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25 de abril de 2026

A democracia é uma forma cristã de governo?

 Por: Gotquestions [1]

Cristianismo e Democracia [2]

Todo ciclo eleitoral levanta a questão da religião e seu papel no governo. Isso leva muitos a se perguntarem sobre a relação entre o cristianismo e a democracia. A democracia é uma forma cristã de governo? A democracia é religiosamente neutra? Ou ela é contraditória com a Bíblia? Há uma diferença entre o fato de as ideias poderem ou não coexistir e o fato de serem ou não inseparáveis.

Em resumo, a democracia e o cristianismo são compatíveis. Obviamente, isso significa que essas ideias não são contraditórias. Na verdade, tem-se argumentado que a democracia funciona de forma mais eficaz em uma cultura cristã. Ao mesmo tempo, a democracia não é necessariamente uma forma cristã de governo. Não há nenhum aspecto necessário da democracia que exija absolutamente uma visão de mundo cristã. O cristianismo em si não exige a democracia ou qualquer outra forma de governo terreno.

A democracia pode ser uma forma cristã de governo e, provavelmente, é mais bem apoiada por uma cultura cristã, mas não é a única forma válida de governo cristão, e a democracia pode existir à parte de uma visão de mundo cristã.

A política e a religião compartilham interesses comuns. Toda lei é baseada em algum princípio moral. A "política" em geral é uma discussão sobre quanto controle, liberdade e poder as pessoas devem ter e até que ponto devem ser forçadas a agir da mesma forma. Esse é um detalhe importante: religião e política se sobrepõem parcialmente, mas não são a mesma coisa. Assim como alguns sentidos se sobrepõem, como o olfato e o paladar ou a audição e o tato, a política e a religião inevitavelmente se cruzam. Mas elas não são a mesma coisa. Uma exceção notável seria uma religião como o Islã, que explicitamente elimina qualquer distinção entre o governo terreno e a crença religiosa.

A despeito do que alguns ateus modernos pensam, o princípio da separação entre Igreja e Estado não significa que o raciocínio religioso não tenha lugar na política. A postura espiritual de uma pessoa não só pode influenciar sua política, como o fará. Eliminar fatores religiosos das políticas públicas é simplesmente um ateísmo imposto pelo Estado. Isso, é claro, não é funcionalmente diferente de uma teocracia, onde o governo é dado apenas àqueles com uma visão particular da metafísica.

A separação entre a igreja e o estado tem o objetivo de impedir que essas duas instituições exerçam controle formal uma sobre a outra. Nos Estados Unidos, em particular, a intenção original da Primeira Emenda tinha mais a ver com impedir que o governo interferisse nas igrejas do que com manter as ideias religiosas fora do governo.

Conforme observado, a Bíblia não prescreve nenhuma forma específica de governo, seja ela democrática ou não. O sistema dado ao povo judeu no Antigo Testamento foi planejado exclusivamente para a nação de Israel. Os cristãos são chamados a cooperar com o conceito básico de governo (Romanos 13:1-7), independentemente da forma que ele assuma. Ao mesmo tempo, somos instruídos a obedecer a Deus e não ao homem quando as leis humanas entram em conflito com a Bíblia (Atos 5:29). Isso não significa necessariamente uma revolução armada, mas mantém a ideia de que o cristianismo considera o governo humano e a espiritualidade pessoal como duas categorias distintas.

A democracia e o cristianismo compartilham várias premissas fundamentais que os tornam parceiros naturais. A origem do que hoje chamamos de "democracia moderna", no século XVIII, foi uma cultura nominalmente cristã. Portanto, é de se esperar que suas premissas políticas reflitam os princípios religiosos.

Um exemplo importante da influência do cristianismo na política dos EUA é a Declaração de Independência. Esse documento foi criado para justificar a rebelião colonial contra o rei da Inglaterra. Como tal, ele faz referência a ideias como verdade objetiva, um "Criador", igualdade humana, valor intrínseco e responsabilidade pessoal. Todas essas ideias, de fato, são encontradas em uma única frase da Declaração:

"Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre eles estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade."

