Por: Bruce B. Demarest [[1]]
Revelação Geral [2]
Revelação Geral é aquela
manifestação de Deus que é feita a todas as pessoas de todos os tempos e
lugares, mediante a qual elas vêm a saber que Deus existe, e como Ele é. Embora
não transmita verdades salvadoras tais como a trindade, a encarnação ou a
expiação, a revelação geral transmite a convicção de que Deus existe e que Ele
é autossuficiente, transcendente, imanente, eterno, poderoso, sábio, bom e
justo. A revelação geral, ou natural, pode ser dividida em duas categorias: (1)
interna, o senso inato da deidade e da consciência, e (2) externa, a natureza e
a história da providência.
1.
Resumo das Posições.
(1) Alguns estudiosos negam completamente a
realidade de qualquer revelação geral. Postulando uma distinção qualitativa
infinita entre Deus e o homem, e a destruição da imago Dei pela queda, Karl
Barth recusou-se a admitir qualquer revelação fora da Palavra de Deus. Para
Barth, a revelação significa a encarnação da Palavra, do Verbo.
(2) Outros reconhecem que a revelação geral é
uma realidade, mas negam que ela fica registrada como conhecimento concreto na
mente dos não-regenerados, escurecida pelo pecado. Sendo assim, a escola de
Kuyper, Berkouwer, Van Til e outros, dentro da Igreja Reformada Holandesa,
insiste que a natureza e a história apontam para Deus somente na experiência
daqueles cujo coração e mente tenham sido iluminados pela graça da regeneração.
(3) No outro extremo, muitos estudiosos
liberais insistem que a luz derramada pela revelação geral é suficiente para a
salvação. Uma tradição dentro dessa categoria focaliza a atenção no valor
iluminador da experiência religiosa extática. Com modificações mínimas,
Schleiermacher, Otto, Tillich e Rahner alegam que através de um encontro
não-cognitivo e místico, a alma humana entra num contato salvífico com Deus, a
Alma universal. Uma segunda tradição liberal alega que a mente humana,
utilizando o método científico, é capaz de esmiuçar toda a verdade que o homem
precisa para ordenar a sua vida. Nesse sentido, Henry P. Van Dusen, Harold
DeWolf e outros argumentam que, posto que a ordem mundial é causada por Deus e
reflete a Sua vontade, uma análise científica do homem e do seu meio-ambiente
levará a Deus.
(4) Aquino e a tradição tomista declaram que a
mente racional, ajudada pela analogia da existência entre Deus e o homem, e da
lei da causa e do efeito, é capaz de comprovar a existência de Deus e a
infinidade da Sua perfeição. Pela análise indutiva do mundo do espaço e do
tempo, Aquino construiu um corpo notável de teologia natural. Embora fosse
otimista a respeito da capacidade de o homem natural acumular conhecimentos
sobre Deus, ele ressaltava que a salvação depende de verdades superiores
transmitidas pela revelação especial.
(5) Autoridades como Agostinho, Lutero,
Calvino, Hodge, Warfield e Henry argumentam a favor da realidade objetiva da
revelação geral, e da sua utilidade limitada para transmitir um conhecimento
elementar da existência e do caráter de Deus. Agostinho sustentava que existia
uma intuição de Deus, capacitada pelo Logos, que servia como a base para
adquirir mais conhecimentos mediante a inspeção racional do mundo dos
fenômenos. Lutero reconhecia que "todos os homens têm o conhecimento
geral de que Deus existe, que Ele criou os céus e a terra, que Ele é justo, que
Ele castiga os iníquos, etc", Calvino insistiu, semelhantemente, que
"até mesmo homens iníquos são forçados, pelo mero contemplar da terra e
do céu, a subirem em direção ao Criador". Assim também registram a
Confissão Belga (II) e a Confissão de Fé de Westminster (1,1).
2.
Dados Bíblicos
No A.T., o discurso de Eliú dirigido a Jó (esp.
Jó 36.24-37.24) chama a atenção à chuva que rega a terra, ao trovão e aos raios
que infundem terror no coração, à fúria da tempestade e ao brilho fulgurante do
sol depois da tempestade. O texto sugere que esses fenômenos naturais atestam o
poder, a majestade, a bondade e a severidade do Deus Criador, e que os dados
estão presentes para todos contemplarem (Jó 36.25). Além disso, o discurso que
Deus dirigiu a Jó (esp. Jó 38.1-39...) transmite a ideia de que os fenômenos naturais (trovão, relâmpago,
chuva, neve), o nascer do sol todas as manhãs, as constelações majestosas nos
céus, e a complexidade e os inter-relacionamentos harmoniosos no reino animal,
todas essas coisas atestam a existência e a glória de Deus.
De acordo com Sl 19, Deus Se revela através de
uma obra em dois volumes: o livro da natureza (vv. 1-6) e o livro da lei (vv.
7-13). No primeiro volume, lemos: "Os céus proclamam a glória de Deus e
o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (v. 1). Aquilo que a
ordem criada demonstra é a "glória" (kābôd), a saber: a manifestação
externa daquilo que Deus é no Seu íntimo e dos Seus atributos. A revelação da
glória de Deus nos céus é declarada perpétua ou ininterrupta (v. 2), muda ou
inaudível (v. 3), e de alcance mundial (v. 4). Por Sab. [?] Sal. 13.5, fica
claro que o judaismo acreditava numa revelação geral na natureza: "Pois
a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor".
