) No outro extremo, muitos estudiosos
liberais insistem que a luz derramada pela revelação geral é suficiente para a
salvação. Uma tradição dentro dessa categoria focaliza a atenção no valor
iluminador da experiência religiosa extática. Com modificações mínimas,
Schleiermacher, Otto, Tillich e Rahner alegam que através de um encontro
não-cognitivo e místico, a alma humana entra num contato salvífico com Deus, a
Alma universal. Uma segunda tradição liberal alega que a mente humana,
utilizando o método científico, é capaz de esmiuçar toda a verdade que o homem
precisa para ordenar a sua vida. Nesse sentido, Henry P. Van Dusen, Harold
DeWolf e outros argumentam que, posto que a ordem mundial é causada por Deus e
reflete a Sua vontade, uma análise científica do homem e do seu meio-ambiente
levará a Deus.
(4) Aquino e a tradição tomista declaram que a
mente racional, ajudada pela analogia da existência entre Deus e o homem, e da
lei da causa e do efeito, é capaz de comprovar a existência de Deus e a
infinidade da Sua perfeição. Pela análise indutiva do mundo do espaço e do
tempo, Aquino construiu um corpo notável de teologia natural. Embora fosse
otimista a respeito da capacidade de o homem natural acumular conhecimentos
sobre Deus, ele ressaltava que a salvação depende de verdades superiores
transmitidas pela revelação especial.
(5) Autoridades como Agostinho, Lutero,
Calvino, Hodge, Warfield e Henry argumentam a favor da realidade objetiva da
revelação geral, e da sua utilidade limitada para transmitir um conhecimento
elementar da existência e do caráter de Deus. Agostinho sustentava que existia
uma intuição de Deus, capacitada pelo Logos, que servia como a base para
adquirir mais conhecimentos mediante a inspeção racional do mundo dos
fenômenos. Lutero reconhecia que "todos os homens têm o conhecimento
geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que
Ele castiga os iníquos, etc", Calvino insistiu, semelhantemente, que
"até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e
do céu, a subirem em direção ao Criador". Assim também registram a
Confissão Belga (II) e a Confissão de Fé de Westminster (1,1).
2.Dados Bíblicos
No A.T., o discurso de Eliú dirigido a Jó (esp.
Jó 36.24-37.24) chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios
que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do
sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o
poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados
estão presentes para todos contemplarem (Jó 36.25). Além disso, o discurso que
Deus dirigiu a Jó (esp. Jó 38.1-39...) transmite a ideia de que os fenômenos naturais (trovão, relâmpago,
chuva, neve), o nascer do sol todas as manhãs, as constelações majestosas nos
céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal,
todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.
De acordo com Sl 19, Deus Se revela através de
uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vv. 1-6) e o livro da lei (vv.
7-13). No primeiro volume, lemos: "Os céus proclamam a glória de Deus e
o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (v. 1). Aquilo que a
ordem criada demonstra é a "glória" (kābôd), a saber: a manifestação
externa daquilo que Deus é no Seu íntimo e dos Seus atributos. A revelação da
glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (v. 2), muda ou
inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4). Por Sab. [?] Sal. 13.5, fica
claro que o judaismo acreditava numa revelação geral na natureza: "Pois
a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor".
No prólogo do seu evangelho, João faz duas
asseverações a respeito do Verbo eterno. Em primeiro lugar: "A vida
estava nele, e a vida era a luz dos homens" (1.4). E, em segundo
lugar, o Verbo é "a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo
homem" (1.9). Os gregos identificavam o Logos com o poder divino que
energiza a vida intelectual e moral do homem. A sabedoria, o conceito judaico
paralelo, era considerada como o poder de Deus operante no mundo para criar,
iluminar e renovar (cf. Sab[?] Sal. 7.22-9.18). Parece provável, portanto, que
em Jo 1.4,9 o apóstolo tenha em mente a obra universal do Logos mediante a qual
a mente humana é divinamente iluminada para perceber a Deus como um princípio
elementar, de modo semelhante ao "senso da divindade" ou
"semente da religião" de Calvino.
Pregando aos gentios em Listra, Paulo e Barnabé
apelaram aos conhecimentos que eles e seus ouvintes tinham em comum, como
resultado da revelação geral: a saber, que Deus é o Criador de todas as coisas
(At 14.15), e o provedor que supre todas as necessidades da vida (v. 17). Ao
lidar bondosamente com a humanidade, Deus "não se deixou ficar sem
testemunho (amarturon) desimesmo" (v.