Essa afirmação, por si só, está fundamentalmente em desacordo com praticamente todas as visões de mundo que não sejam teístas. O ateísmo rejeita um Criador e não tem meios para reivindicar "direitos inalienáveis" ou valor intrínseco. O sistema de castas e o carma do hinduísmo refutam a igualdade humana. A ideia da verdade evidente contradiz todas as formas de relativismo. A ideia básica de um governo independente do controle religioso explícito é estranha ao Islã. A questão não é afirmar que os Estados Unidos ou outras democracias são explícita e irrevogavelmente cristãs. Tampouco que seja impossível, na prática, que pessoas com visões de mundo não cristãs participem como cidadãos em uma democracia. Entretanto, um exame da teologia cristã e da democracia política mostra muitos pontos em comum. Isso não se aplica à maioria das outras visões de mundo e, de fato, a maioria dos sistemas religiosos entra em conflito direto com vários aspectos da democracia.

A história comprova isso, demonstrando a relação lógica entre as crenças religiosas de uma cultura e sua posição política. Na prática, o "padrão ouro" de liberdade e direitos humanos são as nações com herança cristã. E, quando as forças contrárias à democracia buscam o controle, um de seus primeiros alvos é a fé cristã.

O cristianismo também ajuda a reforçar a maior fraqueza da democracia: a dependência da fibra moral da cultura. Ao contrário de ditaduras ou monarquias, em que a bússola moral de uma única pessoa orienta as leis e políticas da nação, a democracia vai até onde a cultura vai. Em geral, isso é bom. Significa especialmente que uma pessoa malvada tem dificuldade em causar estragos nacionais. No entanto, isso também significa que, à medida que a cultura se afasta dos bons princípios morais, ela não tem defesa contra o "naufrágio", por assim dizer. Uma nação que usa o poder democrático para fins egoístas ou irresponsáveis canibalizará sua própria liberdade.

Como disse o fundador dos EUA, Benjamin Franklin: "O homem acabará sendo governado por Deus ou por tiranos". Quando uma cultura abusa de seu poder democrático, o resultado é o caos e a ruína. Ou uma democracia, guiada pelo autocontrole e pela moralidade, mantém-se sob controle ou desaba. Quando o colapso acontece, o controle recai sobre um sistema não democrático, seja voluntariamente ou pela força. As culturas que se afastam do cristianismo tendem a se afastar da "verdadeira" democracia para outros esquemas políticos com sabor de democracia e, por fim, para a sujeição à tirania.

Esse declínio da democracia faz sentido do ponto de vista lógico. A democracia moderna surgiu de uma cultura imersa em uma visão de mundo judaico-cristã. É lógico que, quanto mais uma cultura se afasta dessa visão de mundo, menos compatível ela é com essa forma de governo.

A democracia, em suas várias formas, presume que as pessoas, como um todo, são dignas de fazer escolhas por si mesmas. Ela pressupõe que as pessoas estão dispostas e são capazes de tomar decisões moralmente sensatas e que acatarão essas decisões em um espírito de respeito mútuo. A democracia pressupõe o valor dos seres humanos e uma definição de certo e errado que prevalece sobre as leis do país. O cristianismo ensina os mesmos princípios básicos, o que o torna a adaptação cultural mais natural para a democracia.

Outras visões de mundo podem cooperar com a democracia; entretanto, elas não têm a mesma conexão fundamental que o cristianismo. A democracia é uma forma de governo naturalmente cristã, mas não é um esquema político necessariamente cristão.

Notas:

  • [2Cristianismo e Democracia. Imagem ilustrativa, feita através de I. A. chatgpt.com, em: 25/04/2026.