No prólogo do seu evangelho, João faz duas
asseverações a respeito do Verbo eterno. Em primeiro lugar: "A vida
estava nele, e a vida era a luz dos homens" (1.4). E, em segundo
lugar, o Verbo é "a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo
homem" (1.9). Os gregos identificavam o Logos com o poder divino que
energiza a vida intelectual e moral do homem. A sabedoria, o conceito judaico
paralelo, era considerada como o poder de Deus operante no mundo para criar,
iluminar e renovar (cf. Sab[?] Sal. 7.22-9.18). Parece provável, portanto, que
em Jo 1.4,9 o apóstolo tenha em mente a obra universal do Logos mediante a qual
a mente humana é divinamente iluminada para perceber a Deus como um princípio
elementar, de modo semelhante ao "senso da divindade" ou
"semente da religião" de Calvino.
Pregando aos gentios em Listra, Paulo e Barnabé
apelaram aos conhecimentos que eles e seus ouvintes tinham em comum, como
resultado da revelação geral: a saber, que Deus é o Criador de todas as coisas
(At 14.15), e o provedor que supre todas as necessidades da vida (v. 17). Ao
lidar bondosamente com a humanidade, Deus "não se deixou ficar sem
testemunho (amarturon) de si mesmo" (v.
17). De modo semelhante, no seu discurso diante dos atenienses pagãos (At
17.24-31) Paulo se referiu, como ponto de contato, às verdades que o seu
auditório conhecia em virtude da autorrevelação universal de Deus na natureza e
na história. Essas verdades incluem:
1)
Deus é o Criador e o Soberano do universo (At 17.24);
2)
Ele é autossuficiente (v. 25a);
3)
Ele é a fonte de toda a vida e de todo o bem (v. 25b);
4)
Ele é um ser inteligente que formula planos (v. 26);
5)
Ele é imanente no mundo (v. 27); e
6)
Ele é a origem e o fundamento da existência humana (v. 28).
Em Rm 2.14-15, Paulo ensina que uma modalidade
adicional da revelação geral é a lei moral implantada, da qual o coração dá
testemunho mediante a faculdade da consciência. Todos os homens são culpados
por transgredirem a lei, argumenta Paulo: os judeus, porque violaram a lei
escrita em pedras, e os gentios, porque deixaram de viver segundo a lei moral
escrita no seu coração (cf. Rm 1.32). Existe, comunicado a toda pessoa racional
mediante o poder da consciência, um supremo Legislador e Suas exigências
morais.
O ensino mais claro no sentido de que todas as
pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus como Criador ocorre em Rm
1.18-21. Paulo argumenta que mediante a revelação universal na natureza, Deus é
"claramente reconhecido" (v. 20), "percebido" (v. 20) e
"conhecido" (v. 19; cf. v. 21). Aquilo que o homem fica conhecendo é
definido como o conjunto de atributos invisíveis de Deus Seu eterno poder e Sua
natureza divina (theiotes - "divindade"). O substantivo grego theiotes
significa a totalidade das perfeições que compõem a Deidade. Além disso, o
apóstolo declara que esse conhecimento elementar de Deus é adquirido pela
reflexão racional sobre a ordem criada (v. 20). A palavra ginoskō
("conhecer, saber") usada nos w. 19, 21 significa perceber com os
sentidos e entender com a mente.
3. Implicações
As
Escrituras ensinam que a reação correspondente do pecador quando é confrontado
com o conteúdo da verdade da revelação geral é alijá-lo da sua consciência (Rm
1.21-32). A pessoa irregenerada, portanto, ao invés de adorar a Deus e
obedecer-Lhe, assevera a sua própria autonomia e faz ídolos sem vida, passando,
então, a venerá-los. Diante disso, Deus deliberadamente entrega o homem aos
sórdidos impulsos da sua própria natureza pecaminosa (Rm 1.24, 26, 28). Ao
invés de demonstrar-se salvadora, a revelação geral serve apenas para condenar
o pecador e estabelecer sua condição de culpado diante de Deus (Rm 1.20).
Mesmo assim, a revelação geral serve para
várias finalidades salutares.
(1)
A lei moral implantada universalmente, fornece a única base autêntica pela qual
se pode distinguir entre o bem e o mal. O fato de que o bem é recomendado e o
mal é proibido fornece à sociedade a única estrutura viável para a sua
existência.
(2)
Visto que todas as pessoas possuem um conhecimento rudimentar de Deus, a
testemunha cristã tem certeza de que quando fala a um pecador, a noção de Deus
não é um código sem sentido. E
(3)
a revelação geral fornece a base racional para a revelação salvadora de Deus
que nos é dada através de Cristo e da Bíblia. Nesse sentido, a teologia serve
de vestíbulo para a teologia revelada.
Fonte:
DEMAREST, B. A. Revelação Geral.
In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia
Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São
Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pág. 303 a 305.
- [1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico, educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021. Acesso em: 24/02/2026.
- [2] Imagem ilustrativa, disponível em: <https://estiloadoracao.com/revelacao-geral/>. Acesso em: 24/02/2026.
[1] Bruce B. Demarest (1935–2021) foi um teólogo evangélico americano, acadêmico,
educador e autor de destaque, conhecido especialmente pela sua contribuição à
teologia sistemática e à formação espiritual. Ele foi Professor Sênior de Teologia Cristã e Formação Espiritual no Denver Seminary, nos
Estados Unidos, onde lecionou de 1975 até sua aposentadoria... In: https://www.biola.edu/blogs/good-book-blog/2021/in-memoriam-bruce-a-demarest-1935-2021.
Acesso em: 24/02/2026.