17). De modo semelhante, no seu discurso diante dos atenienses pagãos (At
17.24-31) Paulo se referiu, como ponto de contato, às verdades que o seu
auditório conhecia em virtude da autorrevelação universal de Deus na natureza e
na história. Essas verdades incluem:
1)
Deus é o Criador e o Soberano do universo (At 17.24);
2)
Ele é autossuficiente (v. 25a);
3)
Ele é a fonte de toda a vida e de todo o bem (v. 25b);
4)
Ele é um ser inteligente que formula planos (v. 26);
5)
Ele é imanente no mundo (v. 27); e
6)
Ele é a origem e o fundamento da existência humana (v. 28).
Em Rm 2.14-15, Paulo ensina que uma modalidade
adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá
testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados
por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei
escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral
escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional
mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências
morais.
O ensino mais claro no sentido de que todas as
pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus como Criador ocorre em Rm
1.18-21. Paulo argumenta que mediante a revelação universal na natureza, Deus é
"claramente reconhecido" (v. 20), "percebido" (v. 20) e
"conhecido" (v. 19; cf. v. 21). Aquilo que o homem fica conhecendo é
definido como o conjunto de atributos invisíveis de Deus Seu eterno poder e Sua
natureza divina (theiotes - "divindade"). O substantivo grego theiotes
significa a totalidade das perfeições que compõem a Deidade. Além disso, o
apóstolo declara que esse conhecimento elementar de Deus é adquirido pela
reflexão racional sobre a ordem criada (v. 20). A palavra ginoskō
("conhecer, saber") usada nos w. 19, 21 significa perceber com os
sentidos e entender com a mente.
3.Implicações
As
Escrituras ensinam que a reação correspondente do pecador quando é confrontado
com o conteúdo da verdade da revelação geral é alijá-lo da sua consciência (Rm
1.21-32). A pessoa irregenerada, portanto, ao invés de adorar a Deus e
obedecer-Lhe, assevera a sua própria autonomia e faz ídolos sem vida, passando,
então, a venerá-los. Diante disso, Deus deliberadamente entrega o homem aos
sórdidos impulsos da sua própria natureza pecaminosa (Rm 1.24, 26, 28). Ao
invés de demonstrar-se salvadora, a revelação geral serve apenas para condenar
o pecador e estabelecer sua condição de culpado diante de Deus (Rm 1.20).
Mesmo assim, a revelação geral serve para
várias finalidades salutares.
(1)
A lei moral implantada universalmente, fornece a única base autêntica pela qual
se pode distinguir entre o bem e o mal. O fato de que o bem é recomendado e o
mal é proibido fornece à sociedade a única estrutura viável para a sua
existência.
(2)
Visto que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus, a
testemunha cristã tem certeza de que quando fala a um pecador, a noção de Deus
não é um código sem sentido. E
(3)
a revelação geral fornece a base racional para a revelação salvadora de Deus
que nos é dada através de Cristo e da Bíblia. Nesse sentido, a teologia serve
de vestíbulo para a teologia revelada.
Fonte:
DEMAREST, B. A. RevelaçãoGeral.
In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia
Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São
Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pág. 303 a 305.
Notas:
[1]Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico,
educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à
teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos
Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021.
Acesso em: 24/02/2026.
[1]Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico,
educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à
teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos
Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021.
Acesso em: 24/02/2026.
Entende-se por ética social o estudo das
questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição,
conforme elas surgem num contexto social.
1.Introdução e Definição
O governo público, a política, as ciências
econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime:
estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode
ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste
com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a
ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que
deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o
presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência
sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua
com estes campos correlatos.
Conforme acontece no caso de outros subcampos
da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual
é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente
(proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de
resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento
ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o
problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema
da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática
existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social
existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais
estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.
É impossível manter uma distinção clara e
precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo
comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema
social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é
útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos
aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos
(raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal
focaliza o agente moral individual.
Como no caso da ética pessoal, a ética social
dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem
um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O
primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir
(decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas
éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a
ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de
atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem
ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e
estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente
em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são
atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.
Somente nestes últimos cem anos é que a ética
chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos
de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no
entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as
partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria
dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil
anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente
este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas
Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser
afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E
deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi
sugerido acima.