14 de fevereiro de 2026

Religião Civil

Por: Richard V. Pierard [1]

Religião Civil: imagem ilustrativa [2]

Também chamada religião cívica, pública ou política, a religião civil refere-se à aceitação generalizada por um povo de um conjunto de traços político-religiosos ligados à história e ao destino da sua nação. Serve para relacionar a sua sociedade com o âmbito do significado último, possibilita a auto interpretação da sociedade e funciona como o simbolismo integrante da nação. É a "religião operante" de uma sociedade (Will Herberg), o sistema de rituais, símbolos, valores, normas e lealdades que atuam na vida contínua da comunidade e que lhe fornecem um senso abrangente de união que transcende todos os conflitos e diferenças internos. Uma religião civil é característica por referir-se ao poder dentro do Estado, contudo transcende aquele poder ao focalizar-se nas condições últimas. Teoricamente, fornece tanto a justificativa para o poder como uma base para criticar aqueles que o exercem. A fé "civil" deve, em certo sentido, ser independente da igreja como tal; de outra forma, será uma mera legitimação do Estado pela igreja. Deve ser também genuinamente uma "religião"; caso contrário, será apenas um nacionalismo secular (Phillip Hammond). Requer uma "teologia civil", porque esta oferece à sociedade um significado e um destino, interpreta a experiência histórica e fornece um senso de dinamismo, unicidade e identidade (Maureen Henry). Reduzida aos seus fundamentos, a religião civil significa que o estado utiliza um consenso de sentimentos, conceitos e símbolos religiosos - direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente – visando seus próprios propósitos políticos. Os comentaristas consideram-na uma fé religiosa "geral" e a contrastam com a fé "particular de grupos sectários ou denominacionais, que conseguem a lealdade de apenas um segmento da população.

Embora as características comumente associadas com a religião civil remontem até ao passado distante, à antiguidade clássica quando cada polis grega tinha seus próprios deuses, dogma e culto, Platão desenvolvesse as linhas gerais de uma teologia civil em A República, e o imperador romano funcionasse tanto como o sacerdote principal na religião do estado quanto como um objeto de adoração, o termo propriamente dito foi cunhado por Jean Jacques Rousseau em O Contrato Social (1762). Ele identificava a fé civil como algo que pudesse lidar com a diversidade religiosa e, ao mesmo tempo, firmar a lealdade do povo à sociedade civil, de modo que a paz social fosse conseguida e garantida depois de uma longa era de guerras destruidoras provocadas pelas diferenças religiosas. Foi somente nas décadas de 1950 e 1960, no entanto, que a religião civil veio a ser um tópico importante da discussão teológica. O catalisador que a impulsionou para o centro da atenção erudita foi um estudo apresentado pelo sociólogo Robert N. Bellah em 1965, que asseverava com ousadia: "Poucas pessoas têm percebido que realmente existe, lado a lado com as igrejas e bem claramente diferenciada delas, uma religião civil esmerada e bem institucionalizada nos Estados Unidos". O que se seguiu foi um debate caloroso quanto à natureza da fé pública, e até mesmo quanto à sua validade como conceito.

O problema chave era a definição, que continua como alvo de contenda e intensa confusão entre os estudiosos da religião civil. Russell E. Richey e Donald G. Jones procuraram resolver a dificuldade esboçando cinco significados gerais, essencialmente inter-relacionados entre si, propostos por vários escritores, especialmente aqueles que tratam do fenômeno norte-americano. São:

(1)  a religião folclórica – a religião comum que emerge do espírito do povo e da história da sociedade, e que está em concorrência com a religião particularista;

(2)  a religião universal transcendente da nação – uma  crença  que  a  nação  tem  em comum, que condena os costumes folclóricos do povo e da nação, e que corrige as tendências idólatras em formas específicas do cristianismo e do judaísmo;

(3)  o nacionalismo religioso – a nação assume um caráter soberano, transcendente em si mesma, tornando-se objeto de adoração e glorificação;

(4)  a democrática – os valores humanitários da igualdade, liberdade e justiça que existem sem necessariamente depender de uma deidade transcendente ou de uma nação espiritualizada que represente a religião civil na sua máxima qualidade;

(5)  a piedade cívica protestante – a fusão entre o protestantismo e o nacionalismo no espírito característico norte-americano, que se reflete no moralismo, individualismo, ativismo, pragmatismo e transformação do mundo em campo missionário.

