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2 de março de 2026

Revelação Geral

Por: Bruce B. Demarest [[1]]

Revelação Geral [2]

Revelação Geral é aquela manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe e que Ele é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e justo. A revelação geral, ou natural, pode ser dividida em duas categorias: (1) interna, o senso inato da deidade e da consciência, e (2) externa, a natureza e a história da providência.

1.    Resumo das Posições.

(1) Alguns estudiosos negam completamente a realidade de qualquer revelação geral. Postulando uma distinção qualitativa infinita entre Deus e o homem, e a destruição da imago Dei pela queda, Karl Barth recusou-se a admitir qualquer revelação fora da Palavra de Deus. Para Barth, a revelação significa a encarnação da Palavra, do Verbo.

(2) Outros reconhecem que a revelação geral é uma realidade, mas negam que ela fica registrada como conhecimento concreto na mente dos não-regenerados, escurecida pelo pecado. Sendo assim, a escola de Kuyper, Berkouwer, Van Til e outros, dentro da Igreja Reformada Holandesa, insiste que a natureza e a história apontam para Deus somente na experiência daqueles cujo coração e mente tenham sido iluminados pela graça da regeneração.

(3) No outro extremo, muitos estudiosos liberais insistem que a luz derramada pela revelação geral é suficiente para a salvação. Uma tradição dentro dessa categoria focaliza a atenção no valor iluminador da experiência religiosa extática. Com modificações mínimas, Schleiermacher, Otto, Tillich e Rahner alegam que através de um encontro não-cognitivo e místico, a alma humana entra num contato salvífico com Deus, a Alma universal. Uma segunda tradição liberal alega que a mente humana, utilizando o método científico, é capaz de esmiuçar toda a verdade que o homem precisa para ordenar a sua vida. Nesse sentido, Henry P. Van Dusen, Harold DeWolf e outros argumentam que, posto que a ordem mundial é causada por Deus e reflete a Sua vontade, uma análise científica do homem e do seu meio-ambiente levará a Deus.

(4) Aquino e a tradição tomista declaram que a mente racional, ajudada pela analogia da existência entre Deus e o homem, e da lei da causa e do efeito, é capaz de comprovar a existência de Deus e a infinidade da Sua perfeição. Pela análise indutiva do mundo do espaço e do tempo, Aquino construiu um corpo notável de teologia natural. Embora fosse otimista a respeito da capacidade de o homem natural acumular conhecimentos sobre Deus, ele ressaltava que a salvação depende de verdades superiores transmitidas pela revelação especial.

(5) Autoridades como Agostinho, Lutero, Calvino, Hodge, Warfield e Henry argumentam a favor da realidade objetiva da revelação geral, e da sua utilidade limitada para transmitir um conhecimento elementar da existência e do caráter de Deus. Agostinho sustentava que existia uma intuição de Deus, capacitada pelo Logos, que servia como a base para adquirir mais conhecimentos mediante a inspeção racional do mundo dos fenômenos. Lutero reconhecia que "todos os homens têm o conhecimento geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que Ele castiga os iníquos, etc", Calvino insistiu, semelhantemente, que "até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e do céu, a subirem em direção ao Criador". Assim também registram a Confissão Belga (II) e a Confissão de Fé de Westminster (1,1).

2.    Dados Bíblicos

No A.T., o discurso de Eliú dirigido a Jó (esp. Jó 36.24-37.24) chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados estão presentes para todos contemplarem (Jó 36.25). Além disso, o discurso que Deus dirigiu a Jó (esp. Jó 38.1-39...) transmite a ideia de que  os fenômenos naturais (trovão, relâmpago, chuva, neve), o nascer do sol todas as manhãs, as constelações majestosas nos céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal, todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.

De acordo com Sl 19, Deus Se revela através de uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vv. 1-6) e o livro da lei (vv. 7-13). No primeiro volume, lemos: "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (v. 1). Aquilo que a ordem criada demonstra é a "glória" (kābôd), a saber: a manifestação externa daquilo que Deus é no Seu íntimo e dos Seus atributos. A revelação da glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (v. 2), muda ou inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4). Por Sab. [?] Sal. 13.5, fica claro que o judaismo acreditava numa revelação geral na natureza: "Pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor".