2.Análise e Discernimento
A primeira tarefa da ética social cristã é a
análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação
a estas.
a)A
Revelação e a Observação
A análise ética social cristã avança numa
dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a
observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo
dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças
e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as
correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos
e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados
pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando
Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos
discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não
somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social,
mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam
despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a
ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em
geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios
humanos.
b)A Criação
Boa parte da ética social teológica
tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou
"esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do
casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até
mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação
bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou
esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético
correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus.
Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que
os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia,
raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".
Quer a ética social esteja fundamentada
basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação
bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã
(cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra
de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação
social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem
esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que
estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por
esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma
parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de
criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).
c)A Queda
Por mais importante que a doutrina da criação
seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente
importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus
e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na
divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A
saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria
cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade
(Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas
características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação,
divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.
Perspectivas posteriores no pensamento
hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade
dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus.
Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco
corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma
questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o
dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os
homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a
história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de
pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo,
transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).
d)Lei e Justiça
A ética social cristã, e na verdade toda
ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua
institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada
e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino,
João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social
cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em
que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da
Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e
no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).
De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o
juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã.
"Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque
estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz
justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais
importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as
justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui
o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas,
em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã
deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem
divina e de solicitude humana.
e)O Reino de Deus
Até os éticos sociais das ordens-da-criação
mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na
sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou
deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o
reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes
mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre.
A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas,
o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si
neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o
reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho,
Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes
resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã
entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e
tudo o mais.
É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é
mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as
demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de
"plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e
discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17)
e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no
sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem
qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da
inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais
da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre
as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo,
do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e
aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros
que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.
f)Escatologia
A ética social cristã é fundamentalmente
escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e
completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova
criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está
verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus
Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o
futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção
à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas
razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o
juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap
18) e da nova Jerusalém (Ap 21).
É neste juízo final que os principados e
potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus
Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os
expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a
habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter
permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria,
pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e
apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência
e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde
habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam
satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem
de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações.
Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social
bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no
discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.
3.A Estratégia e a Implementação
A primeira tarefa da ética social cristã,
portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da
história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A
segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou
seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da
estratégia e da implementação.
a)Perspectivas Tradicionais
A reflexão contemporânea sobre como a
convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido
grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl
Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta
reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst
Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do
carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e
o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo
do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de
partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da
implementação das preocupações éticas sociais cristãs.
O livro de Troeltsch, The Social Teaching of
the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs,
com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e
associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de
Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates
atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária,
anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem
acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás
de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo"
é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o
transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem
conversionista.
As tipologias sociais científicas e
históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições
individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e
“leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões
do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente
transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão
sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas
por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.
a)A Oração e a Evangelização
Do ponto de vista da ética social bíblica, as
atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como
estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã
está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo
menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações,
intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive
por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é
uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.
Faz, também, parte básica do ponto de vista
cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e
mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética
social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela
faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade
coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a
mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os
agentes morais individuais.
b)Comunidade Alternativa
Longe de se tratar de um afastamento
irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma
comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação
da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no
seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos
políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios
pelos quais esta estratégia pode ser empregada.
Comunidades cristãs alternativas têm uma
relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeirolugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e
discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da
comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às
questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundolugar,
a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo)
contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências
totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades
alternativas na sociedade. Em terceirolugar, a comunidade cristã
fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas
sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quartolugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas
formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quintolugar,
a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas
estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de
discernimento, mas também de ação social.
c)A Participação Institucional
Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e
outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e
instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível
para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas
circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são
convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado
considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a
convicção ética. A políticaeleitoral, as reformaslegislativas,
as ativaçõescomerciais e profissionais e a educaçãopública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse
necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas
por dois critérios. Em primeirolugar, nenhum cristão está, em
caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa
obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundolugar,
nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor
unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o
mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre
lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.
d)Meios e Fins
A ética social bíblico-cristã, tanto no
discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como
ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as
consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em
especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados
nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é
chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos
afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de
bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios
pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade
e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que
é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e
fins.
Notas / Referências bibliográficas:
[1]Capa de Word of God in the Ethics
of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David
W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e
palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de
trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
[2] GILL, David W. Ética Social.
In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São
Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 97 a 102
(Texto adaptado).