Uma alternativa oferecida por Martin E. Marty propõe que há dois tipos de religiões cívicas: aquela que vê uma deidade objetiva e transcendente como o ponto de referência para o processo social (a nação sob a orientação de Deus) e aquela que ressalta a autotranscedência nacional. Dentro destes tipos há duas abordagens – a "sacerdotal", que é celebrativa, afirmativa e edifica a cultura, e a "profética", que é dialética, mas tende a ser condenatória. Na primeira categoria, ele inclui Dwight Eisenhower como sacerdote e Jonathan Edwards, Abraham Lincoln e Reinhold Niebuhr como profetas. No grupo auto transcendente nacional coloca Robert Welch, Richard Nixon e J. Paul Williams como sacerdotes, e Sidney Mead e Robert Bellah como profetas. Argumentando numa direção totalmente diferente, John Murray Cuddihy sustentava que a fé norte-americana nada mais é do que uma "civilidade religiosa", um código complexo de ritos que instrui as pessoas a serem religiosamente inofensivas, tolerantes e sensíveis para com as crenças de outras pessoas. John F. Wilson sugeriu que as ambiguidades no debate da religião civil têm sua origem nas "formas de análise misturadas de maneira não-critica e na confusão de modelos por parte dos diferentes intérpretes", e delineou quatro "construções" principais, sendo que cada uma delas é baseada num conjunto distinto de premissas e de tradições intelectuais. Os modelos são:

(1)  social – enfatiza cada coletividade ou entidade social como sagrada;

(2)  cultural – orientado em direção à análise do funcionamento de um conjunto específico de valores em termos da interação entre os membros de uma determinada ordem da sociedade, ou seja: a união e coerência simbólicas de uma sociedade;

(3)  político – examina o papel do comportamento e crenças religiosos dentro de uma sociedade política;

(4)  teológico – coloca o conteúdo da religião pública em uma estrutura abrangente de significado que providencia normas para a ordem política, para a cultura geral e para a sociedade como um todo.

Embora seja óbvio que a religião civil seja um conceito extremamente vago e controvertido, escritores têm detectado as suas manifestações numa vasta gama de países e sociedades, especialmente na Inglaterra, na África do Sul, no Japão e nos Estados Unidos. A maior parte da atenção tem sido dedicada ao cenário norte-americano, onde apareceu uma religião civil que permitiu que a nação fosse entendida de maneira transcendente ao passo que, ao mesmo tempo, o pluralismo religioso florescia nas raízes. Visto que havia uma necessidade de símbolos comuns para objetivos nacionais que nenhuma igreja individual poderia fornecer, e visto que as pessoas, sendo ou não membros de igrejas, sentiam-se livres para empregar símbolos religiosos, as chamadas instituições seculares e seus funcionários ocuparam um lugar de preeminência na religião civil. A ideologia que subjazia essa aliança entre a política e a religião era:

(1)  que Deus existe;

(2)  que a Sua vontade pode ser conhecida através de processos democráticos;

(3)  que a América do Norte tem sido o agente primário de Deus na história; e

(4)  a nação tem sido a principal fonte de identidade para os norte-americanos.

Eles [norte-americanos] eram considerados como o povo escolhido de Deus que fez o êxodo para a terra prometida além do mar, que veio a ser uma cidade num monte, uma luz para as nações, proclamando a mensagem da democracia como a doutrina de salvação que levaria a humanidade à liberdade, prosperidade e felicidade. Evidências da fé civil incluem figuras bíblicas e referências ao Deus Onipotente e à providência que têm permeado os discursos e os documentos públicos dos líderes norte-americanos desde os tempos mais antigos, a bandeira da nação exibida com destaque nos santuários das igrejas, a inclusão de "sob a orientação de Deus" no Compromisso da Lealdade, e, acima de tudo, o lema nacional: "Confiamos em Deus".