No prólogo do seu evangelho, João faz duas asseverações a respeito do Verbo eterno. Em primeiro lugar: "A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens" (1.4). E, em segundo lugar, o Verbo é "a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem" (1.9). Os gregos identificavam o Logos com o poder divino que energiza a vida intelectual e moral do homem. A sabedoria, o conceito judaico paralelo, era considerada como o poder de Deus operante no mundo para criar, iluminar e renovar (cf. Sab[?] Sal. 7.22-9.18). Parece provável, portanto, que em Jo 1.4,9 o apóstolo tenha em mente a obra universal do Logos mediante a qual a mente humana é divinamente iluminada para perceber a Deus como um princípio elementar, de modo semelhante ao "senso da divindade" ou "semente da religião" de Calvino.

Pregando aos gentios em Listra, Paulo e Barnabé apelaram aos conhecimentos que eles e seus ouvintes tinham em comum, como resultado da revelação geral: a saber, que Deus é o Criador de todas as coisas (At 14.15), e o provedor que supre todas as necessidades da vida (v. 17). Ao lidar bondosamente com a humanidade, Deus "não se deixou ficar sem testemunho (amarturon) de si mesmo" (v. 17). De modo semelhante, no seu discurso diante dos atenienses pagãos (At 17.24-31) Paulo se referiu, como ponto de contato, às verdades que o seu auditório conhecia em virtude da autorrevelação universal de Deus na natureza e na história. Essas verdades incluem:

1) Deus é o Criador e o Soberano do universo (At 17.24);

2) Ele é autossuficiente (v. 25a);

3) Ele é a fonte de toda a vida e de todo o bem (v. 25b);

4) Ele é um ser inteligente que formula planos (v. 26);

5) Ele é imanente no mundo (v. 27); e

6) Ele é a origem e o fundamento da existência humana (v. 28).

Em Rm 2.14-15, Paulo ensina que uma modalidade adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências morais.

O ensino mais claro no sentido de que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus como Criador ocorre em Rm 1.18-21. Paulo argumenta que mediante a revelação universal na natureza, Deus é "claramente reconhecido" (v. 20), "percebido" (v. 20) e "conhecido" (v. 19; cf. v. 21). Aquilo que o homem fica conhecendo é definido como o conjunto de atributos invisíveis de Deus Seu eterno poder e Sua natureza divina (theiotes - "divindade"). O substantivo grego theiotes significa a totalidade das perfeições que compõem a Deidade. Além disso, o apóstolo declara que esse conhecimento elementar de Deus é adquirido pela reflexão racional sobre a ordem criada (v. 20). A palavra ginoskō ("conhecer, saber") usada nos w. 19, 21 significa perceber com os sentidos e entender com a mente.

3.    Implicações

 As Escrituras ensinam que a reação correspondente do pecador quando é confrontado com o conteúdo da verdade da revelação geral é alijá-lo da sua consciência (Rm 1.21-32). A pessoa irregenerada, portanto, ao invés de adorar a Deus e obedecer-Lhe, assevera a sua própria autonomia e faz ídolos sem vida, passando, então, a venerá-los. Diante disso, Deus deliberadamente entrega o homem aos sórdidos impulsos da sua própria natureza pecaminosa (Rm 1.24, 26, 28). Ao invés de demonstrar-se salvadora, a revelação geral serve apenas para condenar o pecador e estabelecer sua condição de culpado diante de Deus (Rm 1.20).

Mesmo assim, a revelação geral serve para várias finalidades salutares.

(1) A lei moral implantada universalmente, fornece a única base autêntica pela qual se pode distinguir entre o bem e o mal. O fato de que o bem é recomendado e o mal é proibido fornece à sociedade a única estrutura viável para a sua existência.

(2) Visto que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus, a testemunha cristã tem certeza de que quando fala a um pecador, a noção de Deus não é um código sem sentido. E

(3) a revelação geral fornece a base racional para a revelação salvadora de Deus que nos é dada através de Cristo e da Bíblia. Nesse sentido, a teologia serve de vestíbulo para a teologia revelada.

Fonte:

DEMAREST, B. A. Revelação Geral. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pág. 303 a 305.


Notas:

  • [1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico, educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021. Acesso em: 24/02/2026.










[1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico, educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021. Acesso em: 24/02/2026.