Aqueles que apoiam a religião civil insistem que as ideias de transcendência e aliança tornem a nação responsável, constituem-se em cimento numa sociedade que de outra forma é heterogênea, desafiam o país a concretizar seus ideais mais nobres e servem como instrumentos nas mãos de líderes políticos sábios (tais como Lincoln e Martin Luther King, Jr.) para inspirar as pessoas a galgarem níveis mais altos de realização.  Seus críticos a condenam por idolatrar a nação, por tentar os entusiastas patrióticos a distorcer e até mesmo falsificar a história nacional, a fim de fazê-la encaixar-se nos preconceitos da religião civil, de aviltar a dignidade de Deus reduzindo-O ao nível de uma deidade tribal, fornece uma ferramenta para os líderes públicos angariarem apoio para políticas e aventuras duvidosas, desconsiderando as necessidades das minorias subjugadas dentro da comunidade nacional.  Muitas pessoas comentam que a fé evangélica, bíblica, é incompatível com a religião civil, mas não há consenso quanto a isso na comunidade protestante conservadora.

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Veja também:

·        Cristianismo e Cultura.  

·        Cultura e Evangelho.

·        Cultura e religião: o homem e sua busca pelo transcendente.

·        Dogma e dogmatismo: breve análise teológica.


Fonte:

PIERARD, Richard. V. Religião Civil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. III (Pág. 272 a 275 – Texto adaptado). 



[1] R. V. PIERARD, Doutor da Universidade de Iowa. Professor de História na Universidade Estadual de Indiana, Terre Haute, Indiana, EUA… (E mais aqui).

[12] Imagem meramente ilustrativa que representa a fusão simbólica entre crenças religiosas e identidade nacional ou estatal, como bandeiras com cruzes, monumentos cívicos com elementos sagrados, criada por I. A. do Perplexity.ai com fonte identifica em: Shutterstock.com. Acesso em: 13/02/2026.

 

8 de dezembro de 2025

Ética Social: breve análise teológica

 Por: David W. Gill

Resumo em áudio:

...

Capa do livro de D. W. Gill [1]

Sobre o assunto ética, já publicamos neste blog: Ética e  moral, Ética bíblica, Ética situacional, além de assuntos correlatos. E continuamos, desta vez, destacando o conceito de Ética social[2], à luz da Bíblia.

Entende-se por ética social o estudo das questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição, conforme elas surgem num contexto social.

1.    Introdução e Definição

O governo público, a política, as ciências econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime: estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua com estes campos correlatos.

Conforme acontece no caso de outros subcampos da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente (proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.

É impossível manter uma distinção clara e precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos (raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal focaliza o agente moral individual.

Como no caso da ética pessoal, a ética social dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir (decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.

Somente nestes últimos cem anos é que a ética chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi sugerido acima.

2.    Análise e Discernimento

A primeira tarefa da ética social cristã é a análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação a estas.

a)    A Revelação e a Observação

A análise ética social cristã avança numa dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social, mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios humanos.

b)   A Criação

Boa parte da ética social teológica tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou "esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus. Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia, raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".

Quer a ética social esteja fundamentada basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã (cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).

c)    A Queda

Por mais importante que a doutrina da criação seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade (Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação, divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.

Perspectivas posteriores no pensamento hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus. Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo, transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).

d)   Lei e Justiça

A ética social cristã, e na verdade toda ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino, João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).

De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã. "Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas, em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem divina e de solicitude humana.

e)   O Reino de Deus

Até os éticos sociais das ordens-da-criação mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre. A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas, o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho, Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e tudo o mais.

É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de "plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17) e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo, do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.

f)     Escatologia

A ética social cristã é fundamentalmente escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap 18) e da nova Jerusalém (Ap 21).

É neste juízo final que os principados e potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria, pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações. Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.

 

3.    A Estratégia e a Implementação

A primeira tarefa da ética social cristã, portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da estratégia e da implementação.

a)   Perspectivas Tradicionais

A reflexão contemporânea sobre como a convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da implementação das preocupações éticas sociais cristãs.

O livro de Troeltsch, The Social Teaching of the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs, com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária, anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo" é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem conversionista.

As tipologias sociais científicas e históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e “leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.

a)   A Oração e a Evangelização

Do ponto de vista da ética social bíblica, as atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações, intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.

Faz, também, parte básica do ponto de vista cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os agentes morais individuais.

b)   Comunidade Alternativa

Longe de se tratar de um afastamento irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios pelos quais esta estratégia pode ser empregada.

Comunidades cristãs alternativas têm uma relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeiro lugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundo lugar, a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo) contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades alternativas na sociedade. Em terceiro lugar, a comunidade cristã fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quarto lugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quinto lugar, a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de discernimento, mas também de ação social.

c)    A Participação Institucional

Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a convicção ética. A política eleitoral, as reformas legislativas, as ativações comerciais e profissionais e a educação pública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas por dois critérios. Em primeiro lugar, nenhum cristão está, em caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundo lugar, nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.

d)   Meios e Fins

A ética social bíblico-cristã, tanto no discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e fins.

Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Capa de Word of God in the Ethics of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
  • [2] GILL, David W. Ética Social. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São Paulo: Vida Nova: 1988, Pág.  97 a 102 (Texto adaptado).

27 de outubro de 2025

Ética situacional: breve análise bíblica

 
Ilustração: Ética situacional [1]

Sobre o conceito de ética, já vimos brevemente: Ética x moral; Ética bíblica; Ceticismo e ética;  Ética situacional... Sobre este último, vimos como Fletcher analisa a ética do ponto-de-vista da “lei do amor”. A ética situacional de Joseph Fletcher defende que a única lei moral absoluta é o amor (ágape), e que as decisões morais devem ser tomadas com base nas circunstâncias de cada situação, e não em regras fixas. O amor, entendido como uma ação sacrificial e não apenas como sentimento, guia a escolha do que é melhor para a situação em questão, justificando o uso de qualquer meio se o fim for amoroso... Mas, a Bíblia realmente ensina a ética situacional? Vejamos a seguir o que diz o Ministério Got Questions [2] sobre isto.

A ética situacional é uma visão particular da ética moral que sustenta que a moralidade de um ato é determinada por seu contexto. A ética situacional afirma que se há um certo e errado, ele é simplesmente determinado pelo resultado desejado da situação. A ética situacional é diferente do relativismo moral porque o relativismo moral afirma que não há certo ou errado. A ética situacional desenvolve um código de ética no qual atender às necessidades de cada situação determina o que é certo ou errado.

De capa a capa, a Bíblia é verdadeira, consistente e aplicável. A Bíblia ensina, admoesta ou até mesmo inclina-se a defender a ética situacional? A resposta curta é "não". Vamos considerar três princípios: 1) Deus é o criador e sustentador. 2) Toda a Palavra de Deus é verdadeira, até mesmo as partes de que não gostamos ou entendemos. 3) O certo e o errado são determinados e definidos por quem Deus é.

1.    Deus é o criador e sustentador

A ética situacional afirma que a moralidade é determinada pelo ambiente ou circunstância. A Palavra de Deus diz que a moralidade é determinada pela soberania de Deus, pois Ele é o criador e sustentador. Isso não é uma questão de semântica, mas de fato. Ainda que Deus desse um comando para um grupo de pessoas e o proibisse a um outro grupo, a determinação de que é certo ou errado, ético ou não, não se baseia na situação, mas sim no comando de Deus. Deus tem a autoridade para governar o certo e o errado. Romanos 3:4 diz: "Antes seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso."

2.    Toda a Palavra de Deus é verdadeira

Sugerir que a Bíblia defende a ética situacional seria implicar que ela contém erros. Isso não é possível. Não é possível por causa do número 1, Deus é o criador e sustentador.

3.    O certo e o errado são definidos por quem Deus é

O amor é a natureza de Deus. Ele define o que o amor é, não pelo que faz, mas simplesmente por quem é. A Bíblia diz: "Deus é amor" (1 João 4:16). O amor é desinteressado e atencioso com os outros, nunca procura a sua própria glória ou prazer (1 Coríntios 13). Portanto, em virtude de quem é Deus, a Bíblia, sendo dada por Deus e sendo completamente verdadeira, não pode conter um sistema de ética que desafiaria a natureza de Deus. A ética situacional encontra o certo e o errado para agradar a maioria ou uma única pessoa por egoísmo. O amor é o oposto. O amor procura incentivar e encorajar outras pessoas.

Dois problemas fundamentais com a ética situacional são a realidade de uma verdade absoluta e o conceito de amor real. A Bíblia ensina a verdade absoluta, a qual ensina que o certo e o errado são pré-determinados por um Deus Santo. E o amor – a definição de Deus do amor verdadeiro, honesto e real – não deixa espaço para motivações egoístas ou impuras. Mesmo se alguém dissesse que a situação exige abnegação, ainda é uma determinação humana e não divina. As razões de um ser humano para determinar o que é melhor sem o amor verdadeiro são fundacionalmente[3] egoístas.

Então o que acontece quando as coisas parecem certas, mas Deus diz que são erradas? Temos de confiar na soberania de Deus e confiar "que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28). Se nós pertencemos a Cristo, Deus nos deu o Seu Espírito (João 16), e por meio dEle temos uma compreensão do que é certo e errado. Através dEle, somos convencidos, incentivados e orientados para a justiça. Um desejo sincero de conhecer a verdade de um assunto, juntamente com a busca de Deus, será recompensado com a resposta de Deus. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos" (Mateus 5:6).     

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Vejamos mais estes textos [4] / comentários:

 “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.  Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Co 2.14-16).

Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.21)

E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (1Jo 2.20,27).

Comentando sobre 1Co 2.14 (Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente), o Dr. C. I. Scofield [5] destaca: “Paulo divide os homens em três classes:

1) psuchikos, significando dos sentidos, sensuais (Tg 3.15; Jd 19), naturais, isto é, o homem adâmico, não renovado pelo novo nascimento (Jo 3.3,5);

2) pneumatikos, significando espirituais, isto é, o homem renovado cheio do Espírito e andando no Espírito em comunhão com Deus (Ef 5.18-20); e

3) sarkikos, significando carnais, isto é, o homem renovado que, andando ‘segundo a carne’, permanece uma criancinha em Cristo (I Co 3.1-4). O homem natural pode ser culto, educado, eloquente, fascinante, mas o conteúdo espiritual das Escrituras lhe é absolutamente oculto; e o cristão carnal só consegue entender as verdades mais simples, ‘o leite’ (1 Co 3.2)”.

São os espirituais que conseguem "julgar todas as coisas" em uma situação complexa que requer discernimento fora do comum e que pode gerar consequências dependendo das escolhas a serem tomadas. Ao decidirem fazer a escolha correta segundo os princípios divinos podem pagar um preço por esta escolha. Essa capacidade de escolha da verdade permite aos seguidores espirituais avaliar a veracidade de ensinamentos e distinguir entre o certo e o errado, mas não se opõe ao mandamento de não julgar de forma hipócrita ou condenatória, especialmente em questões pessoais. E, por falar em escolhas arriscadas, veja o exemplo da aparente “mentira” de Raabe no vídeo a seguir, de Leandro Quadros:


Notas / Referências bibliográficas:

  •  [1] Imagem meramente ilustrativa feita através do Chat Gpt, em 17/10/2025.
  •  [3] Fundacionalismo: “... uma vertente da epistemologia que afirma que só podemos ter certeza de algo se, em algum ponto da linha, pudermos rastreá-lo até uma verdade indubitável e irrefutável. Essa verdade servirá como base a partir da qual todos os nossos outros conhecimentos e crenças poderão ser construídos e justificados...” (In: Expresso existencial). Veja também: Coerentismo e fundacionalismo.  
  •  [5] SCOFIELD, C. I. Nota sobre 1Co 2.14. In: Bíblia Sagrada (ARA). São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil: 1987.